Seguir o O MINHO

Opinião

Psicólogos contestam medidas para ano letivo e alertam para o impacto na saúde mental das crianças

em

Foto: DR / Arquivo

Laura Sanches, Zulima Maciel e Ana Rita Dias, são três amigas Psicólogas Clínicas que estão preocupadas com as medidas a tomar no próximo ano letivo e receiam mesmo do impacto que as mesmas poderão ter na saúde mental das crianças, pelo que se uniram para abrir discussão sobre o tema e contaram com o apoio e assinatura de vários psicólogos e outros profissionais de saúde mental, cujos alguns estão representados no final deste artigo.


Somos um grupo de psicólogos e profissionais ligados à saúde infantil e juvenil, bastante preocupados com a saúde mental e o bem-estar das crianças, que tem sido o grupo mais sacrificado durante esta pandemia. Não por causa do vírus que já se sabe que é maioritariamente de evolução benigna neste grupo etário, mas por causa das medidas sanitárias que têm sido tomadas, sem grande consideração pelo seu bem-estar e sem evidência científica da sua real necessidade.

Laura Sanches, Zulima Maciel e Ana Rita Dias. Fotos: DR

Está previsto que a escola presencial regresse em setembro, com muito agrado nosso, mas com algumas medidas que, embora não todas oficiais, ainda nos preocupam e dessas vamos destacar quatro principais: as medidas de distanciamento entre as crianças, a redução dos intervalos, o uso de máscaras e a entrada dos pais sobretudo ao nível dos jardins-de-infância e creches.

1. Sobre o distanciamento entre as crianças

A escola não serve apenas para aprender e trabalhar as capacidades cognitivas. Um ponto muito importante da escola é a socialização. Quando afastamos as crianças e lhes transmitimos a mensagem de que elas precisam de se manter afastadas, estamos a bloquear um instinto natural das crianças de procurarem o contacto físico e de se manterem próximas umas das outras. Isto cria-lhes tensão e uma pressão grande que facilmente se torna num elemento de ansiedade que sabemos ser tão prejudicial ao seu desenvolvimento e, consequentemente, à sua aprendizagem. Por sua vez, as medidas de distanciamento irão fomentar o uso de ecrãs durante os intervalos, algo que irá alimentar um problema que já existe nas nossas escolas e que sabemos ter consequências muito nefastas para o desenvolvimento de crianças e jovens.

2. Sobre a redução dos intervalos

Os intervalos são momentos importantes de socialização e constituem pausas essenciais para uma boa aprendizagem e para potenciar os tempos de atenção/concentração, frisando-se a importância de estes intervalos serem fora da sala de aula. A saber-se a importância de potenciar os momentos ao ar livre, é insensato e paradoxal diminuir-se os intervalos. Estes devem continuar a acontecer, de preferência ao ar livre e com horários desfasados entre turmas, para que não haja tanta aglomeração entre alunos.

3. Sobre a proibição da entrada dos pais

Permitir a entrada dos pais na escola, quando vão deixar ou buscar os filhos, não é um capricho. Uma criança que entra num lugar novo fica sempre num certo estado de alerta, principalmente quando essa entrada implica a separação das suas figuras de apego, as suas referências. A única forma de desactivar esse alerta é o contacto com as figuras de apego. E enquanto ele não for desactivado, a criança não está disponível para estabelecer novas relações seguras, que, por sua vez, são essenciais para que o seu dia na escola seja vivido da melhor forma e até para que consiga aprender realmente. Isto é muito importante em todo o processo de adaptação dos mais novos, que pode durar dias, semanas ou meses e que acontece sempre outra vez, depois de um período de afastamento. Mas também dos mais velhos, depois de tudo o que aconteceu este ano, com um período de afastamento tão prolongado e carregado de tensão por vários motivos. Permitir a entrada dos pais na escola é fundamental para que esta não se torne um mundo completamente estranho e separado da família, em que a criança nunca se sentirá realmente segura.

É muito importante que os pais possam ver diariamente os professores e educadores e que sejam eles a entregar-lhes a criança, porque é isso que lhes permite fazer a ponte. O instinto da criança diz-lhes que não devem ficar com estranhos, que devem procurar sempre as pessoas com quem se sentem seguras. Então, para que os professores deixem de ser estranhos para elas, é preciso que os pais façam essa ponte, que lhes mostra que podem construir uma ligação com aquela pessoa, e isso faz-se de forma simples, falando com a pessoa, mostrando que ela é de confiança e que já temos uma relação com ela.

