Seguir o O MINHO

Guimarães

“Sei que a minha mãe não vai ser para sempre”

Reportagem

em

Foto: Rui Dias / O MINHO

O “i” e o “9”, lidos em sequência (inove), dão o mote para aquilo que é o novo projeto de inovação social da CERCIGUI. Uma inovação na área dos apoios sociais que procura dar resposta a uma população que não era abrangida por nenhuma das medidas que já existem no terreno. O I9 está operacional há três meses e já ajuda dez pessoas, cinco meninas e outros tantos meninos.

O público-alvo são adultos, contudo, depois de passar algumas horas com os técnicos da CERCIGUI começamos a fazer como eles, “para nós são os nossos meninos”. Não é uma forma de os infantilizar, explica a psicóloga Carla França, “como é que os poderíamos chamar? Utentes, soa estranho! São os nossos meninos”.

Clara Castro, a coordenadora do projeto, explica que a ideia partiu de um desafio da Câmara de Guimarães. “A rede social da Câmara identificou uma necessidade de resposta para estas pessoas que estavam isoladas e para as quais não havia nada”. Os alvos do projeto são pessoas que já saíram do sistema de ensino e não conseguiram inserir-se na vida ativa, ocupando um lugar no mercado de trabalho. Isto pode acontecer porque não tiveram o acompanhamento e a orientação necessária para fazerem formação, ou porque não encontraram a colocação adequada às limitações que apresentam, ou porque realmente têm características que tornam difícil a adaptação ao mercado de trabalho.

A Restore é uma das empresas parceiras do projeto I9. Foto: Rui Dias / O MINHO

Algumas destas pessoas deviam estar nos CAO’s (Centros de Atividades Ocupacionais). O problema é que esta infraestrutura não tem vagas para receber mais ninguém. Ao contrário do acontece no sistema de ensino, em que, ao fim de um certo número de anos, os utentes saem e abrem espaço para outros, nos CAO’s as pessoas ficam a vida inteira. O problema é agravado por uma coisa boa que esta a acontecer: o aumento da esperança de vida dos utentes. 

Também há pessoas que depois de saírem da escola entraram no mercado de trabalho e até tiveram uma vida autónoma, com casa e cônjuge, mas que pelas reviravoltas, que sempre acontecem, acabaram por perder o emprego. Se nestas circunstâncias, para alguém que não tem dificuldades adicionais é difícil recompor a vida, para quem carrega uma cruz pode revelar-se um obstáculo intransponível. O I9 também existe para voltar a puxar estas pessoas caídas, de volta para comunidade.

Filipe e a fábrica de calçado

Filipe tem uma história de vida que encaixa neste perfil. Estudou até ao nono ano no ensino regular, depois frequentou um curso de formação profissional na CERCIGUI, na área do calçado. Acabou por não completar o curso. “A minha irmã arranjou-me emprego para uma fábrica de calçado”, justifica.

Filipe deve voltar brevemente ao mercado de trabalho. Foto: Rui Dias / O MINHO

Fala dos tempos que trabalhou na fábrica com orgulho. “O que eu mais gostava era de trabalhar nas amostras, tínhamos de fazer um sapato igualzinho ao desenho e depois ir mostrar ao patrão. Se não estivesse igualzinho vinha para trás. Gostava de cortar a pele pelo molde”. Explica que ninguém o supera a meter cordões. “Conseguia bater a linha de montagem. Adiantava o serviço e ia fumar um cigarro, quando vinha a linha ainda não me tinha apanhado”.

As técnicas Patrícia Graça (terapeuta ocupacional), Ângela Costa(monitora) e Amélia Lopes(auxiliar) confirmam a produtividade do Filipe. O lote de corações que lhe entregaram para recortar, para fazer postais para o Dia dos Namorados – uma parceria com a empresa Restore – ficou pronto no próprio dia.

Diogo, de 25 anos, levou uma semana para completar a mesma tarefa. Esta diferença revela um dos obstáculos que os técnicos do projeto têm de ultrapassar: a grande heterogeneidade entre os participantes.

Diogo sente que vai ser feliz

Diogo andou na escola até ao 12º ano, nunca trabalhou. A participação no I9 é o mais próximo que já teve de uma experiência de trabalho. Os participantes não recebem nenhuma remuneração, o objetivo é oferecer-lhes uma oportunidade de reformularem o seu projeto de vida. O projeto oferece transporte, alimentação e uma nova esperança.

Diogo a trabalhar nos postais de Páscoa. Foto: Rui Dias / O MINHO

“Sinto que a minha vida está a mudar. Sinto que vou ser feliz. Não há ninguém perfeito no mundo, mas todas as pessoas merecem uma oportunidade para serem felizes. Quero muito ter a minha vida, ter um futuro bom. Quero ter uma mulher. Sei que a minha mãe não vai ser para sempre”, reflete Filipe sobre a participação no I9.

