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Braga

Joaquim Barreto: “Ao contrário do Ricardo Costa, eu tenho palavra”

Entrevista

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Foto: Divulgação / PS

No sábado, os militantes do Partido Socialista (PS) escolhem o novo presidente da Federação Distrital de Braga. A escolha é entre uma cara nova, Ricardo Costa (Lista B), e o atual líder, Joaquim Barreto (Lista A), que garante apostar numa renovação geracional no partido, mas com sustentabilidade. Em entrevista a O MINHO, o também deputado na Assembleia da República acusa o adversário de “não ter palavra” e diz mesmo que Ricardo Costa foi um dos 14 militantes que incentivou à recandidatura do antigo presidente da Câmara de Cabeceiras de Basto à Federação. Joaquim Barreto elogia ainda a atitude de “charneira” do atual Governo de António Costa, por unir-se com diferentes partidos para conseguir levar avante a legislatura.

Porque se decidiu recandidatar à Federação?

Decidi recandidatar-me porque sou um militante do PS há muitos anos, tenho procurado servir o partido e não servir-me do partido, sempre agi com humildade mas com sentido de responsabilidade e conquistei e ajudei a conquistar muitas vitórias para o PS num território conservador, como Cabeceiras de Basto, onde exerci mandato de presidente de câmara por este partido. Sou também candidato porque em agosto de 2019, um conjunto de camaradas do partido, jovens e não só, fizeram uma reunião e entenderam que eu deveria ser de novo candidato. Nessa reunião estavam nomes como Frederico Costa (Póvoa de Lanhoso), Pedro Costa (Amares), Luis Soares (Guimarães) e Ricardo Costa, que agora também é candidato. Nessa reunião estavam 14 pessoas e todos entenderam que o Joaquim Barreto devia ser candidato. Tive ainda incentivos de presidente de Câmara como Guimarães, Fafe e Cabeceiras. Quero continuar a servir o partido, não porque esteja agarrado ao lugar, mas porque procuro respeitar os compromissos que assumi com esses 14 camaradas, entre eles o Ricardo Costa, e porque, ao contrário dele, tenho palavra, e na política como na vida, a palavra é muito importante.

Ficou surpreendido com a candidatura de Ricardo Costa?

Fiquei surpreendido porque, para mim, as pessoas têm palavra. Para mim, essa candidatura é feita de noite para o dia, numa madrugada de deslealdade para com os camaradas que estiveram nessa reunião. Essa candidatura está imbuída de ambição, mas também de deslealdade e, porque não dizer, por traição. Além de mim, todos os outros camaradas que estiveram nessa reunião estão do meu lado, menos o Ricardo Costa, e ninguém compreende a postura e sentimento que ele teve de deslealdade para com os outros todos. Além disso, nem sequer teve nenhuma conversa comigo nem com as outras pessoas nessa reunião para a justificar.

Se vencer a Federação Distrital, a primeira batalha eleitoral que terá são as presidenciais. Como vê um possível apoio do PS à recandidatura de Marcelo Rebelo de Sousa?

Neste momento, temos que avaliar todas as questões que temos pela frente, nomeadamente as presidenciais, as autárquicas, e nada fazermos sem ouvir primeiro os militares, conhecer o que pensam e, em função disso, chegar a um consenso em linha com a posição da Nacional.

Não tem uma preferência pessoal?

Posso ter preferências pessoais, mas mais importante são as preferências do coletivo.

Ainda no plano da política nacional, que avaliação faz da gestão do Governo nesta legislatura, sem suporte maioritário na Assembleia da República?

O Governo tem feito uma gestão equilibrada, a tentar estabelecer consensos com as partes, procurando um rumo de trabalho na defesa dos interesses do país.

E não gostava de ter visto a ‘geringonça’ prolongada nesta legislatura?

O PS está numa atitude de charneira, não em cunha. Em cunha, estava entalado, mas em charneira está a procurar caso a caso com outros interlocutores, como o Bloco, PCP ou PSD, encontrar soluções que não condicionem a legislatura. Concordo com esta atitude porque acho que é o melhor para Portugal.

