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Covid-19 e as ciberameaças: Não custa nada estar atento

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ARTIGO DE JOSÉ ALFREDO OLIVEIRA

Advogado. Vice-Presidente da Câmara Municipal de Ponte da Barca.


O incitamento ao isolamento social e o convite a uma cada vez maior restrição das deslocações aos estabelecimentos comerciais são alguns dos principais objetivos constantes na Resolução do Conselho de Ministros que executam o Estado de Emergência decretado pelo Presidente da República.

Se é verdade que se pretende evitar o risco de propagação do COVID-19 e salvaguardar a saúde dos portugueses com este convite ao recolhimento, não é menos verdade que o medo provocado pelo alastrar da pandemia criou oportunidades de negócio e que, uma vez recolhidos nas suas casas, constata-se um aumento considerável das compras on-line, mais interação com as redes sociais e, por via disso, um aumento do risco de burlas com a partilha de informações e dados confidenciais.

São várias as burlas que aliciam os cibernautas, como são exemplo:

i) as campanhas de phishing que aparecem com frequência por e-mail, SMS ou por redes sociais, a coberto da imagem de entidades oficiais;

ii) a divulgação de plataformas digitais ou de aplicações para dispositivos móveis que aparentam divulgar informação em tempo real sobre a pandemia;

iii) os esquemas de fraude digital partilhados por email ou em redes sociais, que divulgam várias iniciativas de crowdsourcing com vista à recolha de donativos para falsas campanhas de compra de material médico ou de proteção individual;

iv) o envio de SMS, com referência de um valor a ser pago num determinado link, onde informam que, de acordo com a lei, estão a ser aplicadas medidas extraordinárias para o combate ao COVID-19 e “que todos os cidadãos nacionais serão vacinados, sendo garantido um reembolso dos custos pelo governo”;

v) a venda de medicamentos falsos, de ‘sprays’ de desinfeção ou tratamentos milagrosos;

vi) ou mesmo a criação de uma aplicação “CODIV-19 Tracker” que tem sido partilhada em mensagens de correio eletrónico e nas redes sociais e que afinal mais não é que um esquema ransomware para equipamentos Android em que após instalação no equipamento é exigido ao utilizador um montante para resgate (normalmente em Bitcoins).

Covid-19: Número de “tratamentos milagrosos” à venda na Internet “é chocante”

Estes ciberataques, já alertados pelo Centro Nacional de Cibersegurança e mais recentemente pela Comissão Europeia, estão agora associados ao tema COVID-19 e destacam-se pelos conteúdos sensíveis alusivos à pandemia, onde qualquer cidadão bem intencionado e solidário se sente na obrigação de contribuir mas que na verdade acaba por ficar preso num esquema para a captação de dados pessoais ou para a infeção dos seus dispositivos com malware, não devendo o cidadão utilizador instalar qualquer aplicação móvel que não seja de fonte fidedigna e disponibilizada pelas lojas oficiais dos fabricantes Google Play ou AppStore.

A estas fraudes do séc. XXI somam-se os riscos de aumento dos casos das ditas burlas “tradicionais”, nomeadamente as burlas cometidas contra os idosos e que podem assumir várias formas, como seja o contacto pessoal, o correio, o telemarketing, a venda de medicação, viagens, donativos para ações de caridade, empréstimos e hipotecas, investimentos, reparações em casa ou no carro, prémios e sorteios, jogos de confiança ou ainda a pretexto da saúde, seguros de vida ou funeral.

À semelhança da responsabilidade que nos é exigida nas medidas para prevenção e combate à propagação da pandemia, o cidadão deverá igualmente estar mais atento a todos estes riscos, assumindo um papel mais ativo na promoção da segurança do próprio e daqueles que se encontram numa situação mais vulnerável, a começar pelo acesso à informação oficial das instituições governamentais e dos Municípios, cuja ação em toda esta batalha tem sido extraordinária.

Juntos vamos vencer esta batalha, com seguranç@.

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Opinião

Psicólogos contestam medidas para ano letivo e alertam para o impacto na saúde mental das crianças

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Foto: DR / Arquivo

Laura Sanches, Zulima Maciel e Ana Rita Dias, são três amigas Psicólogas Clínicas que estão preocupadas com as medidas a tomar no próximo ano letivo e receiam mesmo do impacto que as mesmas poderão ter na saúde mental das crianças, pelo que se uniram para abrir discussão sobre o tema e contaram com o apoio e assinatura de vários psicólogos e outros profissionais de saúde mental, cujos alguns estão representados no final deste artigo.