Pensamos que, cumprindo os pais todas as normas de segurança (desinfecção, troca de sapatos e máscara enquanto circulam na escola), não há grande fundamento para este impedimento.

4. Sobre o uso das máscaras

O uso prolongado de máscara pelos adultos nas creches e jardins-deinfância também não facilita o processo de adaptação, porque as expressões faciais são uma parte fundamental da comunicação nãoverbal e daquilo que nos faz ou não sentir segurança na presença da outra pessoa. Stephen Porges usa o termo “neurocepção” para falar de um mecanismo inconsciente que nos faz avaliar constantemente a segurança do ambiente externo e interno e essa avaliação passa, em grande parte, pela comunicação não-verbal. Essa comunicação não é apenas facial, também passa pelos olhos, pelo tom de voz e pela prosódia do discurso, coisas que a máscara ainda nos permite perceber, mas que podem ser insuficientes para uma criança pequena. Sem ver totalmente a cara da pessoa com quem nos relacionamos, é bem mais difícil recolher essas pistas de segurança, e quando nem sequer conhecemos essa pessoa, como irá acontecer na adaptação à escola para muitas crianças, então isto torna-se praticamente impossível.

Por outro lado, a evidência científica até ao momento remete para uma prevalência muito reduzida desta nova doença (covid-19) em crianças (cerca de 2%), sendo que, quanto mais nova for a criança (sem problemas de saúde prévios), menor é o risco. Os estudos realizados até ao momento chegam cada vez mais ao consenso de que a criança tem um papel quase nulo na transmissão do vírus, sendo geralmente essa transmissão feita de adulto para criança (embora, mesmo assim, maioritariamente benigno para a criança). Segundo vários pediatras europeus, o uso de máscaras em creches, jardins-de-infância, 1.º e 2.º ciclos por crianças sem patologia grave subjacente não é nem necessário, nem apropriado, nem razoável. Mais ainda: isso limitaria ainda mais a socialização entre pares. Na esmagadora maioria dos países que optaram por tornar obrigatório o uso de máscaras nas escolas, esta norma só se aplica a partir dos 13 anos. E alguns países como a Suíça e a Dinamarca optaram mesmo por não as tornar obrigatórias para os adultos nas creches e, ainda assim, a Dinamarca não registou um aumento dos casos que fosse associado às escolas, que estão a funcionar desde 15 de Abril. A Noruega, que reabriu as escolas a 20 de Abril, também não registou nenhum impacto causado por esta reabertura, sendo um dos países em que também não são obrigatórias as máscaras nas escolas.

Quando nos concentramos apenas na comunicação oral, algo que é forçado pelo uso continuo de máscaras, estamos a estimular o uso do hemisfério esquerdo em detrimento do direito, algo que sabemos estar bastante mais associado a sentimentos de agitação, ansiedade e até de depressão.

O uso prolongado de máscaras em crianças – até porque antes dos 12 anos de idade a expressão verbal ainda não é tão preponderante – pode conduzir facilmente a uma condição de stress crónico que interfere no humor, na atenção/concentração, no comportamento e na aprendizagem.

Conclusão:

As investigações ligadas às experiências adversas na infância mostram bem como o stress que estas provocam está ligado a uma série de complicações de saúde na vida adulta: a obesidade, diabetes tipo II, perturbações de ansiedade e depressão e até problemas cardiovasculares, a principal causa de morte na sociedade ocidental.

Atendendo a que, felizmente, as crianças constituem um grupo de baixo risco, não é de todo razoável que se apliquem medidas tão restritivas e limitadoras de um desenvolvimento integral harmonioso e saudável, pelo que é urgente proporcionar às crianças um regresso à escola dentro da maior normalidade possível, reforçando as medidas de higiene das mãos, as actividades ao ar livre e acautelando que crianças com sintomas da doença fiquem em casa, criando também condições para que os pais possam ficar com elas.

Não podemos deixar que as medidas sanitárias se sobreponham à necessidade de preservar a saúde mental das nossas crianças e jovens. Porque, se o fizermos, teremos com certeza em mãos uma outra pandemia no campo da saúde mental, com resultados bem mais dramáticos, provavelmente.

