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Opinião

Filhos do divórcio

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Artigo de Vânia Mesquita Machado

Pediatra e escritora. Autora dos livros “Microcosmos Humanos” e “Humana Seja a Nossa Dor”. Mãe de 3. De Braga.

A importância dos filhos sentirem a presença tanto do seu Pai como da sus Mãe, quando essa proximidade possível e ambos são idóneos é inegável, independentemente do estado civil do casal.

Sou Mãe, e não me considero que esse facto me confira mais direitos em relação ao Pai dos meus filhos.

Com o divórcio oficializado e passada a turbulenta fase de adaptação atravessada pelos filhos e transversal a praticamente todos os casos, o benefício que advém de uma convivência cordial e harmoniosa entre os progenitores privilegiando o interesse da criança e do adolescente é notório, não só  na reaquisição de estabilidade emocional mas também a nível comportamental, com um reforço da auto-estima e da sensação de segurança e consequentemente resultados visíveis no desenvolvimento, na relação entre os pares e a nível do desempenho escolar, entre muitos outros.

Após a separação, quanto menos os filhos forem submetidos a conflitos, melhor.

É um cliché, mas aplica-se que nem uma luva: os filhos não pediram para nascer.

E se os adultos se desentendem, e se muitas vezes a coabitação se torna impossível, com um ambiente de permanente tempestade latente ou explícita, mais vale assumir e reparar da melhor forma os danos já causados nos filhos proporcionando um lar com uma dinâmica diferente.

Duas casas podem ser um lar.

Sei por experiência própria como é necessário o convívio dos filhos com Pai e Mãe, claro e volto a dizer, se ambos tiverem boas competências parentais.

Em alguns casos os filhos chegam mesmo a sentir que ficaram a ganhar, estando livres de discussões perniciosas que lhes geravam tristeza e mal-estar, e sentindo até mais proximidade do seu Pai e da sua Mãe,  durante o período que estão à guarda de cada um ( entenda-se, mais atenção a nível afetivo, e não material).

Como me disse uma vez um dos meus filhos, vendo mais além do que eu: “nós  não somos uma família diferente, somos uma família normal!”- o que me alegrou imenso, quando me culpabilizava constantemente  por não lhes dar as mesmas oportunidades de uma família dita tradicional…

Quando se atinge este patamar, em que as crianças ou adolescentes se acham iguais aos outros, sente-se uma maior tranquilidade por parte delas e aumenta a nossa capacidade para os educarmos e lhes transmitirmos os  valores que consideramos adequados para um crescimento globalmente salutar, para se tornarem futuramente adultos responsáveis e poderem ter relacionamentos felizes.

É necessário um enorme esforço das duas partes e uma vontade permanente para que o entendimento seja possível.
Estar em desacordo é normal mesmo num casamento sendo o pão nosso de cada dia entre pais divorciados.

Ter em mente que o futuro saudável dos filhos implica encontrar esse ponto de equilíbrio entre os pais é  fundamental.

O conceito de novas famílias deve entrar no vocabulário corrente de todos, e ideias pré-concebidas de que a Mãe é mais importante sem nenhum fundamento concreto são anacrónicas, em nada contribuindo para o bem-estar da geração futura.

Atualmente a palavra divórcio não é mais um estigma.
As crianças e adolescentes apoiam-se mutuamente tanto nas escolas, quando os amigos se separam, (o grande impacto, se os adultos forem conscientes, reflete-se nos primeiros tempos após o divórcio se concretizar), como entre irmãos com o reforço dos laços entre eles.

Fincar  o pé numa atitude inflexível e teimosa, relativamente aos pressupostos maiores direitos da Mãe em relação ao Pai apenas revela imaturidade emocional.

Ambos fincarem o pé, impedindo qualquer forma de diálogo produtiva em prol do superior interesse dos filhos, é uma atitude extremamente egoísta dos pais, que apenas se preocupam com o seu próprio umbigo, ou com uma agenda oculta de eterna vingança,  em que o ex-parceiro é alvo de um obsessivo comportamento persecutório que muitas vezes passa a fronteira da psicopatologia: uma eterna guerra das rosas em que os filhos se transformaram em meras armas de arremesso…

Sou a favor da guarda partilhada.
E nesta altura em que o Natal se avizinha, relembro que não estamos no tempo do Rei Salomão, em que a criança seria dividida em dois para satisfazer a vontade dos pais.
(Se este Natal a consoada é com o Pai, no próximo será com a Mãe: isso é igualdade e justiça).

Mais: sublinho que desde muito cedo se geram laços vinculativos tanto com a figura materna como com a paterna, e quando é possível a convivência com os dois progenitores, essa deve ser estimulada, em partes iguais.

Pai e Mãe não se substituem: complementam-se.

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