Somos um grupo de psicólogos e profissionais ligados à saúde infantil e juvenil, bastante preocupados com a saúde mental e o bem-estar das crianças, que tem sido o grupo mais sacrificado durante esta pandemia. Não por causa do vírus que já se sabe que é maioritariamente de evolução benigna neste grupo etário, mas por causa das medidas sanitárias que têm sido tomadas, sem grande consideração pelo seu bem-estar e sem evidência científica da sua real necessidade.

Laura Sanches, Zulima Maciel e Ana Rita Dias. Fotos: DR

Está previsto que a escola presencial regresse em setembro, com muito agrado nosso, mas com algumas medidas que, embora não todas oficiais, ainda nos preocupam e dessas vamos destacar quatro principais: as medidas de distanciamento entre as crianças, a redução dos intervalos, o uso de máscaras e a entrada dos pais sobretudo ao nível dos jardins-de-infância e creches.

1. Sobre o distanciamento entre as crianças

A escola não serve apenas para aprender e trabalhar as capacidades cognitivas. Um ponto muito importante da escola é a socialização. Quando afastamos as crianças e lhes transmitimos a mensagem de que elas precisam de se manter afastadas, estamos a bloquear um instinto natural das crianças de procurarem o contacto físico e de se manterem próximas umas das outras. Isto cria-lhes tensão e uma pressão grande que facilmente se torna num elemento de ansiedade que sabemos ser tão prejudicial ao seu desenvolvimento e, consequentemente, à sua aprendizagem. Por sua vez, as medidas de distanciamento irão fomentar o uso de ecrãs durante os intervalos, algo que irá alimentar um problema que já existe nas nossas escolas e que sabemos ter consequências muito nefastas para o desenvolvimento de crianças e jovens.

2. Sobre a redução dos intervalos

Os intervalos são momentos importantes de socialização e constituem pausas essenciais para uma boa aprendizagem e para potenciar os tempos de atenção/concentração, frisando-se a importância de estes intervalos serem fora da sala de aula. A saber-se a importância de potenciar os momentos ao ar livre, é insensato e paradoxal diminuir-se os intervalos. Estes devem continuar a acontecer, de preferência ao ar livre e com horários desfasados entre turmas, para que não haja tanta aglomeração entre alunos.

3. Sobre a proibição da entrada dos pais

Permitir a entrada dos pais na escola, quando vão deixar ou buscar os filhos, não é um capricho. Uma criança que entra num lugar novo fica sempre num certo estado de alerta, principalmente quando essa entrada implica a separação das suas figuras de apego, as suas referências. A única forma de desactivar esse alerta é o contacto com as figuras de apego. E enquanto ele não for desactivado, a criança não está disponível para estabelecer novas relações seguras, que, por sua vez, são essenciais para que o seu dia na escola seja vivido da melhor forma e até para que consiga aprender realmente. Isto é muito importante em todo o processo de adaptação dos mais novos, que pode durar dias, semanas ou meses e que acontece sempre outra vez, depois de um período de afastamento. Mas também dos mais velhos, depois de tudo o que aconteceu este ano, com um período de afastamento tão prolongado e carregado de tensão por vários motivos. Permitir a entrada dos pais na escola é fundamental para que esta não se torne um mundo completamente estranho e separado da família, em que a criança nunca se sentirá realmente segura.

É muito importante que os pais possam ver diariamente os professores e educadores e que sejam eles a entregar-lhes a criança, porque é isso que lhes permite fazer a ponte. O instinto da criança diz-lhes que não devem ficar com estranhos, que devem procurar sempre as pessoas com quem se sentem seguras. Então, para que os professores deixem de ser estranhos para elas, é preciso que os pais façam essa ponte, que lhes mostra que podem construir uma ligação com aquela pessoa, e isso faz-se de forma simples, falando com a pessoa, mostrando que ela é de confiança e que já temos uma relação com ela.

Pensamos que, cumprindo os pais todas as normas de segurança (desinfecção, troca de sapatos e máscara enquanto circulam na escola), não há grande fundamento para este impedimento.

