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Desporto

Escola de futebol que deu Dalot ao mundo defende formação educativa e social

Associação Juvenil Fintas

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Foto: Rui Feio de Azevedo / O MINHO

Luís Travessa Martins e Bela Afonso decidiram criar em Braga a Associação Juvenil Fintas, nos finais dos anos 90, com o objetivo de impulsionarem uma escola de futebol direcionada para crianças e jovens. Sendo ambos professores de Educação Física, Luís e Bela entendiam que a nova escola deveria aliar a formação desportiva à formação social e ao sucesso educativo. 

Até ao momento, os objetivos têm sido “plenamente conseguidos”, embora a malfadada pandemia tenha abalado a estabilidade do projeto nos últimos dois anos, tal como aconteceu com a maioria dos clubes dedicados à formação desportiva dos jovens. Acresce que a Escola não dispõe de instalações próprias, e isso representa um grande esforço financeiro no arrendamento dos campos de S. Paio d’Arcos e Trandeiras e do pavilhão da Universidade do Minho.

Mas O MINHO não foi ouvir apenas Luís Travessa Martins. De Manchester, chegaram-nos declarações de Diogo Dalot, ele que jogou no Fintas dos 04 aos 10 anos e nunca esqueceu o papel que esta escola representou na sua carreira de sucesso.

Luís Travessa. Troféus. Foto: DR

Desde a entrada em funcionamento da Escola Fintas, os seus responsáveis garantem tudo ter feito “para conciliar e criar melhores condições para que todos os atletas tenham possibilidade de poderem ter patamares de alto rendimento, mas sem se negligenciar o sucesso educativo e a interação social”, destaca Luís Travessa Martins.

O principal objetivo desta Escola é o de contribuir “para a construção das personalidades das crianças e jovens, de modo a estarem sempre ativas, interagindo, sendo críticos, irreverentes e autónomos nas tomadas de decisão no próprio jogo”

Segundo Luís Travessa Martins, estas capacidades e competências motoras e psicológicas transferem-se depois para a vida profissional de todos os atletas, registando-se “vários casos de atletas que seguiram a carreira desportiva, desenvolvendo aptidões e o gosto pelo treino”. 

Diogo Dalot festeja com Cristiano Ronaldo. Foto: DR

Nos seus 60 anos de existência, a vida de Luís Travessa Martins confunde-se com o futebol, até porque faz parte de uma família com quatro irmãos que jogaram no Vieira Sport Clube da III Divisão Nacional.

Desde tenra idade, Luís via os seus irmãos a jogar e ia aos jogos de futebol. Além de que os seus pais também praticavam desporto. Jogou e treinou no Vieira e depois outros clubes quando estava na Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física do Porto, uma vez que aquele clube exigia um empenho diário e isso passou a não ser possível enquanto aluno universitário.  No seu currículo de treinador tem também passagens pelos juniores do Boavista e pelos seniores do Bairro da Misericórdia onde foi treinador adjunto.

Quando concluiu o curso de Educação Física e a especialização em futebol, o Vieira contratou-o como treinador-jogador, mas, por razões éticas, decidiu abdicar da qualidade de jogador. Na altura, essa especialização em futebol dava equivalência ao curso de treinador, mas depois acabou por tirar o Curso de Treinador Pro UEFA B e, neste momento, tem sido convidado para ser preletor nos cursos de treinadores da Associação de Futebol de Braga.

Motricidade afetada pelo mundo digital

Com a criação da Escola Fintas, Luís Travessa Martins e Bela Afonso pretenderam dar seguimento “àquilo que se faz na Educação Física e no Desporto Escolar no ensino público, mas dar-lhe uma tónica mais competitiva do que nas escolas, onde isso é muito mais difícil, dado a conciliação de horários e a prevalência de instalações desadaptadas”.

Luís Travessa e Bela Afonso. Foto: DR

Por outro lado, segundo Luís Travessa Martins, “infelizmente as nossas crianças e jovens são cada vez mais sedentárias, acabando por ter mais competências digitais e menos competências motoras”.

“A vida diária deles é pouco apelativa para a motricidade. Quando criámos a Escola, já se notava isso, mas agora muito mais e foi por isso que se desceu nas idades. Inicialmente, começámos a trabalhar com crianças a partir dos seis anos e agora já trabalhamos com crianças a partir dos três anos”, enfatiza o professor.