Signatários:

Laura Sanches, psicóloga clínica
Zulima Maciel, psicóloga clínica
Ana Rita Dias, psicóloga clínica
Cátia Pereira, psicóloga social
Ana Elizabete Guerreiro Caetano, psicóloga clínica
Ana Helena Costa, psicóloga educacional
Bruno Gomes, psicólogo educacional
Carolina Rodrigues, psicóloga clínica
Cátia Martins, psicóloga clínica
Diana Gaspar, psicóloga clínica
Dora Isabel Dias Maltez, psicóloga clínica
Eugénia Amaro, psicóloga clínica
Maria Andresen, psicóloga clínica
Inês Gonçalves, psicóloga clínica
Isa Silvestre, psicóloga clínica
Daniel Sampaio, médico psiquiatra

Anúncio

Opinião

Mostra-me quem eu posso ser e eu me tornarei

Por Ana Trigo

em

ARTIGO DE ANA TRIGO

Coordenadora do Grupo de Trabalho para o Empoderamento Feminino das Mulheres Socialistas – Igualdade e Direitos da Concelhia de Braga.

O ano 2020 ficará na nossa memória pela disrupção que a pandemia trouxe às nossas vidas. No entanto, já quase a perder a esperança de haver algo positivo a recordar deste ano, eis que uma mulher irá ocupar pela primeira vez a vice-presidência dos Estados Unidos da América. Um feito que nos lembra o quanto ainda é preciso evoluir, para atingirmos a paridade de géneros nos vários espectros da sociedade. A vice-presidente eleita, Kamala Harris, homenageou no seu discurso de vitória todas as mulheres que a antecederam e que foram derrubando os obstáculos no caminho. Deixou uma mensagem de esperança “Eu posso ser a primeira, mas não serei a última”. Afinal de contas ainda é preciso mais 47 mulheres vice-presidentes para equiparar a representação dos géneros na vice-presidência dos Estados Unidos. Em Portugal, se contabilizarmos desde 1976, serão precisas 14 Primeiras-ministras e 5 Presidentas da República para termos paridade na ocupação destes cargos.

As mulheres são o que eu chamo a maioria minoritária. Maioria porque correspondem a mais de metade da população. Minoritária porque não têm poder. Ainda não estamos devidamente representadas nos lugares e cargos onde se decide o rumo do Mundo. O Fórum Económico Mundial, descreve no relatório de 2020 intitulado por “Global Gender Gap Report 2020” que dos 153 países incluídos no estudo, ainda nenhum atingiu a paridade de género. A edição deste ano estima que a paridade não será atingida nos próximos 99,5 anos. A estimativa é um Século. Um Século. Este ano celebra-se os 25 anos da importante Declaração e Plataforma de Ação de Pequim. Mudou muito desde então, mas ainda não mudou o suficiente para sermos vistas como pares, como iguais, como competentes. E ainda falta pelo menos um século para podermos ter um relance do que a paridade fará na transformação da sociedade.

O impacto da representação pode ser resumido pela frase “Não podes ser o que não vês”. Algo alcançado pela primeira vez por uma mulher traduz-se numa porta destrancada, não só na imaginação das gerações mais novas, mas na alavancagem da ambição das mulheres mais maturas. A verdade é que a representação de géneros ainda não é igual. Não é igual na comunicação social. Não é igual na ocupação dos cargos de liderança e de chefia. Não é igual na distribuição das responsabilidades da vida política e da vida familiar. Não é igual na forma como é retratada a nossa evolução.

O relato da evolução humana não é realizado de forma justa e sem vieses. O papel feminino não sendo incluído, retira não só o mérito a metade da população na evolução humana, mas torna a mulher invisível. Tardiamente, a perspetiva dos feitos femininos começou a ser refletida no século XIX. Olhemos para o primeiro calendário dado como tendo sido elaborado por um homem. Porque assumiram os investigadores que foi um homem e não uma mulher a elaborar o primeiro calendário? Ou porque não assumiram, perante a dúvida, que foi feito por ambos, homens e mulheres. Caro leitor, quero acreditar que no mínimo a dúvida existiu, tal como a investigadora Claudia Zaslavsky perguntou aos seus pares: “Quem mais do que uma mulher teria a necessidade de anotar os seus ciclos menstruais?”. As marcações feitas no Osso de Ishango do Paleolítico, para além de se assemelharem ao ciclo menstrual, são interpretadas como a indicação de uma compreensão matemática. Não estou a dar conclusões sobre a época primitiva. Estou a salientar que a falta de uma reflexão séria, com a inclusão de todas as perspetivas leva à falha. Na maioria dos casos, leva à invisibilidade da mulher.

