As Crianças e a Internet: A solução não é proibir, é estar atento e dialogar - O MINHO
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As Crianças e a Internet: A solução não é proibir, é estar atento e dialogar

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As Crianças e a Internet: A solução não é proibir, é estar atento e dialogar

Fui convidada pelo jornalista João Fernando Ramos para o Jornal 2 esta sexta dia 10 de março, na sequência do ocorrido em Ponte de Lima durante a última semana , o desaparecimento de uma adolescente de 13 anos, para falar sobre os perigos da internet, algumas horas antes da emissão, quando a jovem foi encontrada.
Apesar de apanhada de surpresa, resolvi participar dada a importância do tema.

Expus a minha opinião tentando ser assertiva e focar os pontos principais, mas o tempo em direto é sempre muito curto, e exponho aqui alguns elementos mais claramente, para que todos possam refletir no que está em questão.

Afirmo sem hesitar que poderia acontecer a qualquer adolescente.

Friso sem dúvida alguma que é impossível evitar a exposição de crianças e adolescentes a conteúdos da internet.

E indesejável também, dada a potencialidade do contacto com a aldeia global, onde um manancial de informação está facilmente disponível, sendo indiscutivelmente uma ferramenta aliada na aprendizagem – mal aprendem a soletrar, as crianças são estimuladas a pesquisar online, e é benéfico que o façam, pela possibilidade de expandirem conhecimentos de forma tão acessível.

A realidade desta geração é totalmente diferente da nossa. A internet existe há mais de 20 anos, os nossos meninos nascem praticamente ensinados a navegar na net… são cyberkids.

Proibir nunca será uma solução aceitável, o fruto proibido é mais apetecido, e a frase não é um cliché, mas um facto indissociável da fisiologia do desenvolvimento na idade da adolescência: pisar o risco e desafiar faz parte da fase de transição para a idade adulta.

Aliás,como já referi quando escrevi sobre os nudes noutro artigo do jornal oMinho, o acesso às tecnologias se não for permitido em casa é feito na escola ou pelos aparelhos de um colega…

A proteção dentro de uma redoma de vidro não tem qualquer benefício e é, repito, contraproducente.

Aproveito para citar o jornalista Paulo Moura, que num excelente artigo de 05-04-2015, ainda de grande atualidade (reportagem do jornal O Público na qual tive oportunidade de participar com a minha filha Sofia, e foi quando assimilei que a velocidade de acontecimentos no mundo virtual é incontrolável por nós, adultos, sendo apenas possível acompanhar e estar atento) escreveu: “A geração da Net está sem rede(…) Portugal é o país onde o hiato entre a literacia informática pais-filhos é o maior da Europa”.

Ou seja, estamos numa selva informática.

O controlo parental aplicável ao dispositivos é ineficaz e facilmente desbloqueado pelos adolescentes. As redes não se limitam ao Facebook (demodé até para os mais novos), existe o whattsapp, sSnapchat, instagram, twitter, entre outros. Os adolescentes rapidamente aprendem a restringir conteúdos de quem os tenta vigiar…

Como assistimos esta semana, em que uma adolescente de livre vontade fugiu de casa, os riscos são reais.

Apesar de mais prevalentes em famílias carenciadas e desestruturadas (pelo desemprego, emigração, etc.), com maior incidência em raparigas entre os 13 e 15 anos, nenhuma família está livre deste flagelo.

Rapidamente se estabelecem conversas online, as quais são também importantes para que os adolescentes se sintam inseridos no seu grupo de pares, partilhem conhecimentos e conversem, quando em altura de aulas, pouco tempo lhes sobra para o convívio salutar.

Mas os perigos espreitam, as conversas podem degenerar em sexting, e facilmente se disponibilizam, como já referi, fotos em que a banalização da imagem corporal é evidente (em gíria juvenil, os nudes).
Qualquer pedófilo pode partilhar estas imagens em redes internacionais, facilmente.