Como vê a ação destes partidos mais recentes na legislatura?

São vontades espontâneas que se começam a esfumar, como aconteceu com outros partidos há dezenas de anos. Temos assistido a um desmembramento do PAN, por exemplo, e há projetos que têm ambição mas não têm sustentação e acabam por dar um passo maior do que a perna. As pessoas também percebem quais os partidos que não têm projetos nem sustentabilidade de futuro e que se apoiam na demagogia e no populismo. As pessoas percebem.

O PS tem atualmente apenas quatro câmara no distrito de Braga, em 2013 eram seis, em 2009 eram oito. Que análise faz destes resultados?

A análise foi feita no ultimo congresso em 2018. Tivemos então uma candidatura única à federação, que foi a minha, e apoiada pelo Ricardo Costa, que era então diretor de campanha. Fico surpreendido, para não dizer estupefacto, quando ele próprio apoiou uma solução política em 2018 que avaliou esse resultado. As eleições de 2017 não correram como desejávamos, mas recordo que fui eleito já em 2018, depois desses resultados. Quanto a termos perdido Câmaras, também aconteceu em Viana do Castelo, não só em Braga, por força da conjuntura que se estabeleceu localmente no Minho, mas esperamos que em 2021 os resultados sejam outros.

Mas não acha que tem responsabilidade?

No meu concelho [Cabeceiras de Basto], onde sou militante, conseguimos um resultado ótimo, passámos de minoria para maioria absoluta, e recordo que quem escolhe os candidatos são as concelhias, à Federação compete homologar os resultados, mas é à direção nacional que cabe validar os candidatos das concelhias.

É acusado disso…

Querer pôr na distrital o mau resultado nas concelhias é de uma irresponsabilidade e desonestidade intelectual que não se justifica. O Ricardo Costa devia ter vergonha em atribuir essa responsabilidade porque foi diretor de uma campanha que analisou esses resultados. Ele esteve em 2018 quando fizemos um congresso para avaliar os resultados. Era diretor de campanha e ele que se lembre disso. Ouve-se falar que o Ricardo Costa quer unir o partido no distrito. A candidatura que lidero tem apoio de onze concelhias, enquanto ele só tem o apoio de três. Mesmo nos três concelhos onde tem apoio, a nossa candidatura tem apoio substancial. Outra coisa que é importante, Ricardo Costa não tem candidatos delegados ao congresso em Cabeceiras, Celorico, Esposende, Póvoa de Lanhoso, Terras de Bouro, Vieira do Minho e Vizela. São sete concelhos. Como é que uma candidatura que não tem candidatos a delegado ao congresso quer unir o distrito? Já tem uma derrota à partida neste desafio eleitoral. Ele já é um derrotado antes das eleições.

Ricardo Costa não está a unir o distrito?

Quando fala em unir o distrito, podemos ver o caso da melhor concelhia que o PS tem no distrito, que é a de Guimarães. A primeira atitude que Costa teve foi dividir aquela concelhia, trouxe instabilidade e insegurança. Portanto, alguém que se diz querer unir o partido, a primeira coisa que fez foi dividir a concelhia. O presidente da Câmara de Guimarães e o presidente da concelhia estão deste lado, assumiram compromisso comigo, portanto a candidatura de Ricardo Costa é um fator de divisão, instabilidade, deslealdade, e comporta todas as consequências que dai advêm. O Ricardo Costa deve pensar no que diz porque na política não vale tudo, as palavras têm de ter tradução na prática em termos de seriedade política. Primeiro, dividiu a concelhia, procurando confrontar as pessoas com um facto consumado, dizendo que quer unir o distrito mas sem o apoio de onze concelhos. Segundo, parte para o congresso para as eleições no próximo sábado sem delegados em sete concelhias.

