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Além de prémios, pintor de Arcos de Valdevez já conquistou o mundo da música

Mutes criou um traço próprio chamado de “DesCubismo Contornismo”

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Foto: DR

A medalha de criatividade em Berlim, Alemanha, na Exposição Internacional Artcom, no passado mês de novembro, foi apenas o último dos prémios que César Amorim, com o nome artístico Mutes, ganhou em duas décadas de carreira. Autodidata, o artista plástico de Arcos de Valdevez, de 45 anos, investe num estilo próprio, batizado de DesCubismo Contornismo, com o qual tem sido distinguido internacionalmente – inclusive no Louvre, em Paris – e realizado diferentes projetos como uma linha de copos para o Estados Unidos da América ou capas de álbuns para conceituados músicos nacionais.

Já no liceu Mutes “andava sempre com um caderno no bolso de trás e sarrabiscava tudo”. “Já tinha jeito para a coisa”, mas acabou por descobrir a pintura mais tarde. E o ‘clique’ para levar a arte mais a sério deu-se há 20 anos, quando uma médica da Santa Casa da Misericórdia de Arcos de Valdevez, onde trabalha, viu os seus trabalhos e logo os comprou.

“Ia pintando, fazendo uns quadros e, uma altura, tinha pedido ao meu chefe e tinha [exposto na Misericórdia de Arcos de Valdevez] uma série de 15 trabalhos e uma doutora virou-se para mim e perguntou: ‘São seus?’ E eu: são. E ela comprou-os”, recorda.

Foto: DR

“Então, a partir daí, comprei tintas e telas e nunca mais parei”, diz, lembrando que nunca teve uma aula de pintura e arte. “O autodidatismo fez isso, a curiosidade, aquela coisinha de já no liceu andar a sarrabiscar”, explica, notando que, apesar disso, já chegou a dar aulas de pintura nos lares da Santa Casa de Arcos de Valdevez, que foram muito bem acolhidas pelos idosos.

Origem do DesCubismo Contornismo

O nome do seu traço artístico, o DesCubismo Contornismo, foi inspirada pela filha. “A minha filhota ainda pequenina perguntou-me o que eu fazia. E eu expliquei que isto é mais ou menos uma vertente do que fazia o Picasso, o Cubismo, mas não é tanto o Cubismo. E ela: ‘Estás a complicar isso, ó pai, então é descubismo’. Como utilizo muita cor e contornos a preto para dar a profundidade que pretendo, juntei os dois termos”, conta.

“Começou numa brincadeira e a coisa ficou séria. Partiu de uma palavra da minha filha que eu achei engraçada”, salienta o artista nascido em França e que veio para Portugal em 1986.

Expõe com regularidade desde 2004, tendo já ultrapassado as duas centenas de exposições nacionais e internacionais. Está representado em diversas coleções nacionais e estrangeiras em vários continentes.

É amante do Cubismo, colabora desde 2018 com o Movimento Dadaísta “Maintenant” nos EUA e também criou uma linha de copos através da cervejeira Other Worlds Brewing, na Flórida, em Miami.

Uma parceria que “surgiu de um convite através do Instagram”, explica. “Perguntaram-se eu não gostaria de criar umas tiras para personalizar uns copos. Até pensei que era brincadeira, mas fiz meia dúzia e enviei aquilo por enviar. Passados uns tempos, avisam-me que já estavam na fábrica para serem impressos”.

Mutes criou coleção de copos para os EUA. Foto: DR

Mutes criou coleção de copos para os EUA. Foto: DR

Mutes criou coleção de copos para os EUA. Foto: DR

Além disso, também já criou uma linha de sapatilhas com a All Star em 2016 e tem uma linha de t-shirts, fez curadoria em variadas exposições e conquistou vários prémios. Em 2016 venceu o prémio Art Prize Picasso no Carrousel du Louvre em Paris.