A antropologia não absorve os contributos femininos sozinha. Absorve-os com a predominância masculina nas Línguas. Ao fim e ao cabo, se tivermos 100 pessoas numa sala, não interessa se a maioria é feminina. Basta termos 1 homem para descrevermos e nos referirmos ao grupo no masculino. Pode parecer irrelevante, mas a História é escrita no masculino. Como tal, as pessoas não se apercebem que as mulheres também lá estão, só não estão representadas. Logo, facilmente esquecidas.

O fazer representar a mulher em todos os contextos, com medidas inclusivas passa a fazer sentido. O nosso cérebro procura padrões e por isso é preciso confrontar os nossos vieses inconscientes. Todos os temos. Ao lermos numa peça noticiosa sobre um grupo de pessoas “os cientistas”, “eles descobriram”, …, o nosso cérebro deteta um padrão masculino e por isso, assume erradamente, que os cientistas são homens, mesmo que o grupo de cientistas seja composto por 99 mulheres e 1 homem. E assim, o feminino, de forma inocente, acaba descartado. No entanto, a inocência deve ter um termo quando sensibilizados que isto acontece.

Devemos então evoluir a forma como comunicamos.
Quantos mais anos a maioria minoritária tem de expor possíveis soluções para as questões de género? Os profissionais de estudos de género e todas as vozes que se querem fazer ouvir indicam possíveis soluções para os problemas da maioria minoritária. Por favor, tentem ouvir e perceber. Devemos educar e formar raparigas e rapazes de forma igual. Há espaço para todos, ninguém quer tirar nada a ninguém, certo? Então, não permitamos o arrancar de oportunidades às raparigas, a absorção dos feitos femininos. Não deixemos os nossos cérebros serem iludidos pela representação predominantemente masculina da sociedade. O impacto das mulheres não deve continuar invisível. A diversidade irá aproximar-nos e irá permitir uma realidade inclusiva. Uma realidade que sirva a todos, não apenas à nossa imagem.

Nina Simone dizia que a liberdade é não ter medo. As mulheres ainda têm medo em diversas situações. Infelizmente, muitas têm medo de entrar no lar. Medo de serem assediadas em pela luz do dia. Medo de andarem na rua à noite sozinhas. Medo de não serem levadas a sério no contexto laboral. Medo de exporem o que deve ser feito e serem vistas como mandonas. Medo de que a forma como se vestem seja mal interpretada. Medo de utilizarem a voz da qual deviam ter orgulho.

Seguindo o pensamento de Nina Simone as mulheres não são livres, consciente ou inconsciente, o receio é a nossa sombra. Vamos mudar isso? Apressemos a paridade. Um século é tempo demais.

Por fim, Parabéns Kamala, finalmente uma vice-presidência dos EUA vai representar a maioria minoritária. E acreditem, já está a fazer diferença nos sonhos e ambições de todas as gerações.

Dados sobre a autora:
Ana Trigo
Coordenadora do Grupo de Trabalho para o Empoderamento Feminino das Mulheres Socialistas – Igualdade e Direitos da Concelhia de Braga

Continuar a ler

Colunistas

O meu Pediatra, e o de tantos bracarenses

Por Vânia Mesquita Machado

em

Artigo de Vânia Mesquita Machado

Humanista. Mãe de 3. De Braga. Pediatra no Trofa Saúde – Braga Centro.

Foi o meu Pediatra.

Tinha uma voz grave, mas calma e meiga ao mesmo tempo, assim a ouvia eu quando ainda era menina.

Ralhava muitas vezes aos Pais mas tratava-lhes sempre dos Filhos atentamente, cuidando deles com o carinho vindo da alma, ao qual acrescentava o que a Medicina lhe ia ensinando, saber zelosamente acumulado em muitos anos de experiência, de quem gostava genuinamente do que fazia.

O meu Pediatra tinha os cabelos brancos desde que me lembro, e um sorriso que sabia falar com as crianças.

Ia visitá-lo frequentemente, por causa dos bichinhos da garganta ficava muitas vezes doente.
O consultório tinha uma mesa muito grande, talvez não fosse, seria eu um nico de gente e tinha o receio normal de quem é criança pequena, o estetoscópio estava frio, arrepiava-me o peito, eu fechava a boca mal via o pauzinho, mas depois de tudo feito até sabia a pauzinho de gelado.
Passado uns dias já estava melhor, tinha passado a doença, voltava a energia, e com ela a alegria para a brincadeira pelo recreio.

