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Alto Minho

Peregrinos do Caminho de Santiago forçados a voltar para trás na fronteira com a Galiza

A partir de domingo já poderão completar percurso

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Foto: Tomás Guerreiro / O MINHO

O cordão sanitário imposto pelo governo regional da Galiza até ao próximo domingo impossibilita os peregrinos de Santiago de cruzar a fronteira. Há quem assuma o risco e há quem volte para trás a pé. Os albergues públicos continuam fechados e os albergues privados aproveitam para faturar. A igreja católica prolongou o presente ano Jacobeu, símbolo do caminho de Santiago, para 2022. A partir de domingo, os peregrinos já poderão completar o caminho.

“Neste momento não é altura para caminhar. Os peregrinos só devem regressar ao Caminho de Santiago quando a situação sanitária espanhola voltar ao normal. Há peregrinos que foram obrigados pela polícia de Tui a voltar, para Valença”, afirma a O MINHO, António Devesa, peregrino e vice-presidente da Associação Espaço Jacobeu.

“Os peregrinos que procuram percorrer o Caminho de Santiago no interior de Portugal podem fazê-lo, mas é uma irresponsabilidade enorme atravessar a fronteira. É preferível limitarem-se à fronteira portuguesa. Já se sabe que o caminho é até Santiago, mas nada proíbe os peregrinos que estejam com vontade de continuar a caminhar de regressarem para trás percorrendo o mesmo trajeto ou até outro”, explica António Devesa.

António Devesa. Foto: DR

É possível percorrer o Caminho de Santiago ao revés e os peregrinos podem fazê-lo por trajetos distintos, o Caminho Português da Costa, o Caminho Português Central, ou até o Caminho das Torres, até Braga. É importante salientar que, até ao próximo domingo, quem se desloque à Galiza sem justificação pode ser multado.

 

António Devesa encontra-se ansioso por voltar a caminhar, mas enquanto vice-presidente da Associação Espaço Jacobeu, a recomendação é clara: “Fiquem fora do caminho, por enquanto. Estamos a receber centenas de pedidos de credenciais e, em breve, quando a situação na fronteira estiver resolvida, poderemos voltar a peregrinar normalmente”.

“Posto de turismo de Valença aconselhou-nos a ficar em Portugal”

Rebekka e a amiga regressam de Valença, para Viana do Castelo, após “baterem com o nariz” na fronteira. É a primeira peregrinação a Santiago de Compostela que as peregrinas alemãs intentam. “Em Valença informámo-nos junto do posto de turismo, que nos aconselhou a ficar em Portugal”, conta Rebekka sobre o imprevisto.

Turistas alemãs aconselhadas a ficar em Portugal. Foto: Tomás Guerreiro / O MINHO

As peregrinas estão condicionadas a hospedar-se em albergues privados. Os albergues públicos, que possuem um preço médio de 6 euros por noite, continuam encerrados devido à pandemia da covid-19. “Gastámos mais dinheiro do que esperávamos, mas como há poucos turistas e o preço da noite nos hostéis não está muito elevado, acabou por não ser um custo muito pesado”, afirma a dupla, sobre a falta de oferta de hospedagens, para peregrinos.

As duas amigas não vão concretizar o objetivo proposto no início da caminhada: chegar a Santiago de Compostela. “Não faz mal, voltamos para o Porto, pelo Caminho Português da Costa”, explicam, enquanto pegam nas mochilas sobrecarregadas com cerca de 20kg cada, para voltarem a caminhar, sem dar tempo às pernas de arrefecer. Cada par de pernas, já percorreu mais de uma centena de quilómetros.

A retoma da normal circulação, entre países, acontece já no próximo domingo, anunciou hoje a Junta da Galiza. O Caminho de Santiago, fonte de receita imprescindível para os municípios da Galiza e do Alto-Minho, voltará a encher-se de peregrinos, pois o ano é Jacobeu e há uma tendência generalizada da população em optar pela natureza e pelos espaços ao ar livre.

Negócios do Caminho de Santiago sem clientes

António Alves é proprietário do bar de peregrinos o Café Mineiro, em Valença, que já conheceu dias melhores. “O ano e meio de pandemia que estamos a atravessar foi uma miséria para os estabelecimentos que viviam do Caminho de Santiago. Já recebi peregrinos de todo o mundo, agora nem os vejo”, desabafa o proprietário do Bar, com os olhos postos nas paredes do café, que, repletas de fotografias, contam a história de outros tempos.

António Alves sente a falta de clientes. Foto: Tomás Guerreiro / O MINHO

“Há sete anos, quando tomei conta do negócio, não tinha consciência da economia gerada pelo Caminho de Santiago. Hoje, pelo contrário, não consigo viver sem ela, é o ponto forte do negócio”, afirma António Alves, que entretanto, juntamente com um sócio, explora uma habitação, na qual alugam camas para peregrinos de todo o mundo.

“Esta semana não passaram aqui mais de seis ou sete peregrinos. Alguns arriscam-se a entrar em Espanha. Podem ficar fechados no país, ou até apanhar uma multa. Se este fosse um ano normal, ainda por cima Jacobeu, a esta hora não podia estar aqui a falar consigo. Tinha aqui, dentro do bar, mais de 40 pessoas”, sonha, novamente, António.

Ano Jacobeu

O Ano Jacobeu surgiu em 1122, quando o Papa Calisto II concedeu à Diocese de Santiago de Compostela o poder de conceder um perdão total de pecados, a todos os peregrinos que visitam o túmulo do apóstolo, Santiago, nos anos, em que 25 de Julho, coincida com um domingo. Acontece 14 vezes ao século.

O ano Jacobeu começa com a tradição da abertura da Porta Santa da Catedral de Santiago de Compostela, no último dia do ano, 31 de dezembro, do ano anterior ao Jacobeu. Esta é a porta utilizada por peregrinos para entrar no templo, durante o referido ano. A indulgência concedida aos peregrinos, que rumam a Santiago, durante este ano é o Jubileu, que representa o perdão de todos os pecados carnais.

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