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Barcelos

“PCP foi desde a primeira hora o único partido que defendeu o resgate da concessão da água”

Entrevista com Mário Figueiredo, candidato da CDU à Câmara de Barcelos

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Foto: CDU / Arquivo

Mário Figueiredo é pela quarta vez consecutiva o candidato da CDU à Câmara de Barcelos. Técnico oficial de contas, é o único representante comunista na Assembleia Municipal. Em entrevista a O MINHO considera que, nestes 12 anos de gestão socialista, “o PS perdeu uma grande oportunidade de desenvolver Barcelos e distanciar-se da política do PSD”.
Em relação ao problema da água, salienta que “o PCP votou contra a concessão e desde a primeira hora foi o único Partido que defendeu o resgate da concessão”.
A construção do novo hospital – realça – “depende exclusivamente da vontade do Governo” e aponta incongruências nos adversários políticos: “Os candidatos do PS e da Coligação PSD/CDS/BTF não podem exigir a construção do novo hospital e ao mesmo tempo estarem de acordo com políticas de desinvestimento no SNS”.
Entre outras medidas, propõe a constituição de equipas de guarda-rios para o Cávado e a criação de um pavilhão multiusos para “receber espetáculos de projeção nacional e internacional” e, assim, fazer com que mais pessoas vão a Barcelos.
A CDU, garante Mário Figueiredo, apresenta um “projeto de esquerda, verdadeiramente alternativo e necessário que o tempo tornou urgente”.

Com as próximas eleições autárquicas, fecha-se um ciclo de 12 anos da presidência de Miguel Costa Gomes/PS. Que balanço faz desta gestão autárquica?

Entendemos que o PS perdeu uma grande oportunidade de desenvolver Barcelos e distanciar-se da política do PSD. No fundamental, o PS não alterou o rumo político dos mandatos do PSD, um estilo político diferente não conseguiu disfarçar a mesma política. A ausência de estratégia, as contradições políticas do PS e a constante instabilidade introduzida pelo PS no seio do executivo não permitiram a resolução dos problemas estruturais do concelho de Barcelos, atrasando-o ainda mais no desenvolvimento social, económico e cultural.

Como avalia a gestão política da questão da Águas de Barcelos e qual o modelo que defende para a sua resolução?

A origem do problema da gestão de distribuição de água e saneamento está na privatização da água. O PSD é o grande responsável pela concessão com características altamente prejudiciais para os interesses dos barcelenses. A concessão de distribuição de água e saneamento é um excelente exemplo do prejuízo que representa as privatizações para os interesses das populações. O PS foi forçado pela vontade popular, expressa no voto e na recusa de colaborar com a concessão, a defender uma solução que esbarrava de frente com o muro das contradições políticas que tem nesta matéria. O PS é um grande defensor e promotor da privatização da água. A conjugação da decisão do PSD e das indecisões do PS resultou na continuidade da concessão acrescida de uma indemnização de 210 milhões a pagar à concessionária pelo Município. O PCP votou contra a concessão e desde a primeira hora foi o único partido que defendeu o resgate da concessão. Defendemos o resgate por três motivos: primeiro, coloca fim à concessão; não há solução no seio da concessão; segundo, por ser possível, através da criação do serviço municipalizado de distribuição da água e saneamento, passando este serviço para o Município e incorporando os trabalhadores que o desejassem. Lembro que o resgate da concessão está prevista no próprio contrato e foi a solução aprovada, em 2015, em reunião de Câmara e Assembleia, que inexplicavelmente o executivo PS entendeu não dar seguimento a essas deliberações. Terceiro, por ser a financeiramente mais barata. Custa 87 milhões de euros, é muito dinheiro, mas é a expressão financeira da decisão errada do PSD em 2004. As outras soluções de aquisição de 49% ou 75% do capital da concessionária, que custavam 66 milhões e 90 milhões euros respetivamente, adquirindo uma empresa tecnicamente falida e com dívidas avultadas que obrigava a injeção de dinheiro do Município para tornar a empresa viável financeiramente, para além de serem financeiramente mais caras estas opções mantinham a origem do problema: a concessão da distribuição de água e saneamento.

Relativamente ao novo hospital de Barcelos, como acha que o executivo municipal geriu o processo e, caso seja eleito, o que pretende fazer para que este seja uma realidade?

A construção do novo hospital depende exclusivamente da vontade do Governo. A CDU há largos anos que defende a necessidade de construção de um novo hospital. Essa necessidade tem de ser demonstrada e reivindicada ao Governo, tendo o executivo um papel fundamental nessa exigência. A exigência a ser feita ao Governo, que está em falta com os barcelenses há nove anos por decisões políticas de PS/PSD/CDS, para ser eficaz não poderá passar por um homem só – presidente de Câmara -, mas sim pela unidade entre os órgãos autárquicos, pelos partidos políticos, pela comunidade médica e pela população. A opção de aquisição do terreno para a localização do Hospital, embora seja uma responsabilidade da Câmara, foi precipitada, pois não há qualquer garantia no imediato e no curto prazo de construção do hospital. Por isso, o executivo está a cativar quatro milhões de euros que tanta falta fazem para investir noutras necessidades prioritárias do concelho. Os candidatos do PS e da Coligação PSD/CDS/BTF não podem exigir a construção do novo hospital e ao mesmo tempo estarem de acordo com políticas de desinvestimento no SNS.