O meu Pediatra não soube a verdade, nem souberam os meus pais, mas a maior fita que fiz na consulta foi por uns dias antes ter engolido sem querer uma peça de um brinquedo.
Fiquei com medo que quando o doutor me abrisse a boca descobrisse a minha asneira, visse lá no fundo da garganta a peça do brinquedo e, claro, eu teria o meu castigo.

O meu Pediatra também não soube de nada, mas fiquei mesmo muito desiludida quando diagnosticou o sarampo à minha irmã mais nova, pintalgada e a arder em febre, logo na véspera do dia da partida para o Algarve. A minha irmã ficou boa depressa, mas as férias foram por um canudo.

O meu Pediatra também não soube como fiquei aliviada por não ter precisado de ser operada à garganta, apesar de não ter gostado nada das injeções de penicilina, mas tinha que ser, era para o meu bem, e com as picas indesejadas tinha-me sido receitada muita praia também, e que melhor remédio do que brincar ao fim da tarde nas pocinhas à beira-mar.

Crescida, deixei de precisar de ir ao meu Pediatra.
Continuava a ouvir falar dele por ser amigo do meu Pai, e decidida a ser Pediatra eu também, admirava secretamente a sua forma de tratar das crianças, já reformado e ainda tão dedicado aos seus meninos, tantos sorrisos trocados com os Pais ao longo de gerações, tantos corações sarados pela felicidade dos Filhos curados.

Quando comecei a estagiar no velhinho Hospital onde o meu Pediatra tinha sido médico também, e que, mesmo aposentado, ainda visitava quase todos os dias ao fim da manhã, lembro-me bem do dia em que lhe fui apresentada na enfermaria do Serviço de Pediatria.
Não se lembrava de mim, já não era criança, vestia agora eu a bata branca.
Mas lembrava-me eu muito bem e o meu coração disparava, enquanto ele olhava para mim e me dizia em jeito de brincadeira:

“És a filha do Lino? Mais uma aprendiz de feiticeira!”.

Vinte anos depois desse dia, recordo com ternura essa e as outras memórias do meu Pediatra, que foi também o Pediatra de tantos bracarenses.

Agora que partiu para sempre de viagem pelo infinito do céu estrelado, presto-lhe a minha simples homenagem com palavras escritas, apenas mais uma entre tantas outras, merecidamente.
Porque quando um ser humano é verdadeiramente bom é, e será lembrado por muita gente.

Continuar a ler

Colunistas

CUIDAR (de nós), em pandemia

Por Vânia Mesquita Machado

em

Foto: DR

Artigo de Vânia Mesquita Machado

Humanista. Mãe de 3. De Braga. Pediatra no Trofa Saúde – Braga Centro.

CUIDAR
(verbo transitivo); significado:
Tratar de alguém, garantindo o seu bem estar; tomar conta de;
dedicar esforço e tempo com determinado objetivo; pensar, ponderar ( Infopedia.pt)

CUIDAR, significado, em pandemia:

– CUIDAM DE NÓS todos os profissionais de saúde, que tentam travar um vírus há meses a fio.

Um microorganismo invisível, supostamente um ser vivo não inteligente, mas que continua a persistir e a parasitar as nossas vidas, porque usa da melhor forma possível as armas que lhe oferecemos, ao descuidarmos a nossa proteção.

Aumentou exponencialmente a capacidade de infetar, e tornou-se menos letal – sem deixar de matar – para poder continuar a parasitar hospedeiros humanos, supostamente inteligentes.

Sim, somos inteligentes, sem dúvida.

Pela nossa inteligência, a Ciência avançou vertiginosamente num inédito contrarrelógio, na temida e bizarra competição pela sobrevivência entre um vírus e o Homem.

Conhecem-se formas de tratar a infeção grave, e de evitar propagação. A vacina estará prestes a chegar.

Existe esperança, mas um caminho duro a percorrer.

Seremos bem mais inteligentes colocando de lado guerrilhas de opinião, e interesses políticos, em prol do fim da pandemia.

Para que os profissionais de saúde que cuidam de nós o possam continuar a fazer, na iminência de de um colapso
logístico e de meios humanos.

– CUIDAM DE NÓS também os que têm poder decisor.

