Descobrir o “coração” do Parque Nacional da Peneda-Gerês pela Geira Romana

Foto: Joaquim Gomes / O MINHO

Conhecer a Mata de Albergaria através do troço mais bem preservado da Geira (Via Romana XVIII), em pleno Parque Nacional da Peneda-Gerês é um percurso inesquecível, naquele que é considerado o “coração” da principal reserva natural portuguesa.

A Estrada Florestal da Bouça da Mó, em Campo do Gerês, concelho de Terras de Bouro, coincide, na sua grande parte, com a Via Romana XVIII, que ligava Bracara Augusta (Braga) a Asturica Augusta (Astorga), mais conhecida por Geira ou Via Nova.

É considerada a maior concentração mundial de marcos miliários, os padrões em granito que mediam as milhas percorridas da Geira, a nível de todo o império romanizado, que partindo de Braga, tem dezenas de padrões, entre Amares e Terras de Bouro.

Mas não havia um padrão por cada milha, já que à medida que iam mudando os imperadores, eram sempre acrescentados mais e mais marcos miliários, todos com inscrições latinas, muitas das quais ainda são decifráveis, mesmo que apenas parcialmente.

O Caminho de Santiago da Geira e dos Arrieiros também coincide com a Geira, em especial desde Braga à Portela do Homem, o que tem contribuído para a redescoberta destas rotas milenares, que constituem uma obra prima da engenharia militar romana.

A mais valia desta Via XVIII é ter sido construída, contornando sempre o mais possível os declives do percurso, principalmente na Serra do Gerês, para permitir uma melhor passagem de pessoas e mercadorias, além do Correio, o chamado Cursus Publicus.

As obras de arte, que eram as pontes em pedra, foram destruídas no século XVII aquando da restauração da independência de Portugal face a Castela, para dificultar as tentativas de progressão das tropas castelhanas, mas a Geira nunca perdeu o encanto.

Construída no terceiro quartel do primeiro século depois do nascimento de Jesus Cristo, é também conhecida por via imperial romana “Bracara Astuticam Tertia”, ou ainda popularmente como Geira do lado português e como Via Nova do lado espanhol.

Dezenas de marcos miliários romanos

Na Mata de Albergaria, o percurso entre as Milhas XXVIII (Campo do Gerês) e XXXIV (Portela do Homem) faz-se ou neste sentido ou no inverso, embora no crescente permita continuar-se pela Geira por território galego, entrando já através de Lobios.

Na divisória entre as freguesias de Covide e de Campo do Gerês é o mais emblemático dos marcos miliários, por servir de fuste à imagem de Cristo, tendo sido adaptado em cruzeiro com alpendre assinalando a Milha XXVII, o Miliário de Magnêncio.

A partir daí, há algumas dúvidas quanto ao percurso exato da Geira, algures pela Ponte de Eixões e pelo Campo do Sagrado, o que já não sucede quando chegados ao cimo da Albufeira do Rio Homem, se acede então para a entrada da Mata de Albergaria.  

Para se retomar a Via XVIII, em vez de se entrar diretamente para a estrada de terra batida que pela Ponte de Sarilhão se chega à Bouça da Mó, deve descer-se, à esquerda, para seguir o empedrado da Geira, sendo ainda visíveis as suas pedras de suporte.

Descendo algumas centenas de metros começa a ver-se cada vez melhor, do lado esquerdo, a albufeira artificial do Rio Homem, como também do mesmo flanco, as pedras cheias de musgo, que separavam a antiga aldeia comunitária de Vilarinho da Furna.

À esquerda o muro que onde começava Vilarinho da Furna. Foto: joaquim gomes / o minho

Pouco depois, à direita, está a vitrine assinalando a Milha XXIX, em Padrões da Cal, na Bouça do Gavião, após o que se segue por um lajeado cujas ramagens das árvores centenárias atualmente abrigam da chuva e muito em breve darão agradável sombra.

Mais ao fundo, assim que se aviste à direita um moderno poste de aço enferrujado com a inscrição Geira, pode subir-se logo à Estrada da Bouça da Mó, terminando assim esse percurso de pé-posto, passando a uma via onde circulam veículos motorizados.

