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Braga

O melhor da Síria em Braga

21 familiares reencontraram-se no CLIB

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Foto: Tomás Guerreiro / O MINHO

A família Shilash emigrou da Síria para Portugal, de Alepo para Braga, em busca de um lar melhor do que aquele que abandonaram, nosso conhecido pelas inúmeras horas de filmagens, fotografias e sons que chegaram a Portugal da guerra no Médio Oriente. Durante três anos, a Plataforma de Apoio ao Refugiado intermediou o acolhimento desta família no Colégio Luso Internacional de Braga que reagrupou 21 de 25 familiares, enquanto na Turquia quatro parentes aguardam autorização do Estado português para embarcar.    

Pousados nas mesas do Colégio Luso Internacional de Braga (CLIB) estavam petiscos do mundo árabe: pastéis de queijo e de carne picada típicos da Turquia, arroz de açafrão e frango assado, húmus e vários fritos convidavam ao almoço. Os Shilash serviam-se da mesa e procuravam assento. Os homens afirmavam-se autores dos cozinhados, serviam-se e sentavam-se para almoçar numa mesa paralela à das senhoras, que guardavam no colo os bebés e, debaixo do olho, as crianças espalhadas pela sala. 

Foto: Tomás Guerreiro / O MINHO

Durante este mês, sete parentes da família foram acolhidos em Braga através da Plataforma de Apoio ao Refugiado, vindos de Istanbul, na Turquia, uma fronteira de escape humano durante os anos de guerra na Síria. De 25 familiares, quatro membros da família Shilash ainda aguardam na Turquia – um país muito mais complexo do que Tayip Erdogan, vulgar autocrata – pelo culminar de um longo processo de asilo em Portugal.

Qualidade de vida em Braga “é incomparável com a Síria”

No final do almoço, o homem mais velho da família, Mohammed, que se refugiu em Portugal há três anos, contou a O MINHO sobre a fuga da Síria, os verdes anos em Portugal, o caminho para Braga. O tradutor é Aws Omran, um jovem com um bom nível de inglês, arquiteto, vive há 5 anos em Portugal e foi bolseiro da Plataforma Global para o Ensino Superior fundada pelo ex-Presidente da República, Jorge Sampaio. 

“Em Braga as pessoas são muito hospitaleiras e estamos muito confortáveis, a qualidade de vida é incomparável com a Síria, sentimo-nos muito seguros e é fácil conhecer gente, até os vizinhos fazem um esforço para nos compreender”, afirma Mohammed a O MINHO. 

Foto: Tomás Guerreiro / O MINHO

O irmão de Mohammed, Moustafa de 41 anos, chegou a Portugal vindo da Turquia há menos de um mês. “Estou muito feliz por estar aqui e procurei vir para Portugal com a minha família durante muito tempo. Na Turquia havia algum racismo e trabalhava muitas horas por pouco dinheiro”, conta sobre a vida em Istanbul, durante oito anos, após a fuga da Síria.

“Se tiveres dinheiro na Turquia estás seguro, de outra forma não. O meu salário era de 2.500 liras”, afirma quanto ao rendimento mensal de 184 euros que recebia por 12 horas de trabalho numa padaria.  

Na Síria, Mohammed era funcionário público e quando a guerra entrou em Alepo, viu a sua cidade dividir-se em fações. “Agora comprei uma casa em Braga e estou empregado com contrato”, regozija. Viveu debaixo do autoproclamado Estado Islâmico, o califado sagrado prometido ao Islão, que ao controlar militarmente as cidades “comprava” a população com água, alimento e proteção, medo e fundamentalismo. 

As crianças estão matriculadas nos liceus públicos da cidade e falam lindamente português, dizem que podem traduzir, que dominam a língua. “Eu fui o último da minha família a sair da Síria e quando o fiz já não estava no meu país, aquela já não era a minha cultura”, conta Mohammed.

Foto: Tomás Guerreiro / O MINHO

Meticulosamente aprumados

No almoço de sábado, os homens estavam meticulosamente aprumados, engravatados com as camisas dentro das calças e paletó. Os mais velhos com o cabelo penteado pela risca e os mais novos com poupas da atualidade, calçado engraxado, pins na lapela e anéis reluzentes no dedo. As senhoras pintaram-se com pouca maquilhagem, lenços coloridos, cabelos embrulhados e as mais jovens usavam sapatos de salto alto ou batom.

Mohammed fugiu de Alepo quando a vida de um funcionário público se tornou um rótulo, um “servente do governo” a braços com o exército de libertação da Síria, decidiu escapar para uma cidade fronteiriça dominada pelo Daesh. “Mostrei-lhes que conhecia o Corão, que sabia alguns versículos, tiver de estar presente num julgamento para eles me decidirem como bom ou mau muçulmano, mas eles nem eram islâmicos, nem representavam o islão, nem eram sírios, falavam um árabe que eu nunca tinha escutado com sotaques muito diferentes”, explica no final do almoço. 

Foto: Tomás Guerreiro / O MINHO

“Consegui arranjar um carro e fugi, fui buscar a minha família numa vila onde os havia deixado e cruzamos a fronteira com a Turquia”, conta Mohammed Shilash que na companhia da família direta, esposa e filhos, tentou atravessar a fronteira várias vezes, em vários pontos, recebido ao som das carabinas da polícia turca – muito mais pequena do que o povo turco. Depois refugiou-se em Istambul, em 2014, e em Braga, em 2018. 

Foto: Tomás Guerreiro / O MINHO

“São muitas as diferenças que encontram”

Helena Pina Vaz, diretora do Colégio Luso Internacional de Braga, família de acolhimento dos Shilash, afirma sobre a experiência: “A dificuldade maior é a deles. São muitas as diferenças que encontram. As nossas dificuldades ficam mesmo muito pequeninas, ao ver como as pessoas ficam preocupadas com as diligências, por exemplo aquele senhor que ontem foi a uma entrevista de trabalho (Moustafa), agora vai saber se é aceite, e se não o for é porque ainda não sabe falar português”.

Foto: Tomás Guerreiro / O MINHO

“Basta haver dedicação e empatia por estas histórias duríssimas, que se torna para nós uma autêntica bênção e não uma dificuldade”, acrescenta e explica sobre o processo de acolhimento: “É preciso que uma organização ou um grupo, que queira acolher, se inscreva junto de uma das entidades legalmente autorizadas para o fazer, no nosso caso é a Plataforma de Apoio ao Refugiado. A partir daí, somos responsáveis por ter uma casa equipada, arranjar-lhes trabalho, ajudar a aprender a língua, cuidados de saúde, durante 18 meses”.

“Há sempre falta de pessoas com coragem para se meterem neste processo”, conclui Helena Vaz a O MINHO.

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