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Vasyl Bundzyak, o padre que une e ajuda a comunidade ucraniana 

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Vasyl Bundzyak é o presidente da UPE – Associação Centro Social e Cultural Luso-Ucraniano, que ainda está a dar os primeiros passos como instituição oficial. Ajudar a comunidade emigrante em Portugal, mas também a população ucraniana que reside nas zonas de conflito é o objectivo do movimento liderado por este padre ortodoxo.

 

Natural de Yakivka, no distrito de Ivano Frankivsk,Vasyl, actualmente com 42 anos, cresceu no ambiente da União Soviética. Com uma “infância isolada” num “país isolado”, este ucraniano frequentou a Escola Profissional durante três anos, num curso de carpintaria.

“Era tudo gratuito”, recordou.

Aos dezoito anos, e tal como todos os outros jovens Vasyl teve que ir para a tropa, uma vez que o serviço militar era obrigatório durante dois anos.

“Quem não ia à tropa não era homem”, gracejou.

Ingressou no serviço militar a 21 de Novembro de 1991, e no seguinte dia 1 de Dezembro decorreram as eleições de independência da Ucrânia. Na tropa, Vasyl foi vigilante no armazém das armas, entre outras funções.

Estes dois anos foram fundamentais na vida de Vasyl Bundzyak e mudariam o seu percurso.

“Vi muitas coisas nada agradáveis. Via coisas muito más e só pensava que tinha que ajudar a mudar o mundo para melhor”, contou.

Foi então que tomou a decisão de ser padre. Em 1994 entrou na Faculdade de Filosofia e Teologia da Chernivtsi National University e dois anos depois foi ordenado. Nessa altura já era casado e sempre contou com o apoio da família.

“Na igreja ortodoxa, se quando somos ordenados já formos casados não há problema, se não formos casados não podemos casar depois da ordenação”, explicou.

Terminou o curso em 2000 e dois anos depois decidiu emigrar.

“Na Ucrânia a vida era difícil, ganhava muito, muito pouco. Naquela altura falava-se muito de Portugal e que cá se ganhava bem”, explicou.

Fez as malas e no dia 12 de Junho partiu no comboio até à Alemanha. Da Alemanha viajou para França de autocarro e depois para Portugal também no mesmo meio de transporte, tendo chegado a Balasar, em Vila do Conde no dia 16 de Junho.

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Inicialmente foi ajudado por uma amiga e em Dezembro foi contactado pelo padre Joaquim Morais que o chamou para Braga de forma a celebrar missa para a comunidade emigrante e no dia 7 de Abril de 2003 celebrou a primeira missa, Igreja da Lapa na Praça da República, em Braga.

“Nunca me vou esquecer desse dia”, garantiu, frisando que a iniciativa foi “uma boa maneira e juntar os ucranianos” que vivem na região de Braga, uma comunidade que actualmente ronda as sete centenas.

 

“A missa é um ponto de encontro para as pessoas se conhecerem e de se ajudarem. Até ali era cada um por si, mas depois começaram a partilhar problemas e soluções. Tornou-se uma comunidade mais unida”, vincou.

Entretanto, também foram constituídas comunidades ortodoxas em Aveiro e Vila Real.

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A situação dos ucranianos que viviam em Portugal, mas também dos que vivem no seio do conflito no seu país chamou a atenção do sacerdote, que pensou numa forma de os ajudar.

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Por esta altura, Vasyl Bundzyak teve o primeiro contacto com o Centro Europe Direct na Escola Secundária Carlos Amarante, em Braga, numa acção contra a discriminação.

“Quando decidi criar um movimento para ajudar estas pessoas ganhei coragem e telefonei para o contacto que tinha. A minha ideia foi muito bem acolhida e uma vez que a situação na Ucrânia é preocupante fomos à procura de pessoas de bem”, contou, salientando que o presidente da União de Freguesias de Maximinos, Sé e Cividade, em Braga, foi um dos principais impulsionadores.

 

“Passado pouco tempo estávamos a fazer um espectáculo para chamar a atenção para a situação”, declarou.

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Vieram mais espectáculos em Aveiro e Viana do Castelo e houve um convívio intercultural luso ucraniano na Escola Superior Agrária do Instituto Politécnico de Viana do Castelo, numa iniciativa em que se pretendeu partilhar conhecimentos e tradições. O mesmo aconteceu numa escola em Freixo, Ponte de Lima, onde através de vídeo conferência os alunos puderam trocar impressões.

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No entanto, os impulsionadores destas actividades, pretendendo angariar mais fundos para poder chegar a mais gente, chegaram à conclusão que se não houvesse uma instituição com personalidade jurídica seria “muito difícil”.

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Foi, então, que nasceu a UPE – Associação Centro Social e Cultural Luso-Ucraniano há cerca de um mês. O objectivo é a angariação de fundos para apoio social e económico à comunidade ucraniana residente em Portugal, bem como a promover o intercâmbio cultural luso-ucraiano. Numa altura em que vivem em Portugal cerca de 45 mil ucranianos, pretende-se estreitar relações entre os dois povos e os dois países, num projecto onde sobressaem as actividades inter-escolas.

“A língua, por exemplo, é uma barreira enorme para os emigrantes. Através da associação podemos ajuda-los a resolver os mis diversos assuntos”, comentou o padre, num português quase perfeito.

 

“Quando estive na universidade estudei latim, por isso foi mais fácil aprender português. Em Braga frequentei por duas vezes um curso de português. Leio jornais, ouço rádio, vejo televisão e isso ajuda muito porque se não se sabe falar é difícil chegar a algum lado”, explicou.

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Há poucos dias, Vasyl Bundzyak esteve no Parlamento Europeu em Bruxelas, onde pediu ao eurodeputado José Manuel Fernandes, o primeiro sócio honorário da associação, ajuda para recolher medicamentos para cinco hospitais na Ucrânia que têm muitas carências.

“Este eurodeputado tem estado desde o início connosco”, contou, satisfeito com o trabalho do movimento que se criou.

 

“Nunca pensei que num ano conseguisse tantos resultados. Estão lançadas as bases para a integração e ajuda aos ucranianos em Portugal, que também sofreram com a crise, e também ajudar as pessoas vítimas da guerra na Ucrânia”, salientou.

Entretanto Vasyl Bundzyak já entregou na Assembleia da República, coma  ajuda do deputado Abel Baptista, eleito pelo circulo de Viana do Castelo, uma petição com cerca de 4500 assinaturas para que alguns militares ucranianos possam ser tratados em Portugal.

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