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Três abraços a zero

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Artigos de Manuel Pimenta no jornal O Minho

MANUEL PIMENTA

Levanto-me rápido sempre que acordo sozinho numa nova cidade.
Depois faço quilómetros, ao acaso como quando faço a barba.
Não páro por nada. Por quase nada.
Interesso-me mais pelo que se segue. Mesmo sem fazer ideia do que seja.
É estranho, mas é assim que gosto.
Gosto de percorrer tudo à toa. A uma velocidade incompreensível.
Como se quisesse engolir ruas e praças.

Decido o fim pelo cansaço. Então aí paro. Escolho um lugar onde ficar sentado.
Deixo-me estar. Fumo um cigarro daqueles.
E só depois me dirijo à janela onde pretendo almoçar.
A melhor janela de todas as que vi nessa manhã.

A escolha foi fácil desta vez. Passei por lá várias vezes enquanto tricotava a cidade.
Fica numa praça de nome estranho. Dentro de uma taberna com ar de presépio.
O interior também conta na escolha de uma boa janela.

Lá fora a praça parecia triste. Despovoada. Demasiado escura.
Toda a cidade me apareceu nesse tom. Mal acabou a aurora começou o fim de tarde. Talvez por isso tenha parecido tão masculina.
Somos assim os do meu sexo. Passamos de crianças a velhos. Uns mais cedo outros mais tarde. Mas todos saltamos a fase adulta. Também há aqueles que já nascem velhos. E ainda outros, os eternos incapazes de abandonar a criança.

No interior vários quadros. Centenas de fotos antigas nas paredes e tecto.
Candeeiros ‘belle epoque’ foram distribuídos ao detalhe. No centro um piano com buracos de bala. E atrás do balcão duas estranhas marionetes.
Tocavam instrumentos reais. Acordeão e trombone.
Músicas variadíssimas, sempre interpretadas por aqueles badamecos de madeira.
Vendem CDs daquilo e tudo. A três contos dos nossos cada.
Certamente há japoneses que compram. Há sempre gente que compra tudo.
Sabem ganhá-lo estes germânicos. O meu almoço foram duas salsichas. Frias.
O resto do prato era salada. Isso e uma concha de mostarda vomitada a um canto.
Beber só bebi uma. E das pequenas. No fim paguei tanto como um CD dos dois pinóquios.

A meio das salsichas começou a juntar-se gente na praça.
Cerca de cinquenta almas, que da janela julguei de ambos os sexos.
Ao aproximar-me vi que não. Tudo mulher. Embora algumas nada fizessem para o aparentar.
Tratei de entender o que as juntava. E fui-me apercebendo, mesmo sem conseguir ler os cartazes.
Tratava-se de uma associação de mulheres de bom gosto. Digo assim às vezes por brincadeira.
Percorrem uma cidade por dia, ajudando as outras e fazendo valer os seus direitos.
Uma dirigiu-se a mim enquanto as focava feito cabaneiro.
Chamava-se Greta. E não evitei a gargalhada interior.
Quis saber de onde eu era. E mal lhe disse, perguntou como estava a realidade lésbica em Portugal.
Respondi que vai andado. Um pouco a pulso mas andando. Talvez como na Alemanha, arrisquei dizer.
Então ainda há muito por fazer. Disse-me ela para meu espanto.
As leis alemãs são bastante tolerantes. O problema actual não é bem esse.

Foi nessa altura que me apresentou Yasmina. De longe a mais jovem e bonita do grupo. O seu cabelo era curto. E trazia nos olhos a paz que a coragem dá.
Nasceu em Berlim e é filha de emigrantes turcos. Viveu nos subúrbios da capital até aos dezasseis, onde já lutava pelos direitos da comunidade muçulmana sofrendo agressões por isso.
Foi com essa idade que decidiu assumir em casa a sua sexualidade. E foi nessa mesma noite, que a mãe e irmãos pegaram fogo à cama onde dormia. Mostrou-me as queimaduras como troféus.
Não se revoltou contra ninguém. Passou a ser activista em dose tripla. Luta agora contra todos os preconceitos absurdos que já sofreu na pele. Étnicos, religiosos e sexuais.
Quis saber quais os seus sonhos. Nada demais, respondeu.
Quero o mesmo que as outras mulheres. Ser livre no país onde nasci. Viver com a pessoa que amo e ser mãe.

Despedimo-nos com abraços.
Greta e Yasmina foram com as outras comprar salsichas. Algumas brincaram com a situação.
Quanto a mim segui caminho. Fui esperar o companheiro de sempre. Chegava de Londres, para ao fim da tarde vivermos mais uma aventura como adeptos.
Perdemos. Mas pelo menos marcámos um.
Ganhei assim mais um abraço. E as saudades que eu tinha desses abraços da bola.

Colónia, Fevereiro de 2016.

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