4. Sobre o uso das máscaras

O uso prolongado de máscara pelos adultos nas creches e jardins-deinfância também não facilita o processo de adaptação, porque as expressões faciais são uma parte fundamental da comunicação nãoverbal e daquilo que nos faz ou não sentir segurança na presença da outra pessoa. Stephen Porges usa o termo “neurocepção” para falar de um mecanismo inconsciente que nos faz avaliar constantemente a segurança do ambiente externo e interno e essa avaliação passa, em grande parte, pela comunicação não-verbal. Essa comunicação não é apenas facial, também passa pelos olhos, pelo tom de voz e pela prosódia do discurso, coisas que a máscara ainda nos permite perceber, mas que podem ser insuficientes para uma criança pequena. Sem ver totalmente a cara da pessoa com quem nos relacionamos, é bem mais difícil recolher essas pistas de segurança, e quando nem sequer conhecemos essa pessoa, como irá acontecer na adaptação à escola para muitas crianças, então isto torna-se praticamente impossível.

Por outro lado, a evidência científica até ao momento remete para uma prevalência muito reduzida desta nova doença (covid-19) em crianças (cerca de 2%), sendo que, quanto mais nova for a criança (sem problemas de saúde prévios), menor é o risco. Os estudos realizados até ao momento chegam cada vez mais ao consenso de que a criança tem um papel quase nulo na transmissão do vírus, sendo geralmente essa transmissão feita de adulto para criança (embora, mesmo assim, maioritariamente benigno para a criança). Segundo vários pediatras europeus, o uso de máscaras em creches, jardins-de-infância, 1.º e 2.º ciclos por crianças sem patologia grave subjacente não é nem necessário, nem apropriado, nem razoável. Mais ainda: isso limitaria ainda mais a socialização entre pares. Na esmagadora maioria dos países que optaram por tornar obrigatório o uso de máscaras nas escolas, esta norma só se aplica a partir dos 13 anos. E alguns países como a Suíça e a Dinamarca optaram mesmo por não as tornar obrigatórias para os adultos nas creches e, ainda assim, a Dinamarca não registou um aumento dos casos que fosse associado às escolas, que estão a funcionar desde 15 de Abril. A Noruega, que reabriu as escolas a 20 de Abril, também não registou nenhum impacto causado por esta reabertura, sendo um dos países em que também não são obrigatórias as máscaras nas escolas.

Quando nos concentramos apenas na comunicação oral, algo que é forçado pelo uso continuo de máscaras, estamos a estimular o uso do hemisfério esquerdo em detrimento do direito, algo que sabemos estar bastante mais associado a sentimentos de agitação, ansiedade e até de depressão.

O uso prolongado de máscaras em crianças – até porque antes dos 12 anos de idade a expressão verbal ainda não é tão preponderante – pode conduzir facilmente a uma condição de stress crónico que interfere no humor, na atenção/concentração, no comportamento e na aprendizagem.

Conclusão:

As investigações ligadas às experiências adversas na infância mostram bem como o stress que estas provocam está ligado a uma série de complicações de saúde na vida adulta: a obesidade, diabetes tipo II, perturbações de ansiedade e depressão e até problemas cardiovasculares, a principal causa de morte na sociedade ocidental.

Atendendo a que, felizmente, as crianças constituem um grupo de baixo risco, não é de todo razoável que se apliquem medidas tão restritivas e limitadoras de um desenvolvimento integral harmonioso e saudável, pelo que é urgente proporcionar às crianças um regresso à escola dentro da maior normalidade possível, reforçando as medidas de higiene das mãos, as actividades ao ar livre e acautelando que crianças com sintomas da doença fiquem em casa, criando também condições para que os pais possam ficar com elas.

Não podemos deixar que as medidas sanitárias se sobreponham à necessidade de preservar a saúde mental das nossas crianças e jovens. Porque, se o fizermos, teremos com certeza em mãos uma outra pandemia no campo da saúde mental, com resultados bem mais dramáticos, provavelmente.

Signatários:

Laura Sanches, psicóloga clínica
Zulima Maciel, psicóloga clínica
Ana Rita Dias, psicóloga clínica
Cátia Pereira, psicóloga social
Ana Elizabete Guerreiro Caetano, psicóloga clínica
Ana Helena Costa, psicóloga educacional
Bruno Gomes, psicólogo educacional
Carolina Rodrigues, psicóloga clínica
Cátia Martins, psicóloga clínica
Diana Gaspar, psicóloga clínica
Dora Isabel Dias Maltez, psicóloga clínica
Eugénia Amaro, psicóloga clínica
Maria Andresen, psicóloga clínica
Inês Gonçalves, psicóloga clínica
Isa Silvestre, psicóloga clínica
Daniel Sampaio, médico psiquiatra

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Opinião

‘Segundo sexo’ em tempos incertos

Opinião de Liliana Matos Pereira – PS/Braga

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ARTIGO DE LILIANA MATOS PEREIRA

Presidente Concelhia das Mulheres Socialistas – Igualdade e Direitos de Braga. Vereadora na Câmara Municipal de Braga.

