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Guimarães

Refugiados em Guimarães. Da avó que foi buscar o neto ao adolescente que fugiu sozinho

Reportagem

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Foto: CM Guimarães

Uma avó que foi buscar o neto, um jovem que fugiu sozinho para a Polónia, ou uma menina, de 12 anos, que pinta retratos, são algumas das “histórias de vida” de refugiados ucranianos que hoje chegaram a Guimarães.

Um autocarro com 52 refugiados ucranianos, incluindo três crianças, chegou a Guimarães, vindo de Varsóvia, capital da Polónia, numa iniciativa da Câmara de Guimarães, através da Rede de Solidariedade, em articulação com a Comunidade Intermunicipal do Ave (CIM do Ave), que agrega oito municípios: Cabeceiras de Basto, Fafe, Guimarães, Mondim de Basto, Póvoa de Lanhoso, Vila Nova de Famalicão, Vizela e Vieira do Minho.

“Temos uma avó que está em Olhão, no Algarve, que foi de propósito à Ucrânia buscar o neto para o trazer para Portugal, porque a mãe é polícia na Ucrânia e o pai está impedido de sair devido à lei marcial. Contou-me que foi muito difícil sair da Ucrânia com o neto. Houve um comboio que antecedeu o dela que foi atingido pelas tropas russas”, partilha Hugo Quaresma, da Proteção Civil do município de Vieira do Minho, que acompanhou a viagem.

Foto: Ivo Borges / O MINHO

Cinco dias e cerca de sete mil quilómetros depois, eram 09:11 quando o autocarro estacionou junto ao Largo da Mumadona, em Guimarães. Pouco depois, sobretudo mulheres, adolescentes, três crianças, de 3 anos, e três cães, um deles ao colo de uma jovem, começaram a sair do autocarro.

Entre sorrisos, abraços, algumas lágrimas e muito cansaço, os refugiados pegavam nas malas e nas sacas, que foi tudo o que conseguiram trazer de uma guerra que lhes mudou a vida.

Uma das histórias que mais marcou Hugo Quaresma foi a de um jovem, de 17 anos (que vai ficar em Guimarães), que estava institucionalizado no Ucrânia, e que fugiu, sozinho, para a Polónia.

“Ele estava institucionalizado numa instituição na Ucrânia. Com o rebentar da Guerra, fugiu para Varsóvia, completamente sozinho. Tem 17 anos e está sozinho no Mundo. É uma das pessoas que tem de ser seguida, pois não tem mais nenhum tipo de apoio. Nem aqui nem em lado nenhum”, relatou, acrescentado já ter sinalizado o caso junto das autoridades competentes para o seu necessário acompanhamento.

Foto: Ivo Borges / O MINHO

Enquanto Hugo Quaresma partilha as “histórias de vida e heroicas” de alguns dos refugiados, estes vão sendo encaminhados para os carros e pequenos autocarros que os hão-de levar até ao próximo destino: ou para casa de familiares e amigos ou para alojamento disponibilizado pelos municípios.

Uma menina de 12 anos, com jeito para as artes, está entre aqueles que também vão ficar em Guimarães.

Foto: Ivo Borges / O MINHO

“Temos uma miúda, de 12 anos, que gosta imenso de arte e também vai ficar aqui em Guimarães. Ela fala muito bem inglês, já aprendeu algumas palavras em português, e, ontem à noite [segunda-feira], em 10 minutos, fez o meu retrato dentro do autocarro”, revela Hugo Quaresma, que fez a viagem juntamente com quatro motoristas e um tradutor.

Outra das “passageiras” é uma jovem que trabalhava como revisora nos caminhos de ferro ucranianos e que teve de fugir com a filha, deixando os pais e o marido na Ucrânia.

“São histórias de vida que estão aqui dentro e que, infelizmente, se viram no meio desta guerra sem saberem porquê. Uns disseram que vão voltar, outros já têm familiares em Portugal e vão cá ficar, mas, principalmente, os mais velhos, com o saudosismo, têm a intenção de voltar à Ucrânia”, referiu Hugo Quaresma.

Alguns dos refugiados que constavam da lista para trazer para Portugal não conseguiram embarcar.

Foto: Ivo Borges / O MINHO

“Uma mãe e um filho não puderam vir, porque o filho ficou doente. E era um risco fazer a viagem com a criança doente até Portugal. Conseguimos substituir por outras pessoas”, afirmou.

Para este técnico da Proteção Civil da autarquia de Vieira do Minho, esta experiência foi marcante a vários níveis.

“Não podemos mudar o Mundo, é impossível. Em Guimarães, em Vieira do Minho, em Portugal. Mas o povo da CIM do Ave mudou o Mundo desta gente e isso é que é importante. Ficámos contentes por trazer estas pessoas para aqui sãs e salvas. Fizemos o nosso trabalho”, declarou Hugo Quaresma, com a voz embargada.

Tomar um banho é agora o desejo de Hugo Quaresma, algo que não faz desde sexta-feira, dia em que o autocarro saiu de Guimarães.

Foto: CM Vieira do Minho

A guerra na Ucrânia provocou milhares de mortos e feridos, mas o número preciso está ainda por determinar.

A ONU contabilizou 636 civis mortos e 1.125 feridos até domingo, mas tem alertado insistentemente que o número deverá ser substancialmente superior.

Mais de três milhões de pessoas fugiram da Ucrânia para países vizinhos desde o início da guerra, naquela que já é considerada a prior crise do género na Europa desde a Segunda Guerra Mundial (1939-45).

Reportagem de Jorge Afonso da Silva, agência Lusa.

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