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Braga

Piloto de Braga julgado por tentar atropelar ciclista

Rui Lages nega acusação e diz que é ele próprio a vítima

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Foto: O MINHO

Rui Lages, antigo piloto de automóveis, ex-vereador do PSD na Câmara Municipal de Braga e dirigente dos Bombeiros Voluntários de Braga, será julgado a partir já desta terça-feira, a par do jovem ciclista com o qual se envolveu em disputas físicas, sendo ambos arguidos. Há testemunhas que atestam ter o ás do volante perseguido de automóvel e tentado atropelar Ricardo Neves, em plena zona pedonal, para onde saltou com o carro a alta velocidade, passando duas vezes com o automóvel por cima da bicicleta do jovem, mas Rui Lages nega tudo e diz que terá sido ele próprio a vítima.

Um desentendimento de trânsito ocorrido há mais de dois anos e meio vai sentar no banco dos réus Rui Lages, ao lado de um jovem que ganha a vida a fazer entregas com bicicleta de comida e alimentos, na qual se dirigia quando se cruzaram perto do Liceu de Dona Maria II, ocasião em que, segundo a queixa do ciclista, o automobilista o mandou sair da Rua 25 de Abril, apesar de os condutores de bicicletas serem obrigados a andar pela faixa de rodagem e proibidos de circular pelos passeios, regra que ainda este domingo levou a uma ação de sensibilização da Polícia Municipal de Braga.

Segundo o ciclista, Ricardo Neves, à data com 25 anos, mais à frente, cruzando-se nos semáforos da esquina da Rua 25 de Abril com a Avenida 31 de Janeiro, estando o sinal vermelho, ia explicar-lhe que as novas regras do Código da Estrada implicam que tenha de andar na via rodoviária, aproveitando para lhe lembrar que nunca deveria conduzir pela cidade a altas velocidades e ainda para mais a falar ao telemóvel.

Rui Lages não terá gostado nada da advertência, perguntando-lhe se o jovem era polícia, ocasião em que o ás do volante saiu do carro e se dirigia contra Ricardo Neves, ocasião em que este terá lançado a bicicleta, em direção ao craque dos automóveis, para travar os ímpetos do antigo piloto, enquanto este diz ter caído logo ao chão, só ele próprio tendo sido agredido e que tudo ficou por ali, segundo queixa que apresentou na PSP, dois dias depois da participação feita por Ricardo Neves, que entretanto foi hospitalizado, com lesões.

Passou o carro por cima da bicicleta

Mas a crer na versão do ciclista e das testemunhas, o pior ainda estaria para vir, quando já no cruzamento à frente, junto da Escola Secundária Carlos Amarante, o ex-piloto da Rampa Internacional da Falperra e das competições de Vila Real, não esteve com meias medidas, pois assim que avistou novamente o ciclista, tendo-o “seguido pela Rua de Beato Miguel Carvalho, conduziu o automóvel em direção a Ricardo Neves, fazendo que este, por receio, saltasse da bicicleta para fugir e caísse no chão”, segundo a acusação do DIAP do Ministério Público da Comarca de Braga, tendo sido transportado pelos Bombeiros Sapadores de Braga, dado os ferimentos, mas cuja autoria Rui Lages negou.

Ricardo Neves também é arguido. Foto: O MINHO

O MP refere que “ato contínuo, o arguido Rui Lages passou com o seu automóvel por cima da bicicleta de Ricardo Neves, causando-lhe estragos no valor de 353 euros”, para além dos ferimentos registados logo no Serviço de Urgência do Hospital Central de Braga, mais concretamente, “equimose de dois centímetros na virilha esquerda, escoriações de três por dois centímetros no braço direito, equimose acastanha que mede dois por um centímetros na face ântero-medial do terço inferior da coxa esquerda, duas escoriações, ambas com crosta vermelho-escuro, que medem dois centímetros cada na região ântero-lateral do joelho, ao nível da tuberosidade tibial”, para além “de uma pequena escoriação na região maleolar linear com um centímetro de comprimento”, como acrescenta o Departamento e Investigação e Ação Penal (DIAP) do MP de Braga.

A versão apresentada por Rui Lages

Rui Lages, logo na ocasião, negou tudo a O MINHO, tendo então afirmado que “nunca persegui ninguém, muito menos agredi alguém, fui eu o agredido por esse mesmo senhor, ainda na Rua 25 de Abril, em frente da loja do Continente, depois de ter colocado a bicicleta na minha frente, o que foi presenciado por outras pessoas, que também não conseguiam sair do local”, salientando que “fui provocado enquanto não surgia o sinal verde dos semáforos, verificando-se uma troca de palavras, só depois é que eu fui agredido por ele”.

