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Primeiro helicóptero a voar em Marte tem ADN de Ponte de Lima

Florbela Costa trabalha na indústria aeronáutica

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Foto: UBI / Reprodução

Florbela Costa, de 32 anos, é engenheira aeronáutica e gestora técnica em projetos relacionados com o Espaço. Recentemente, esteve nas ‘bocas’ do mundo pela colaboração na construção do helicóptero Ingenuity, o primeiro veículo motorizado a voar noutro planeta, enviado pela NASA até Marte. Nos último 30 dias, o aparelho já efetuou cinco voos, entrando agora numa nova fase de exploração, revelando-se um sucesso.

Nascida em França, Florbela veio para Portugal aos onze anos, onde estudou e trabalhou, até se mudar para o Brasil, onde permaneceu dez meses. Está há quatro anos na Suíça, onde trabalha para o Maxon Group. E a mãe é de Ponte de Lima.

“Tenho muito boas recordações de Ponte de Lima, adoro a vila e quando a visitei há poucos anos, achei que estava muito bonita e muito bem cuidada. Quero voltar lá em breve”, confidencia a O MINHO a engenheira que não dispensa a “cabidela” ou “galinha ao molho pardo”, como lhe chamam no Nordeste do Brasil. “A melhor, sem sombra de dúvidas, feita pela minha mãe”, atira uma convincente Florbela, que também não dispensa o “vinho verde de Ponte de Lima”.

Também não esquece as tradições e as festas populares, como é o caso das Feiras Novas, festa a que foi “muitas vezes quando morava em Portugal”. “Toda a minha família gostava muito”, recorda.

Mas longe vão esses tempos em que a jovem mostrava fascínio pela Aeronáutica. “O facto de pôr algo a voar é um grande feito de engenharia, seja na Terra ou no Espaço, e eu queria fazer parte das pessoas que desenvolviam este tipo de produtos”, explica a apaixonada por Matemática, Física e, claro, Aeronáutica.

Atualmente, está a gerir projetos de Espaço na Maxon Group, que “desenvolve e manufatura acionamentos de alta precisão, ou seja, motores elétricos, caixas de velocidades, controladores e sensores”, explica.

“Fui a gestora técnica do projeto, na Maxon Group, para o desenvolvimento dos seis motores DC que controlam a inclinação das pás do rotor do Ingenuity, o helicóptero da missão Mars2020 da NASA, que se tornou o primeiro helicóptero a voar em Marte”, contextualiza.

De acordo com uma reportagem do programa televisivo 60 minutes, em Marte, as hélices têm de girar seis vezes mais depressa do que na Terra, devido à densidade da atmosfera. No total, este projeto custou 85 milhões de dólares.

Apesar de já ter concluído este projeto em 2018, só agora é que começa a dar os primeiros frutos. com a primeira viagem bem sucedida no planeta vermelho a ser completada a 19 de abril de 2021. No último mês, o helicóptero realizou mais cinco voos e já mudou de local, para iniciar uma nova etapa na exploração Espacial.

Uma das missões do helicóptero passa por guiar o rover Preserverance, que irá recolher amostras marcianas que devem regressar à Terra daqui a dez anos. Só aí “é que poderemos afirmar se já houve ou não vida em Marte. Até la teremos de esperar para saber”, assegura Florbela.

O helicóptero chegou a Marte acoplado no rover, mas só foi libertado uns dias depois, após alguns problemas com o software, graças a outro motor desenvolvido pela Maxon Group, projeto de uma colega de trabalho.

“A aterragem do rover em Marte, e os 7 minutos de terror, foi sem duvida o maior momento de ansiedade, uma vez que é a altura em que existe maior risco de algo poder correr mal. Mas os dias antes do primeiro voo também foram muito intensos, devido aos varios adiamentos por parte da NASA”, recorda a engenheira.

“No entando, temos grande confiança no trabalho da NASA e sabiamos que havia uma grande probabilidade de correr tudo bem em ambos os momentos criticos. Eles já têm uma vasta experiencia neste tipo de missões e mostraram-nos mais uma vez do que são capazes com este novo grande feito”, enaltece.

Enquanto o Ingenuity continua a sua missão Espacial, prevista para os próximos dez anos, Florbela não pára, e está já a desenvolver vários projetos, alguns dos quais ainda no segredo dos deuses, mas de outros pode falar mais abertamente.

“Sou, neste momento, a gestora técnica do projeto do desenvolvimento dos dois acionamentos para o IBDM (International Berthing and Docking Mechanism). Este foi até ao momento, o projecto mais desafiante que tive o prazer de gerir na Maxon Group, uma vez que tivemos de conceber novas tecnologias desenhadas especificamente para esta aplicação, como por exemplo o uso de motores redundantes”, explica, referindo-se ao atracamento de naves espaciais na Estação Internacional.

“O IBDM é o mecanismo desenvolvido pela Europa, com a participação da ESA (European Space Agency), para atracar grandes e pequenas naves espaciais à estação espacial internacional (ISS), ou seja, será usado em voos tripulados”, clarifica.

Este projeto encontra-se atualmente em fase de qualificação pelo cliente SENER, em Espanha, e espera-se que os primeiros mecanismos estejam a voar em 2023.

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