Seguir o O MINHO

Barcelos

Manuel Silva, o furriel de Barcelos que tirou Marcelo Caetano do Quartel do Carmo

25 de Abril

em

Manuel Silva. Foto: DR

É a primeira vez que Manuel Silva vai celebrar o 25 de Abril em casa. Habitualmente comemora a efeméride em Santarém, donde há 46 anos saiu na coluna da Escola Prática de Cavalaria comandada por Salgueiro Maia em direção ao Terreiro do Paço, em Lisboa, para derrubar o regime fascista.

“Foi o dia mais feliz da minha vida”, recorda o militar de Abril, de 68 anos, natural de Barcelos. Tipógrafo de profissão – “uma classe que já tinha mais consciência política” -, fez a recruta no Regimento de Infantaria 5 (RI5) nas Caldas da Rainha e depois foi colocado na Escola Prática de Cavalaria em Santarém, onde tirou a especialidade de blindados.

O então furriel de 22 anos, ao comando da chaimite Bula, acabou por estar no “olho do furacão” da Revolução dos Cravos, participou em todas as “movimentações principais”.

Com uma memória prodigiosa, recorda com detalhe todos esses momentos históricos. Os “momentos de tensão” no Terreiro do Paço com a ameaça da fragata Gago Coutinho, o encontro com as forças da Cavalaria 7 e o enorme apoio popular que as tropas receberam no trajeto até ao Quartel do Carmo.

“O povo deu-nos muita força”, conta.

“É a vida”, disse Marcelo Caetano

No Quartel do Carmo, após negociações e a garantia de que o poder não caíria nas ruas, Marcelo Caetano, presidente do conselho do Estado Novo, rendeu-se.

A chaimite Bula, comandanda por Manuel Silva, foi incumbida de transportar o governante deposto para o quartel da Pontinha, onde estava instalado o posto de comando da Revolução.

Manuel Silva a comandar a chaimite Bula entre o Terreiro do Paço e o Quartel do Carmo

“O objetivo da nossa missão era dar-lhe máxima proteção. O povo gritava ‘morte ao fascista’, queria fazer justiça pelas próprias mãos. Mas as ordens que recebemos eram para protegê-los, sem justiça popular, e foi o que fizemos”, realça.

Marcelo Caetano entrou pela “porta lateral” da chaimite. O então furriel reconhece que ficou impressionado por ver “em presença física” aquele homem que só conhecida de o ver “a preto e branco” nas “Conversas em Família”.

Manuel Silva não esquece as parcas palavras do ex-presidente do conselho. “Ao entrar na viatura, o cabo disse-lhe algumas palavras, que eu não percebi porque estava muito barulho, e ele, ao chegar à minha beira, só disse: ‘É a vida'”.

Com Marcelo Caetano, seguiram na chaimite Bula outros dois governantes, Rui Patrício (Ministro dos Negócios Estrangeiros) e Moreira Baptista (Ministro do Interior). O ex-furriel recorda que, no trajeto até à Pontinha, Marcelo Caetanto conservou a “postura de estado”, mas “já os outros dois iam aterradinhos de medo”.

Salgueiro Maia é o “grande herói do 25 de Abril”

Para Manuel Silva, não há dúvidas: “O Salgueiro Maia foi, é e será sempre o grande herói do 25 de Abril”. E não lhe faltam palavras de admiração para com o capitão de Abril, com quem conviveu na Escola Prática de Cavalaria.

“Era um homem alegre, um grande humanista. Era um estratega militar fantástico e um verdadeiro operacional. Era um indivíduo que não se vendia a ninguém e foi marginalizado pela classe política”, aponta o ex-militar que “todos os dias” se lembra do 25 de Abril de tão “marcante” que é esta data na sua vida.

Manuel Silva com Salgueiro Maia no Quartel do Carmo

Pela importância da data para o país, Manuel Silva concorda com a sessão solene no Parlamento: “Se a Assembleia da República está a funcionar regularmente, se tomaram as medidas [necessárias para garantir o distanciamento social], é um marco na História nacional que tem de ser assinalado”.

Aliás, considera que a polémica em torno da sessão solene é apenas um pretexto para “os saudosistas do passado” aparecerem. “Essa gente não está contra a sessão solene na Assembleia da República, está contra é o 25 de Abril. Deu para saírem uns esqueletos do armário”, nota Manuel Silva.

O militar de Abril lamenta que, atualmente, a juventude não esteja tão politizada e que a memória coletiva comece a relativizar a ditadura do Estado Novo, lembrando que o país que saiu da Revolução dos Cravos é incomparavelmente melhor. E as circunstâncias atuais provam-no. “Com uma pandemia destas antes do 25 de Abril, sem um Serviço Nacional de Saúde, não quero imaginar o que isto ia dar”, conclui.

Populares