Dos três aos seis anos, a Escola Fintas tenta dar às crianças “aquilo que é um pouco o futebol de rua que é de facto muito estimulante”, segundo refere, para acrescentar: “tudo aquilo que se trabalha na rua constitui os alicerces que são fundamentais para qualquer modalidade desportiva, já que as crianças trabalham a coordenação, a agilidade, o ritmo corporal, a noção de corpo e espaço, a velocidade de execução, sendo que as várias coordenações motoras das várias brincadeiras são todas apelativas para o esforço físico”.

Foto: DR

Do início atribulado ao crescimento sustentado

O arranque da Escola Fintas “foi difícil” até porque, como se sabe, os apoios também não são muitos para as associações juvenis ligadas ao desporto. No início, a Escola arrancou no campo pelado de Gualtar e depois foi crescendo lentamente em número de atletas, porque numa primeira fase apenas dispunham de equipas de futebol de 7. De um momento para o outro, registou-se um crescimento acentuado, e agora estão a funcionar todos os escalões até aos juniores, assim como o futebol feminino que conta com as sub-13, sub-15 e sub-17.

E Luís Travessa Martins dá-nos a novidade de que a Escola está a fazer esforços para “criar pela primeira vez o escalão sub-21, uma vez que consideramos que os jogadores quando saem dos juniores não têm suficiente experiência competitiva para integrarem os seniores, e tal representaria mais dois anos para amadurecerem, aumentarem o ritmo e o conhecimento de jogo e as competências motoras, assim como estamos a pensar na criação de uma equipa dos sub-19 para o futebol feminino”.

Foto: DR

Luís Travessa Martins salienta o facto de vários atletas do Fintas que jogam em diferentes divisões do futebol terem realizado a formação nesta Escola, onde se destacam Diogo Dalot como a maior referência, mas também Joel Carvalho, Eduarda Silva, Paula Ferreira e Leonor Freitas, entre outros. 

“Temos jogadores desde os três anos que estão a chegar aos sub-21 e que ainda estão connosco e isso valida um pouco o nosso trabalho”, diz com orgulho.

Leonor Freitas. Foto: DR

O sonho das instalações próprias  e o apoio crianças desfavorecidas

Sendo pouco acompanhada porque não está ligada a um clube ou estrutura profissional, a Escola Fintas faz gala dos excelentes recursos humanos, mas tem dificuldades ao nível de recursos financeiros, porque tem uma grande despesa com as instalações de Trandeiras, S. Paio d´Arcos e Universidade do Minho, sendo, no entanto, “de realçar e agradecer o apoio da Câmara de Braga ao futebol feminino, já que não pagamos a utilização das instalações do Complexo Desportivo da Rodovia”.

Com um percurso de mais de duas décadas na formação desportiva é legítimo pensar-se em instalações próprias como um sonho realizável. E Luís Travessa Martins diz que isso permitiria que a Escola “entrasse muito mais na valência do apoio escolar e na validação dos estudos como transfer para o rendimento desportivo”.

Luís Travessa e Bela Afonso. Foto: DR

E informa a propósito: “gostaríamos que os nossos jovens tivessem um percurso estudantil de elevado nível. Estamos em lista de espera na autarquia de Braga para termos uma sede, a qual seria um ponto de encontro de atletas e famílias e onde pudéssemos também expor os quase 600 troféus que temos empacotados”.

Refira-se que a Escola Fintas presta apoio a duas dezenas de crianças provenientes de instituições. Recentemente, deu-se um grande revés nesse apoio, já que a carrinha de transporte dessas crianças que foi oferecida por Diogo Dalot viu-se envolvida num acidente, tendo ficado bastante danificada, o que representa um prejuízo avultado. 

Carrinha oferecida por Diogo Dalot. Foto: DR

Esse prejuízo surge numa fase em que a Escola ainda sente os efeitos da Covid, e uma redução natural dos 300 alunos que estavam inscritos antes de surgir a pandemia.  Isso fez com que as despesas tivessem de ser suportadas a nível pessoal pelos responsáveis da Escola, pelo que Luís Travessa Martins veria com bons olhos qualquer apoio das forças vivas da cidade e da região, até porque “também temos a noção que fazemos um trabalho válido em termos desportivos e sociais”.

A ilusão dos “grandes clubes” 

Muitos jovens da formação são contratados precocemente pelos grandes clubes e Luís Travessa Martins considera que esse é um dos problemas graves do futebol jovem.