All Star concebidas com a arte de Mutes. Foto: DR

Realçando que a sua “maior obra de arte” e “ponto mais alto” do seu percurso é a sua filha, ao nível de prémios este foi o mais importante: “Não é todos os dias que se recebe alguma coisa de Paris, mais ainda do Carrousel do Louvre, e do Picasso, aquele artista de que tanto gostamos”.

E recorda como, presente lá em Paris, ficou de “boca aberta” quando lhe atribuíram o prémio, a “um português caído no meio daqueles artistas todos”. “É sempre uma coisa que sabe muito bem”, nota.

Premiado no Louvre. Foto: DR

Depois, conquistou em 2017 uma Menção Honrosa na Brick Lane Gallery em Londres e, em novembro deste ano, uma medalha de criatividade em Berlim, entre outras distinções.

Mutes desenhou capa do disco de O Gajo

A arte de César Amorim também se relaciona diretamente com a música, que também foi um das suas paixões, tendo feito capas de álbuns de artistas e bandas portuguesas e pintado instrumentos musicais para músicos nacionais.

Foto: DR

Mais recentemente desenhou as capas dos discos de O Gajo (projeto de João Morais, ex-Gazua) e dos bracarenses NO ! ON e colaborou com Sérgio Castro (Trabalhadores do Comércio), ele, César Amorim, que também já andou pelas lides do rock ao longo de uma década. “O rock veio ter comigo. De 1995 a 2005 andei em bandas, uma mais dadaísta e outra mais hardcore”, conta. Mas a vida profissional, familiar e a cada vez mais presente pintura levaram-no a abandonar.

Mutes e Adolfo Luxúria Canibal. Foto: DR

Coincidência ou não, haveria de voltar a esse mundo através da pintura, com os seus trabalhos a chamarem a atenção de músicos. Um dos ícones do rock nacional, Adolfo Luxúria Canibal, vocalista dos Mão Morta, escreveu o seguinte: “O que de imediato atrai na pintura de Mutes é o seu impacto Pop. O olhar é de pronto convocado pela explosão de cores lisas e primárias que emanam das suas telas, numa profusão de detalhes e estilhaços a fazer lembrar os grandes vitrais das catedrais góticas. Depois, o seu ‘(des)cubismo’ ganha visibilidade, com a sobreposição das diversas partes do representado num mesmo plano e a visualização espacial da imagem nos seus diversos ângulos em simultâneo, na senda do encetado por Georges Braque e Pablo Picasso no início do século XX, a ser ponto de partida para o aprofundar da geometria das formas”.

Mutes e O Gajo. Foto: DR

João Morais, que dá corpo a O Gajo, também se encantou com o trabalho do artista de Arcos de Valdevez, pedindo-lhe para fazer a capa do seu mais recente disco, “Subterrâneos”. “Uma colega, curadora de uma exposição em Ponte de Lima, fez-me um desafio de pintar uma bengala. Pintei a bengala a preto e branco e estava a dar na rádio O Gajo, e fiz um vídeo [com o trabalho e a música]. Por questões de direitos, quando publiquei o vídeo, ele foi notificado, foi ver o vídeo e mandou um comentário a dizer que tinha gostado dos meus trabalhos e se tinha mais alguma. Mandei-lhe um link [com os meus trabalhos]. E um dia tinha uma mensagem dele a perguntar se estaria interessado em fazer a capa do álbum. Claro que estava, é um músico que admiro imenso”, conta César Amorim, cujo nome artístico é uma alcunha de criança.

Capa do disco de O Gajo. Foto: DR

Mutes é alcunha desde os 11 anos

“Numa aula de Ciências da Natureza a professora estava a dar o degelo na Sibéria e os mamutes. Estávamos numa mesa redonda, eu estava sentado na cadeira a balançar enquanto a professora falava, mas a perna desprendeu-se e eu caí. E virou-se a professora: ‘És que nem os mamutes'”, recorda. Depois, no intervalo, os amigos começaram-lhe a chamar-lhe mamutes e num instante o nome foi abreviado para mutes. E ficou.

Na hora de escolher um pseudónimo artístico, escolheu aquele que já o acompanhava desde os 11 anos. Como o jeito para “sarrabiscar”.

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