E pode criar um perfil falso, conversando com os adolescentes e manipulando-os aos poucos, envolvendo-os emocionalmente. Um adolescente mais fragilizado é um alvo acessível, e sendo apresentado como chamariz um mundo fantasioso, que contrasta com a sua realidade monótona e por vezes deprimente, não precisando sequer de ser chantageado para por livre vontade ser aliciado a ir ao encontro destes sujeitos hediondos.

Ou seja, a pedofilia, o bulliyng, a gravidez indesejada, as doenças venéreas, e mesmo o suicídio são perigos à espreita.

Concretamente podemos agir, como pais, ligando o botão de alarme interno sem alarmismo.

Também já o disse, assim como escrevi sobre a importância de dialogar em momentos oportunos ( como quando casos reais acontecem), e com tempo.

O ideal do computador no meio da sala é virtualmente impraticável, os adolescentes utilizam-no também para estudar, mas entrar de surpresa nos seus quartos e observar se a atitude deles é suspeita, pode ser útil.

Conversei sobre o tema com a Professora Henedina Antunes, minha colega, responsável pela Unidade de Adolescentes do Hospital de Braga, pelo Núcleo de Apoio à Criança deste hospital (em permanente contato com a CPCJ).

A idade legal de intervenção “na privacidade” dos adolescentes é até aos 16 anos, e nestas idades se o risco for iminente, ver os conteúdos dos aparelhos não é uma intrusão na sua intimidade mas uma necessidade, que não deve no entanto ser a regra. A partir dos 8 anos as crianças têm noção dos riscos, e mais importante é incutir valores, para que na hora H a sua formação moral os leve a decidir com sensatez.

Já há felizmente muito trabalho realizado para prevenir estes riscos pelas entidades responsáveis.

Na área da saúde, tanto nas consultas de Medicina Geral e Familiar e de Pediatria, existe espaço para que o adolescente esteja sozinho com o médico.

É dada formação sobre a abordagem dos riscos das redes sociais nos Centros de Saúde, oportunamente nas consultas dos 11-13 e 15 anos.

Nas escolas, os programas pedagógicos incluem estes temas na disciplina de Educação para a Cidadania. Agentes de autoridade deslocam-se às escolas (Miúdos Seguros na Net).

Mas ainda há muito por fazer.

Para além de todos podermos ser agentes interventivos, como pais e educadores, insistindo em casa na gravidade de falar com estranhos e conversando muito, o investimento financeiro deve ser maior, nomeadamente colocando mais psicólogos nas escolas, e com diferenciação para a deteção precoce de alterações comportamentais e não apenas vocacionados para a dificuldade de aprendizagem e orientação profissional.

A lista de espera nos ACES para consultas de Psicologia é aproximadamente de um ano, equivalente à de referenciação hospitalar para consultas de Pedopsiquiatria e Psicologia.

A PJ faz um excelente trabalho em interligação com organismos internacionais de rastreio de pedófilos em rede. Mas mais fundos serão necessários para prevenir os crimes cibernéticos, principalmente os que abrangem crianças e adolescentes.

A comunicação social deve divulgar mais campanhas de prevenção dos riscos da internet para que toda a sociedade esteja corretamente informada.

O exemplo do Jornal 2, que oportunamente divulga conteúdos como o que foi abordado ontem, deveria ser seguido por outros telejornais, reduzindo a quantidade de notícias sensacionalistas: captam audiências mas não prestam serviço público.

Termino com a mensagem da importância da ponderação: em família não se deve nem agir como a avestruz, nem assumir uma atitude de proibição exagerada e sem efeitos práticos.

Não é verdade que estas situações aconteçam só aos outros.

A consciência desta realidade social é um dever que nos assiste a todos como cidadãos, como elementos fundamentais na proteção da geração futura, e minimizando os riscos desta natureza, que tendencialmente vão continuar a aumentar.

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