“Há uma expressão que define bem essa realidade – levam o biberão cheio! No fundo, eles vêm buscar os nossos melhores jogadores. E ainda mais grave é o facto de terem falta de ética, uma vez que nem falam diretamente com a direção da instituição formadora. Fazem-no através dos pais, o que é eticamente reprovável”, afirma a respeito, para rematar:

“Os ditos grandes clubes funcionam como eucaliptos que secam os clubes de formação. Isto não permite que os outros clubes possam crescer em termos formativos e isso também é mau porque não havendo competitividade não há evolução. Quando se veem resultados extremamente desnivelados não é bom para quem ganhou e para quem perdeu, provocando maior abandono da modalidade”.

Diogo Dalot representa seleção nacional A. Foto: DR

Por outro lado, Luís Travessa Martins explica que “o excesso de expetativas é extremamente prejudicial para as crianças que deixam de poder brincar e socializar”, sendo que “estes jovens acabam por se perder e nunca chegam a patamares de alto rendimento, porque não passaram pelas etapas normais de desenvolvimento”. 

E acrescenta: “os jogadores vão muito cedo para esses clubes, sendo a seguir dispensados e depois ficam sem estudos e sem futebol! A especialização precoce prejudica os jovens porque só lhe dá a competência motora e no futebol de alto rendimento exige-se muito, pois têm de estar preparados para aqueles elevados níveis de exigência. No final, cai-lhes o mundo em cima porque os iludiram”.

De acordo com Luís Travessa Martins, uma criança saudável ao nível desportivo pressupõe “que gosta de jogar e não tem receio de errar, que é irreverente e que tem autonomia na tomada de decisão, porque cada jogada é diferente da anterior e tem de ser ele a decidir, uma vez que o treinador só lhe dá condimentos para ser ele a fazer o prato”.

Diogo Dalot como grande baluarte 

Lembre-se que Diogo Dalot saiu para o FC Porto antes da idade em que há direitos de formação, pelo que não houve lugar a qualquer contrapartida financeira para a Escola Fintas. Nessa ocasião o FC Porto vendeu o passe de Diogo Dalot ao Manchester United por 24 milhões de euros. E sobre este assunto, Luís Travessa Martins não esquece o “enorme gesto” do atleta:

“Apenas o Diogo teve um gesto solidário fantástico com a oferta de uma carrinha à Escola. E num jantar na casa dos pais, ofereceu-nos uma bola e uma camisola do Manchester United assinada. E quando saímos desse jantar, deparamo-nos com a carrinha com os quatro piscas ligados! Ficamos impressionados e tal ficará sempre gravado nas nossas memórias e da instituição”.

Diogo Dalot no AC Milan. Foto: DR

Luís Travessa Martins reconhece que Diogo Dalot é o grande baluarte da Escola Fintas em termos de sucesso desportivo, mas também humano: “ele nunca deixou de falar no Fintas e quando está aqui em Braga, mesmo em férias, por vezes vai ver os nossos jogos. Nunca esqueceu a escola de origem onde esteve dos 4 aos 10 anos”. 

Para além disso acrescenta que “o Diogo era muito humilde e brincalhão e nunca faltava a um treino. Tínhamos o Diogo a jogar dois escalões acima. Ele era de 1999 e jogava com os nascidos em 1996! Mas era uma alegria quando vinha ajudar a equilibrar a equipa de 99 porque foi sempre solidário e trabalhador e teve sempre grande gosto e prazer pelo jogo. Essas qualidades também fizeram com que chegasse onde está hoje”. 

Dalot: “O Fintas teve papel fundamental”

Quem reconhece o papel da Escola Fintas na sua carreira é o próprio Diogo Dalot que em declarações exclusivas a O MINHO afirma que “o Fintas teve um papel fundamental naquilo que é e foi o meu desenvolvimento como jogador e principalmente como pessoa no mundo do futebol”. 

Segundo refere o jogador do Manchester United e da seleção nacional “é onde dás os teus primeiros passos que pode definir aquilo que será o teu percurso como jogador” e sente-se grato por “ter feito parte de uma escola de futebol com uma abertura enorme para divertimento, compromisso, alegria e poder juntar isso tudo ao início de um conhecimento técnico e tático daquilo que é um jogo de futebol”. 

E a finalizar, deixa um agradecimento: “Foi perfeito e estou muito agradecido por tudo o que fizeram por mim, onde desde já deixo um abraço especial ao mister Luís Travessa que para além de um treinador fantástico é uma excelente pessoa que consegue transmitir estas mensagens importantes que precisas quando começas a jogar futebol.”

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