Mas quem preferir, mesmo nesta época do ano em que a albufeira da Barragem de Vilarinho da Furna está à cota alta, poderá percorrer mais algumas dezenas de metros e subir mais adiante, para a mesma via, na parte que desce para a Ponte do Sarilhão.

Passar por uma antiga “Mutatio”

Em breve, à esquerda, surge a vitrina correspondente à Milha XXX, no sítio de Berbezes, do lugar da Bouça da Mó, onde era a “Mutatio”, mais abaixo, coincidindo, aproximadamente, com o principal acesso, antes da barragem, para Vilarinho da Furna.

Seguindo a estrada florestal, em terra batida, passando por várias ribeiras e pela Casa Florestal da Bouça da Mó, chega-se até à Milha XXXI, no Bico da Geira, logo que passando uma pequena ponte em madeira, também onde desce o Ribeiro do Pedredo.

Ribeiro do pedredo. Vídeo: Joaquim Gomes / O MINHO

Mais adiante, também à direita, está a Milha XXXII, já na Volta do Covo, igualmente com diversos marcos miliários romanos, estando parte do oposto, numa pequena descida, à esquerda, já todos de menores dimensões, mas não passando despercebidos.

A partir de então, começando a ouvir cada vez melhor as águas cristalinas, estas em direção à Barragem de Vilarinho da Furna, chegamos à Ponte do Rio Maceira, passando pelos antigos viveiros de trutas e as casas florestais, aproveitando para uma pausa.

O percurso da Mata de Albergaria, através do traçado da Via Romana XVIII, prossegue atravessando uma pequena ponte, por cima da Ribeira do Forno, chegando à Ponte Feia, podendo atravessá-la e usufruir das águas frescas, oriundas de vários cursos.

Cascatas junto à ponte feia. Vídeo: Joaquim Gomes / O MINHO

Contudo, não se poderá prosseguir em frente, pois é já a Mata de Palheiros, uma Área de Proteção Total do Parque Nacional da Peneda-Gerês, o grau mais elevado de preservação de uma área natural, o que se impõe, pela imensidão da pureza do habitat.

Se ao longo das duas estradas, a de terra batida da Bouça da Mó e a da estrada asfaltada entre a Portela de Leonte e a Portela do Homem, na Mata de Albergaria, o estacionamento é proibido, aqui sucede o mesmo, mas com coimas ainda mais elevadas.

Apesar da proatividade dos vigilantes da natureza dos Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), há quem estacione indevidamente, abandone o automóvel, iniciando um passeio pela mata, sendo-lhe aplicada uma coima de 200 euros.

Mas quanto à entrada indevida na Mata de Palheiros, assim como nas restantes áreas de proteção total do Parque Nacional da Peneda-Gerês, 200 euros é o mínimo da coima, que pode chegar a dois mil euros, consoante haja mera negligência ou já dolo.

Entretanto, seguindo à direita, regressando pela Ponte Feia, logo a seguir está a Milha XXXIII, onde resta um edifício, cujas ruínas recordam o parque de campismo que durante muitos anos ali existiu, mas que era incompatível com um parque nacional.

Ribeira de Monção. vídeo: Joaquim gomes / O minho

Daí atravessa-se a Ponte da Ribeira de Monção e poucos metros depois a imponente Ponte de São Miguel, sempre dominados pelo ímpeto das águas nascidas em pontos mais altos da Serra do Gerês, como é o caso do Rio Homem, principal leito da zona.

A partir daqui os chamados caminhos de pé-posto (popularmente designados “caminhos de cabras”) são uma constante, com o pequeno alívio na área do Prado de São Miguel, passando pelas antigas casas da Guarda Fiscal, também estas todas em ruína.

Gado a pastar no prado de são miguel. vídeo: Joaquim gomes / o minho

Até que após uma pequena subida íngreme, chegamos à Milha XXXIV, a da Portela do Homem, em frente ao antigo edifício fronteiriço que outrora constituía a única ligação oficial entre o distrito de Braga e a Província de Ourense, na região da Galiza.

 
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