No final dos anos 40, Simone de Beauvoir escrevia O Segundo Sexo onde retratou as discriminações sofridas pelas mulheres durante séculos e os papéis secundários que ocuparam ao longo da História. A sociedade entendia o papel da mulher como um papel menor, sendo esta perspetiva aceite por todos. Só no séc. XIX, com a obrigatoriedade da escolarização, alguns lugares começaram a ser ambicionados.

Em muitos lugares do mundo, as mulheres ainda hoje são vistas e tratadas como cidadãos de segunda. Na China, por exemplo, as mulheres não podem conduzir ou trabalhar durante a noite. Na Malásia, as mulheres não se podem divorciar e casar novamente. Na Índia, uma mulher foi violada por cinco homens de uma casta considerada superior e, no seu julgamento, estes foram absolvidos apenas porque homens de uma casta superior não violariam uma mulher de casta inferior.

Em Portugal a realidade é distinta, assistimos já a mulheres na liderança de grandes multinacionais e a ocupar lugares de destaque na vida pública. Estas conquistas devem ser celebradas e disseminadas, mas nem tudo corre bem! Sabemos as várias dificuldades que ainda hoje todas nós sentimos para conseguirmos ser mulheres na essência completa do que ser mulher significa. As dificuldades nas entrevistas de emprego – mesmo quando somos as mais qualificadas e nos questionam, nem sempre de forma discreta, “E ser mãe? Está nos seus planos?” ou “E quando os seus filhos ficam doentes, como gere a situação?” – a diferença salarial, entre outras situações que nos fazem sentir a todas diminuídas enquanto profissionais e condicionadas porque nascemos com o segundo sexo.

Infelizmente ainda faltam dar largos passos para atingirmos a igualdade plena entre géneros. “Tempo para termos tempo”. Este foi o mote para uma campanha desenvolvida pela Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego, no final do ano passado, com o intuito de alertar para a diferença na partilha, entre géneros, de tarefas profissionais e domésticas.

Dados da Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género revelam que, em média, as mulheres dedicam diariamente mais 1h 45 min às tarefas domésticas que os homens. Nos últimos 20 anos, o tempo que o sexo masculino dedica a este tipo de trabalhos aumentou apenas 8 minutos, pelo que faltam 180 anos para que a divisão de tarefas domésticas seja igual.

Relativamente à educação e cuidados dos filhos, as mulheres asseguram 73% do trabalho (não remunerado), não se registando qualquer evolução na última geração relativamente ao contributo paterno nesta tarefa.

Em termos laborais o cenário é ainda mais desolador. No ano passado, 54,1% dos alunos matriculados no Ensino Superior eram do sexo feminino. 60% dos licenciados são mulheres.

Cerca de metade dos doutorados em Portugal são mulheres. Apesar disso, os homens continuam a auferir mais. Os últimos dados revelados pelo Governo, evidenciam que os homens ganham, em média, 1034,90 euros mensais e as mulheres auferem 886 euros, um diferencial de 14,4%. E sabemos que este diferencial é tanto maior quanto maior for o nível de qualificações, atingindo os 27,3% nos quadros superiores.

No que à precariedade diz respeito, Portugal é o terceiro país da União Europeia com maior proporção de trabalhadores em situação precária, sendo o número estimado de cerca de 1 milhão e 300 mil pessoas. Cerca de metade são mulheres, mas estes números preocupam ainda mais quando olhamos para as gerações mais novas, sendo 2 em cada 3 precários do sexo feminino.

A crise provocada pela pandemia Covid-19, provocou um enorme retrocesso nestas estatísticas. As várias medidas de confinamento implementadas evidenciaram ainda mais a fragilidade da condição profissional da mulher. Um dos valores que mais nos deve chamar a atenção são os números do desemprego: 90% dos 50 mil novos desempregados são do sexo feminino.

Várias podem ser as justificações apontadas, porque os seus vínculos laborais são mais precários ou porque são provenientes de setores mais afetados. A verdade é que alguns números são muito claros, as mulheres foram aquelas que mais recorreram aos programas de apoio às famílias, com 8 pedidos provenientes de mulheres em cada 10. Além disso, sabe-se que as mulheres tendencialmente fazem a renovação de pedido de assistência, mas os homens não. Se olharmos para aquelas que ficaram em casa em regime de teletrabalho, estas atingiram um nível enorme de exaustão, com a dificuldade em conciliar a vida profissional, familiar e doméstica.