“O jovem estava sempre a barafustar comigo, a dizer que eu não podia estar a falar ao telefone, enquanto eu dizia que ele não era nenhum polícia, só que ele insistia, ocasião em que me atirou para o chão e depois me agrediu”, disse o piloto, alegando já ter saído do automóvel durante esta situação”, segundo a versão de Rui Lages, acrescentando que “o jovem magoou-se porque escorregou no passeio, isto porque eu não lhe toquei sequer, aliás, se houve uma vítima no meio de tudo isso fui eu e não esse jovem, a quem me limitei a responder à letra, nunca tendo havido da minha parte qualquer violência para com ele, em termos físicos, só a troca de palavras mais azeda que ele causou”, sendo esta a posição desse logo assumida por Rui Lages.

Testemunhas desmentem Rui Lages

O Ministério Público acusou Rui Lages de três crimes, de ofensas à integridade física e de dano consumados e tentativa de ofensas corporais qualificadas, devido ao alegado atropelamento frustrado, testemunhado por transeuntes, ao princípio da noite de 21 de outubro de 2019, enquanto já o jovem ciclista, Ricardo Marques Neves, responde pela acusação de ofensas à integridade física simples, ao atirar com a bicicleta para cima do lendário piloto, do qual até então não tinha ouvido sequer falar, mas lhe terá dito, em ar ameaçador “eu sou o Rui Lages”, bem como as expressões “não sabes com quem te estás a meter” e “eu vou foder-te todo”.

Ciclista sofreu ferimentos. Foto: O MINHO

Rui Lages, uma das figuras mais conhecidas de Braga e do automobilismo nacional, refere ter sido o jovem, Ricardo Neves, de 25 anos, a atirar a bicicleta contra si, tudo isto por causa de um desentendimento de trânsito, ao início da noite de 21 de outubro de 2019, no centro da cidade de Braga, mas as investigações do Ministério Público, com base em testemunhas ouvidas no processo, concluíram que o caso não ficou ali.

Um transeunte referiu ter visto dois homens, em que “o mais velho berrava e tentar tirar a bicicleta ao mais novo”, após o que, passando semáforo a verde, o mais velho ultrapassou o mais novo, a grande velocidade”, tendo depois invertido o sentido de marcha e ao ver o ciclista, fez um pião no fundo da rua, circulando em direção a ele, subiu o passeio e só não o atropelou por este saltar da bicicleta”, mas depois o condutor do carro, Rui Lages, “passou com o carro por cima de bicicleta, fez marcha-atrás, voltando a passar por cima”.

Antonino Rui Pires Lages, de 71 anos, separado, então como agora dirigente da Associação Humanitária e Beneficente dos Bombeiros Voluntários de Braga, esteve para ser julgado por um tribunal coletivo, dadas as penas abstratamente aplicáveis, mas o Ministério Público entendeu que não sendo previsível mais do que cinco anos de prisão, será julgado por uma única magistrada, até porque “a existência dos seus antecedentes criminais são de natureza tributária, ou seja, são de natureza diversa dos crimes em causa neste processo”.

No entanto, a procuradora do MP destacou que “Rui Lages se encontrava numa situação de supremacia em relação a Ricardo Neves, por tripular um automóvel, com o propósito de o molestar no corpo e na saúde” e “provocar-lhe lesões, só não logrando atingi-lo, porque este saltou da bicicleta para o chão, quando tentava fugir, evitando ser colhido pelo veículo”, mas sofrendo lesões que implicaram a cura durante uma semana.

“Acresce que Rui Lages atuou com dolo direto, a sua forma mais intensa, sendo por isso a sua culpa elevada, pois podia e devia ter agido de outro modo e estava bem ciente da desigualdade de meios, pois de um lado temos o automóvel e do outro a bicicleta”, salienta o Ministério Público, acrescentando “serem elevadas as exigências de prevenção associadas a crimes contra a integridade física, designadamente quando praticados entre automobilistas e ciclistas, o que causa grande preocupação e ansiedade a quem circula pela via pública tripulando uma bicicleta, logo com menor proteção, mostrando-se necessária uma dissuasão de tais crimes”.

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