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Trumps: o original e as imitações. Todos para levar a mal, seja ou não Carnaval

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Artigo de Vânia Mesquita Machado

Pediatra e escritora. Autora do livro Microcosmos Humanos. Mãe de 3. De Braga.

Bizarro, muito bizarro, o alegado engano na entrega da estatueta dourada ao Melhor Filme no momento mais aguardado da noite, que transformou num fiasco o expoente da Cerimónia dos Óscares deste ano.

Um óscar vale o que vale; é do senso comum que grande parte dos filmes com histórias mais originais e indiscutível qualidade visual, artística e intelectual, reconhecida pelo público e pelos críticos em geral nem sequer é candidata ao prémio.

A indústria cinematográfica é uma máquina veterana e muito bem oleada; os requisitos para eleger o «Melhor Filme» do ano e todas restantes categorias associadas à arte do cinema são alegadamente sujeitos a um escrutínio de cariz duvidoso no viciado jogo de xadrez de bastidores, as peças manipuladas pelas artimanhas dos grandes estúdios que fabricaram os filmes comerciais, sinónimo de grande sucesso de bilheteiras fruto de técnicas de marketing utilizadas em massa, após análise minuciosa das caraterísticas das audiências alvo.

Apesar disso, a atribuição de um prémio pela Academia de cinema americana na grande noite dos óscares é um acontecimento firmemente enraizado na cultura do seu povo, com mais de oitenta décadas de existência.

A cerimónia é aguardada com enorme expetativa pelo mundo fora, a passadeira vermelha onde desfilam belíssimas atrizes cujos vestidos são uma das principais atrações da festa e a pompa e circunstância do evento enchem o olho e deliciam as vidas menos glamorosas das pessoas comuns, os críticos de cinema ardem de curiosidade pela confirmação dos seus vaticínios, os cinéfilos fazem apostas. Em todo o globo vai-se espreitando o desenrolar do espetáculo, e aguardam-se ansiosamente as piadas incisivas que caraterizam habitualmente a apresentação e que são já uma tradição, satirizando-se temas da atualidade.

Por tudo isto, a entrega dos óscares é indiscutivelmente um acontecimento marcante na agenda da sociedade ocidental. Apesar de valer o que vale.

E por tudo isto também vai-se entranhando nos hábitos de todos a distinção anual da alegada nata do cinema, estranhando-se ainda mais o que sucedeu este ano.

Um evento treinado ao ínfimo pormenor, desde a posição estudada na passadeira vermelha, passando pelo alinhamento e escolha criteriosa dos comentários jocosos, não era suposto ter uma falha tão grave como uma ridícula troca de envelopes.

A imagem do elenco de Lalaland, os pretensos vencedores já em palco e em pleno agradecimento é humilhante para os mesmos, apesar do filme… Valer o que vale.

Assisti ao filme que foi o real vencedor, Moonlight, e não o considerei também como sendo o melhor filme deste ano, mas a minha opinião é pessoal e o valor do prémio…Vale o que vale.

Inaceitável é o comportamento de um Presidente, que perante este indecoroso erro vem a público no dia seguinte explicar, numa entrevista dada a um site conotado com a extrema – direita e conhecido pelos seus conteúdos racistas e xenófobos (Breitbart News): «O erro na hora de anunciar quem levaria para casa a estatueta para o Melhor Filme deu-se porque Hollywood estava mais preocupada em atacá-lo do que em dar conta de todos os pormenores que envolviam a cerimónia» (jornal «o Público»).

Sendo Donald Trump… Vale o que vale.

Embora as piadas sejam sempre por regra acutilantes e viperinas, este ano foram certeiras e sem subtileza dirigidas em bloco ao Presidente, (que assumidamente é espectador habitual da cerimónia) o que também não deixa de ser estranho numa Nação orgulhosa como a americana, e que reflete bem o descontentamento geral.

Talvez valha mais do que pareça…

Alguém me sugeriu se não teria sido o próprio Presidente a provocar o erro, para destruir a máquina de Hollywood que o persegue sem descanso… Alegadamente.

Já existe até um «real» culpado, depois dos responsáveis da Academia terem passado a noite a investigarem em pormenor as circunstâncias e terem lançado às feras um bode expiatório…

Alegadamente.

Sem alegações mas assumidamente, um conhecido fadista lusitano resolveu emitir o seu juízo de valores sobre o motivo de Moonlight ter vencido realmente o prémio de Melhor Filme, e do alto da sua omnisciência comentou através da sua página de Facebook que tal se deveu à cor da pele e à orientação sexual das personagens do filme.

O que não vale absolutamente nada, mas ofende, e muito.

E mesmo em pleno Carnaval, é para levar a mal.

O infeliz senhor ainda se poderia tentar desculpar, por exemplo, dizendo que se disfarçou de Trump, por ser Carnaval.

Apesar da reação generalizada de repúdio emitida de imediato por todos os quadrantes da opinião pública portuguesa face às suas declarações, o senhor finca o pé teimosamente e justifica-se através da «liberdade de expressão» (que obviamente termina quando começa a de outro ser humano, e que neste caso foi, sem alegações e descaradamente desrespeitado pelas suas afirmações racistas e homofóbicas).

Onde andarão escondidos todos estes Wallys, (perdão, enganei-me), Trumps?

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