Com todas as dúvidas sobre o comportamento da pandemia nos próximos meses, a indefinição acerca do funcionamento do próximo ano letivo, a eventual necessidade do apoio aos filhos e a consequente ausência dos locais de trabalho, muitas são as empresas que declinam contratar mulheres e renovar contratos de trabalho.

A este retrocesso de décadas para o mercado de trabalho e para o sexo feminino, junta-se a um estudo do Citigroup, que prevê uma perda de 1 bilião de dólares do PIB mundial, com a saída das mulheres do mercado de trabalho, em consequência da pandemia.

Quem- como eu – teve o prazer de ler Simone Beauvoir, no seu tratado sobre a condição feminina nos longínquos anos 40, questiona-se sobre o “agora” escrito há mais de sete décadas. É que não podia ser mais atual uma das mais significativas afirmações que nos deixou n’ O Segundo Sexo: ” Não se trata para a mulher de se afirmar como mulher, mas de se tornarem seres humanos na sua integridade”.

Liliana Matos Pereira
Presidente Concelhia das Mulheres Socialistas – Igualdade e Direitos de Braga
Vereadora na Câmara Municipal de Braga

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Opinião

CCDR-Norte não deve transformar-se em sindicato de autarcas do Norte

Opinião

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ARTIGO DE JOSÉ MARIA COSTA

Presidente da Câmara de Viana do Castelo e da Comunidade Intermunicipal (CIM) do Alto Minho.

As futuras funções da Comissão de Coordenação da Região Norte no atual contexto nacional e europeu podem ser de extraordinária importância para a coordenação e cooperação interinstitucional num contexto complexo de crise económica e social pós-Covid.

Se há momento em que necessitamos de conjugar investimento público e privado é este, tal como é urgente a necessidade de concertar as diferentes estratégias de desenvolvimento das sub-regiões e entidades do território para a dinamização das regiões do interior e de fronteira.

Nunca como agora o conhecimento e a inovação foram tão necessários como agora para oxigenar a atividade empresarial e a internacionalização das pequenas e médias empresas que constituem o perfil empresarial da região.

O reforço urgente da rede do ensino superior politécnico e universitário do interior, dotando-os de meios financeiros suficientes para promoverem o ensino e a inovação para que possam apoiar o tecido sócio económico das vilas e cidades do imenso interior de baixa densidade.

A densificação da estrutura técnica e organizativa da CCDR-Norte terá de ser uma prioridade face ao desgaste e erosão sofrida nos últimos anos para que possam apoiar os projetos e iniciativas de ordenamento e desenvolvimento que se avizinham face aos novos desafios que a região vai enfrentar nos domínios do ambiente, da energia, das cidades e dos transportes.

A construção de um projeto mais aprofundado de cooperação transfronteiriça com a Galiza e Castela-Leão em que se promova a cooperação mais estreita das instituições autárquicas, científicas e empresariais deve prosseguir com passos mais fortes e determinados num percurso que tem ainda muito para progredir.

O apoio na internacionalização da região, com uma maior articulação com a AICEP e Câmaras Comércio e o melhor aproveitamento das oportunidades de programas e fundos europeus, com uma presença mais forte em Bruxelas da região Norte, potenciando desta forma a integração das cidades da região norte nas redes europeias de cidades e incentivando as parcerias e redes de conhecimento com universidades europeias pode e deve ser uma das opções de governação da CCDR-Norte.

A componente cultural e turística da região tem de ser considerada um dos ativos mais relevante na competição saudável da região norte com outras regiões europeias, desenvolvendo estratégias de afirmação cultural e turística, contando com a participação dos atores do território e promovendo de forma mais consistente e coerente no exterior o enorme potencial que temos.

Perante este quadro de referência e de grande exigência da região parece me que a candidatura à futura presidência da CCDR-Norte não deve ficar submetida à usual lógica partidária autárquica de equilíbrios e calculismos partidários, mas sim ser aberta a todos os setores e atores do meio económico, social, académico e cultural.

A CCDR-Norte merece muito mais do que ser um mero sindicato autárquico para distribuir fundos comunitários de acordo com as regras e compromissos por vezes dissonantes das realidades regionais e sub-regionais. A região Norte é muito mais, mas muito mais que o somatório das autarquias, independentemente da qualidade das intervenções dos autarcas.

 

Viana do Castelo, 9 de junho de 2020

José Maria Costa
Presidente Câmara Viana do Castelo

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