As últimas autárquicas foram marcadas por divisões internas, sobretudo em Fafe e em Barcelos, nas quais houve movimentos independentes que retiraram as maiorias absolutas ao PS. Considera que estas divisões já estão sanadas ou ainda vão ter impacto nas próximas autárquicas?

Estamos a procurar criar condições para que haja unidade. Em Fafe já tivemos resultados práticos, pois houve uma só lista para a concelhia, onde se juntaram diferentes posições. Nos outros concelhos também está em curso um diálogo intenso para procurar as melhores soluções. As pessoas que estão à volta da outra candidatura não deviam ser agitadores nesse sentido.

Consigo a liderar a Federação, o que consideraria um bom número de câmaras para o PS? 

Certamente vamos ter mais Câmaras, mais Juntas de Freguesia, e em 2021 teremos essa prova, porque o trabalho que está a ser feito é muito intenso, e tenho sentido de forma espontânea apoio dos militantes mais antigos mais experientes, mas também dos mais jovens, enquanto percorro o distrito à volta da candidatura. Estamos a renovar o partido, mas uma renovação em todo o distrito, e não só de um jovem, como se diz Ricardo Costa. Posso começar a dizer de Amares a Vizela, temos remodelação em todo o distrito. Estou ao leme do barco para promover essa renovação, que seja sustentável, mas para todos, e não só para um.

Que balanço faz deste biénio à frente da Federação?

O mandato tem de ser avaliado entre 2018 e 2020, onde não houve eleições autárquicas. Houve europeias e legislativas, e nas duas tivemos grande vitoria. Nas europeias elegemos uma deputada, pela primeira vez elegemos uma eurodeputada no distrito de Braga. O partido abriu-se a sociedade civil, e ela simboliza essa abertura, não só à sociedade civil mas também ao mundo académico. Nas eleições legislativas, elegemos em Braga, comparado com 2015, mais um deputado para a Assembleia da República, passamos de sete para oito, e para ter deputados é preciso ter votos. A nível nacional, o PS teve mais 124.500 votos, o distrito de Braga contribuiu para esse aumento com 23.500 votos, fomos dos distritos, a seguir ao Porto, que deu mais votos para a vitória nacional. Por isso faço um balanço muito positivo.

Como encara o apoio das concelhias de Vila Verde, Barcelos e Famalicão ao seu adversário?

São opções que respeito e cada um pode ter a sua, pois vivemos em democracia. Agora tem de se fazer as opções com respeito pela palavra. Se o camarada de Famalicão quer apoiar outra candidatura, está à vontade, respeitamos isso, faz parte da convivência. Manteremos com essas concelhias um diálogo institucional que é importante manter. Em relação a Barcelos e Vila Verde, tive recentemente uma reunião com ambas as concelhias num quadro de institucionalidade da federação.

O jornal Público noticiou que o PS queria escolher até agosto os candidatos das capitais de distrito e apontava Hugo Pires como o escolhido para Braga. Vê-o como um bom candidato, teria o seu apoio?

A direção nacional já desmentiu essa noticia, que não tinha correspondência prática com a verdade, e como lhe disse, o processo da escolha de candidatos é feito pelas concelhias e a nacional validará ou não.

Mas a concelhia de Braga é de extrema importância…

Em Braga podemos ter um bom resultado. Depois das eleições para a federação, estabilizados os órgãos distritais, certamente não deixaremos de encontrar a melhor solução para o concelho de Braga.

Para terminar, pedia-lhe uma mensagem para os militantes que no sábado vão votar.

Os militantes devem votar Joaquim Barreto porque tem provas dadas ao serviço do partido, como é o caso de Cabeceiras onde conquistou a Câmara ao PSD, onde fazemos um trabalho que nos honra. Fizemos no distrito também esse trabalho, ouvindo os militantes sempre que nos contactam. Eu não vou aos concelhos só quando há eleições, conheço a maior parte dos militantes pelo nome e tenho uma relação de afeto para com eles. Não uso militantes para os atos eleitorais, estou com eles nas horas boas e más, e reafirmo que este é um projeto que respeita todas as gerações.

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