(Mesmo que para muitos possa não parecer)

É fácil ser comentador de bancada.

Atualmente, e por muito que não nos agradem as medidas X ou Y, mesmo discordando ideologicamente, ou considerando que muitas das medidas tomadas são tardias ou não totalmente adequadas, o interesse individual de egos, a necessidade humana de ter razão, deve ser posta de lado, em prol do fim da pandemia.

É uma guerra desleal, a que enfrentamos.

A enorme imprevisibilidade não permite a acertar em cheio no melhor caminho. Mas é preciso seguirmos um caminho, todos juntos.

Está em jogo não só o Sistema de Saúde, mas a capacidade de pôr pão na mesa de uma enorme fatia da população portuguesa.

Esta é a amarga realidade que se avizinha a passo largo, se não nos unirmos agora.

Mesmo que as medidas sejam injustas para alguns. Independentemente das medidas com as quais possamos discordar, tenta-se que não se regresse ao confinamento total, o qual terá consequências imensuráveis.

Remar no mesmo sentido é mais eficaz do que ficar parado a discutir argumentos, quando o tempo é demasiado escasso para perder e demasiado valioso para minimizar danos.

Um pacote ideal de medidas, ajustado a todos e prevendo todas as circunstâncias possíveis, não existe.

Parafraseando o meu colega Gustavo Carona, “o cobertor é demasiado curto”.

– E todos nós, CUIDAMOS DE NÓS.
Ao cumprirmos o nosso papel na sociedade, cada um no seu lugar.
Ajudando o outro, sempre que possível.
Sendo responsáveis com os cuidados de prevenção, jogando pelo seguro e evitando contactos próximos desnecessários, estando atentos a sinais de doença e agindo, se estes surgirem em nós mesmos, ou nos nossos familiares, colegas e amigos da nossa bolha.

– CUIDAREMOS DE NÓS, se não desistirmos.
Por muito que o desgaste nos pese nos ombros, meses de máscaras e desinfetantes, meses de ansiedade perante a possibilidade dos que mais gostamos serem infetados e sofrerem com a forma grave da doença por covid, ou até não sobreviverem.

– CUIDAREMOS DE NÓS, se para além de nos protegermos da infeção com as medidas de prevenção,
reforçarmos ativamente o nosso sistema imunitário.

Com uma alimentação saudável e noites bem dormidas, zelando assim da saúde física na globalidade.

Mas também protegendo a nossa saúde mental, a mostrar sinais de debilidade, perante uma ameaça que não se vai embora.

O medo ajuda, se nos protege do perigo.
Mas o medo constante é paralisador e corrói-nos, psicologicamente.
A frustração fragiliza-nos, psicologicamente.
A falta de sorrisos e de coisas boas,
torna-nos vulneráveis, psicologicamente.

Estarmos permanentemente com um botão de alarme ligado, terá como consequência um curto-circuito na nossa lucidez e capacidade de discernimento.
Deixamos de pensar claramente…
E debilitamos ainda mais o nosso sistema imunitário.

CUIDAREMOS DE NÓS também, se pararmos, e olharmos por nós.

Se desligarmos um pouco da palavra pandemia, quando nos asfixia de forma neurótica e obsessiva.

Se em vez de ouvirmos notícias e estarmos constantemente online , dedicarmos tempo a outras coisas.
Como mimar os quem gostam de nós, abraçar e dar atenção aos que pertencem ao nosso círculo, e na impossibilidade de outros afetos próximos, com as pessoas que nos fazem falta, fazê-lo à distância, com um telefonema acolhedor, que ajuda a tranquilizar e reforçar laços, com palavras de ânimo e energia positiva.

Se respirarmos ar puro ( mesmo privilegiando estar em casa, a saída para caminhar com os devidos cuidados, ajuda a arejar as ideias), e se disfrutarmos de pequenos prazeres.

Aquilo que cada um de nós sabe que lhe faz bem e lhe recarrega as baterias.

Porque a pandemia está instalada, sim.

Mas não podemos desistir.

Existe esperança, e soletra-se por outras palavras:

-Resiliência.
-Solidariedade
– Ânimo.

A pandemia é uma longa maratona entre um vírus matreiro e toda a Humanidade.

Seremos incapazes de unirmos esforços ou seremos capazes de pôr de lado as nossas diferenças, para CUIDARMOS DE TODOS NÓS?

Continuar a ler

Populares