A meta do projeto é tornar estas pessoas mais autónomas, se possível inseri-las no mercado de trabalho. Para isso é preciso incutir-lhes “a ideia de produtividade”, explica Carla França. Para Filipe, que já esteve no mercado de trabalho, na indústria do calçado, nas limpezas e na colocação de pladur, não é nada de novo. Para Diogo, oriundo de um meio onde foi mais protegido, o caminho a percorrer será mais longo.

As histórias de vida também influenciam aquilo que estes homens e mulheres são capazes de fazer. É o caso de um dos utentes que além das suas próprias dificuldades se viu a braços com uma mãe doente. “Faço comida, limpo a casa e, não tenho vergonha de dizer, dou banho à minha mãe”.

“A minha mãe diz que aqui é o meu futuro, que me vou fazer um grande homem e ser feliz”

“A minha mãe diz que aqui é o meu futuro, que me vou fazer um grande homem e ser feliz. Eu acredito em mim. Tenho o problema de ser deficiente, mas não sou nem mais nem menos que ninguém”, afirma Diogo. Carla França confirma que as melhorias são notórias, “pedimos-lhes que quantifiquem aquilo que fazem para terem essa noção de produtividade e o Diogo melhorou muito”.

O projeto apoia pessoas com diagnóstico de deficiência intelectual, com duplo diagnóstico, ou seja, incapacidades e doença mental, ou outros casos, a definir individualmente. Filipe será um destes casos que só estava a precisar de uma alavanca para voltar ao mercado de trabalho.

O Diogo já começou a ganhar por sair de casa. Apesar de estar bem inserido na comunidade onde mora, ganhou outros amigos, alargou horizontes. “Durante o confinamento jogava Playstation. Fico triste por o país estar assim e não poder jogar à bola com os meus amigos”, diz sobre os dias de confinamento, em que não pode frequentar o projeto.

Com o confinamento perdeu-se o “porto de abrigo”

Carla França explica que o Diogo já tinha baixado a medicação que toma para se acalmar, desde que começou a frequentar o I9. Em tempo de pandemia, foi preciso fazer adaptações. “Levamos os trabalhos até casa deles e depois passamos a fazer a recolha”, explica Clara Castro.

Mas não chega, porque o projeto era mais do que apenas trabalho. Era um ponto de socialização. “Esta semana, porque sentimos que não estavam bem fomos buscá-los para passarem aqui uma tarde, ou uma manhã. Passam um bocado connosco e telefonam aos colegas de quem sentem falta”, explica a psicóloga.

Carla França, Patrícia Graça, Clara Castro e Ângela Costa. Foto: Rui Dias / O MINHO

Há uma componente social e cultural que preenchia os tempos em que estavam no I9 e não estavam a trabalhar. Esse “porto de abrigo”, com o confinamento perdeu-se. La Salete, uma das participantes no projeto exprime em verso a forma como vê o I9:

“I9 com diferença

O meu porto de abrigo

está sempre comigo

Amor maior do meu coração são vocês”

Clara Castro assume que não é possível fazer benchmarking com outros projetos, “simplesmente porque não há”. “É um trabalho individual, com pessoas muito diferentes nas dificuldades que apresentam, uma formação muito diferenciada, direcionada para aquilo que cada um deles pode fazer. Depois, é preciso identificar empresas onde eles possam potenciar as capacidades que adquiriram”, explica a coordenadora do I9.

O projeto está em andamento há três meses e tem financiamento assegurado para três anos. Depois disso, terá de encontrar formas de gerar receitas que lhe permitam continuar. “A ambição é criar uma microempresa que consiga gerar valor. Muitas das pessoas que por aqui vão passar não terão capacidade de entrar no ambiente de trabalho formal, mas conseguem trabalhar sob orientação”, idealiza Clara Castro.

O I9 prevê apoiar 40 pessoas, ao longo dos três anos. As primeiras dez já estão inseridas no projeto. As técnicas estão seguras de que Filipe será o primeiro grande sucesso do I9. “Esta completamente preparado para voltar ao mercado de trabalho, só precisava de uma ajuda, de um empurrãozinho”, assegura Carla França.

Depois dos postais do Dia dos Namorados, a Restore já prepara postais para a Páscoa. A colaboração com o I9 mantém-se. Filipe corta envelopes, com um molde, como fazia na fábrica de sapatos, a grande velocidade. Diogo já é mais rápido a recortar ovos de Páscoa e os coelhinhos.

Populares