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O caso do racismo na praxe minhota: Abandonados à sua sorte

Opinião de Luís Peixoto Vilar

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Luís Peixoto Vilar

Artigo de Luís Peixoto Vilar

Encenador e criador teatral, licenciado em Teatro, mestrando em Ciência Política e fundador do Núcleo de Estudantes de Teatro da UM.

Na noite de domingo, não obstante a comunicação já efetuada acerca da ocorrência de um suposto caso de racismo, o reitor da Universidade do Minho, o professor doutor Rui Vieira de Castro, publicou um comunicado para toda a comunidade académica onde reforçava o seu desagrado. Aproveitou esta efeméride para também nos recordar o Código de Conduta que os estudantes têm o dever de “contribuir para a harmonia de convivência e para a plena integração de todos os colegas na comunidade académica, em clima de liberdade e de respeito mútuo, com renúncia a práticas de qualquer ato de discriminação, intimidação, humilhação ou assédio”.

Este comunicado reitoral surge na sequência de uma denúncia, por parte do movimento “Quarentena Académica”, onde estudantes do 1º ano do curso de Biologia e Geologia surgem, num vídeo, com o corpo pintado de preto e com saias de palha enquanto entoam cânticos com referências canibais. Esta representação do curso de Biologia e Geologia não é inédita. Já em 2014/2015, também na latada, alunos do primeiro ano do curso usaram exatamente os mesmos disfarces. Numa notícia de 2018, publicada no jornal local Mais Guimarães, a foto que ilustra a notícia da latada em Guimarães retrata, precisamente, os alunos do primeiro ano do curso de Biologia e Geologia pintados de preto, com as saias de palha.

É seguro afirmar que a luta pelos direitos humanos e contra todas as formas de discriminação ganhou, em 2020, novo alento. Multiplicaram-se, um pouco por todo o mundo, manifestações a exigirem igualdade, respeito, o direito à autodeterminação, etc. Este ano, que agora termina, foi particularmente frutífero em trazer o debate em torno do racismo para a esfera pública, causando imensas reações um pouco por todo o quadrante social. A consciencialização global para o chamado “racismo sistémico” está, finalmente, a acontecer. Os pais dos movimentos pelos direitos civis ficariam orgulhosos da nossa geração. Quase que podemos dizer que, desta vez, saíram à rua com cravos na mão, a saber que saíram à rua com cravos na mão.

Tenho, no entanto, fortes reservas sobre a forma como este caso em particular está a ser tratado. Após a denúncia da “Quarentena Académica”, rapidamente rotularam estes alunos do primeiro ano de racistas e disseminaram-se, um pouco por todo o espaço público virtual, os vídeos por eles protagonizados. E tudo isto porque a conjuntura atual assim o possibilita: há pelo menos seis anos que os alunos dos anos pares de Biologia e Geologia se mascaram de tribos e só este ano há polémica. Faz sentido. Mas também não o faz. Analisando o passado, é notório o facto de que não existe qualquer intenção racista por detrás de tais atos, repudiados em todas as instâncias.

Pelo menos, pode-se afirmar com certeza que tal não era a intenção dos alunos.

Para além disto, não nos podemos esquecer do contexto: a praxe. Neste contexto, os cânticos com referências canibais atuam numa perspetiva claramente metafórica de exaltação da sua superioridade em relação aos outros cursos. Se esta é a forma mais correta de o mostrar? Não é, de todo.

No entanto, nada justifica o ataque de que estes alunos estão a ser vítima. Não consigo deixar de sentir que está em curso uma tentativa de aproveitamento político e social em torno de uma questão que é, por si só, fraturante: a praxe.

Não houve nenhuma tentativa, por parte de ninguém, em esclarecer os alunos envolvidos na produção do vídeo e fazê-los ver de que o que fizeram, e que foi sendo feito ao longo dos últimos anos, é errado. Invés, desdobraram-se em acusações e exonerações de culpa. É que a questão aqui não é se eles estão a ser racistas ou não. A questão é se sabem que aquilo que estão a fazer é racista ou não. Num país onde o racismo é sistémico e tem vindo a ser perpetuado por sucessivas gerações, temos que nos reeducar para conseguirmos responder a este desafio que é a luta contra o racismo.

Obviamente que não quero com isto desculpar o ato destes alunos. Quero, sim, culpabilizar o ato dos colegas que se apressaram a acusá-los de serem uma coisa que eles nem sequer sabem que estão a ser.

Surpreende-me que uma instituição como a Universidade do Minho esteja a adotar uma postura punitiva ao invés de uma postura pedagógica, principalmente nestas matérias referentes à discriminação e autodeterminação.

A polémica instalada em torno deste assunto tem-se revelado complexa e temo que este tipo de acusações descontroladas e a procura de punições possam transformar o racismo num tabu – e isso não é o que queremos.

Não nos podemos esquecer que tivemos há bem pouco tempo manifestações a afirmar que Portugal não era um país racista. Mas é. E o racismo está tão enraizado, que nós nem sabemos que o somos. Fará sentido sermos punidos por sermos uma coisa que não sabemos? Acredito que não, que esse não seja o caminho a seguir.

Nós queremos que se fale em racismo, que se explique o racismo. Nós queremos que os nossos colegas, à semelhança das instituições do ensino superior, tenham uma postura pedagógica, ao invés de uma punitiva. Só assim é que conseguiremos evoluir e erradicar o racismo da nossa sociedade. Temos que nos conseguir colocar no lugar do outro e perceber os contextos dos seus atos. A sociedade está a mudar rapidamente e por forma a conseguirmos acompanhar a sua evolução temos que tentar ser mais moderados e não ceder a pressões sociais.

Algo que também me surpreendeu foi a reação quer do Cabido de Cardeais – órgão máximo da praxe – quer da AAUM – Associação Académica da Universidade do Minho. À semelhança da Universidade, rapidamente se apressaram a lançar comunicados a exonerarem-se de responsabilidades por forma a preservar a sua imagem, ignorando por completo o sofrimento de que estes alunos, recém matriculados, estão a sofrer. Os alunos erraram, mas não merecem estar abandonados à sua sorte, a serem rotulados de racistas.

Merecem a oportunidade de aprender que erraram e que o que fizeram está errado. Da parte destes organismos, foi um claro sinal para todos os estudantes: vocês estão sozinhos. Deixar alunos do primeiro ano sofrerem este pesadelo às mãos da opinião pública é tão somente desnecessário como irresponsável, e porá em risco o futuro destes estudantes. Ademais, tratando-se de órgãos eleitos democraticamente para nos defender, exige-se o cumprimento das suas obrigações. Se nos defendem quando já estamos defendidos, para que precisamos deles? Que se apurem as responsabilidades, mas que se apurem também os contextos. Que se adote uma postura pedagógica e que caminhemos todos por uma sociedade mais livre, inclusiva e informada.

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