Nestas eleições autárquicas há três novidades: a coligação PSD/CDS/BTF, o Chega e um candidato independente dissidente do PS. Que leitura faz deste novo cenário político na cidade e o que de bom ou mau considera que pode trazer para a governação da Câmara?

A democracia é permitir a intervenção democrática de cidadãos, movimentos e novos partidos na vida coletiva. A CDU, naturalmente, que regista e tira conclusões das novas candidaturas à Câmara Municipal de Barcelos, mas escusa-se a comentar comportamentos individuais de candidatos e motivações partidárias. A preocupação da CDU é esclarecer a população quanto ao seu programa eleitoral, as soluções que tem para os problemas do concelho e assinalar e denunciar propostas e políticas gravosas e demagógicas na busca pelo voto que outras candidaturas possam ter. Entendemos que os eleitores deverão registar, analisar e concluir sobre quais as verdadeiras motivações de candidatos e partidos neste período de eleições, muitas vezes contradizendo tudo que andaram a dizer e fazer nos últimos quatro anos.

Quais as prioridades da sua candidatura para Barcelos?

A prioridade na nossa candidatura é resolução de problema da distribuição da água e saneamento pelo resgate do contrato pondo fim à concessão. Entendemos esta matéria prioritária, pois as decisões sobre ela irá, certamente, influenciar, por muitos anos, as outras decisões políticas. É o custo da decisão política do PSD e das indecisões do PS.
A preocupação ambiental que passa muito por um esforço coordenado com o Governo e outros municípios de despoluição do rio Cávado e medidas de combate à poluição como a constituição de equipas de guarda-rios e maior investimento no tratamento de águas – ETAR -, a recuperação dos açudes e do património ribeirinho, e a limpeza e desobstrução das margens na criação de espaços de lazer, integrando o nosso espaço ribeirinho na cidade.
A defesa dos transportes públicos rodoviários com o alargamento da oferta dos transportes urbanos permitindo maior mobilidade á população e contribuindo para uma maior coesão do nosso território.
A recuperação da central de camionagem tornando-a funcional e integrando-a no espaço urbano pela criação de acessibilidades ao espaço.
A defesa do transporte ferroviário na reivindicação pela integração na zona suburbana, permitindo mais comboios, melhores horários e preços mais baratos. Eliminação das passagens de nível melhorando a circulação ferroviária e rodoviária e reduzindo a sinistralidade.
O aumento da capacidade de mobilidade da população permite que seja mais fácil circular e chegar a Barcelos contribuindo decididamente para o desenvolvimento económico e social do concelho.
Mais investimento na cultura e desporto. A criação de um pavilhão de multiusos permitindo receber espetáculos de projeção nacional e internacional, maior divulgação do nosso figurado e um maior apoio às associações culturais e recreativas. A criação de pista de atletismo, mais piscinas municipais e a criação de ciclovias e ecovias permitindo fomentar o desporto popular em segurança.
A CDU apresenta-se a eleições com projeto de esquerda, verdadeiramente alternativo e necessário que o tempo tornou urgente.

Quais as potencialidades de Barcelos que gostaria de ver mais exploradas?

A CDU direciona a atenção para três das muitas potencialidades que Barcelos tem.

A localização do Concelho que num raio de 50 quilómetros tem três capitais de distrito, aeroporto, dezenas de quilómetros de praia, mais de um milhão de cidadãos, esta potencialidade geográfica só será aproveitada se tivermos um concelho capaz de atrair as pessoas, para isso teremos de fazer investimentos que aumentem a facilidade de chegar a Barcelos, que haja motivos para visitar Barcelos e que haja condições de receber quem nos visita. Barcelos tem um grande potencial turístico que está desaproveitado.

Despoluição do Cávado e recuperação das margens e de todo o património ribeirinho. Tornar o Cávado um espaço ambiental de excelência e um espaço natural de beleza e bem-estar com condições de circulação e permanência da população neste grande potencial natural que Barcelos tem e nunca aproveitou.

Aproveitar a capacidade de trabalho e dinâmica da nossa gente. Defender os interesses dos trabalhadores ao apoiá-los nas suas aspirações profissionais e sociais. Fomentar e apoiar a sua capacidade de associação potenciando o processo criativo da nossa gente na defesa e divulgação da cultura e desporto, do ambiente e da solidariedade. Reforçar dentro da diversidade a nossa identidade.

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