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Ir a Fafe ver o rali agora pode ser a qualquer momento

Novo Museu do Rali

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Foto: Rui Dias / O MINHO

Ir a Fafe para ver o rali deixou de ser uma peregrinação que se faz apenas por alturas do Rali de Portugal e do Rali Serras de Fafe, agora pode ir-se todos os dias, menos à segunda-feira. O Museu do Rali, está aberto de terça a domingo e, embora não garanta as mesmas emoções do salto da Pedra Sentada, é uma jornada de memórias nostálgicas pelos grandes momentos do passado da modalidade.

A ideia do Museu do Rali nasceu de uma paixão no seio do Automóvel Clube de Fafe, “estando nós na Catedral do Rali”, explica José Pereira, o presidente do Clube. Juntou-se a vontade dos membros do Clube Automóvel da cidade com o facto de a Câmara ter um espaço, em tempos dedicado a museu automóvel, praticamente inativo. “Isto no passado foi um museu automóvel, com carros clássicos como é habitual, mas, ao longo dos anos, foi perdendo chama”, relata José Pereira.

José Pereira, presidente do Automóvel Clube de Fafe. Foto: Rui Dias / O MINHO

O antigo museu funcionava mais como garagem, onde alguns proprietários mantinham os seus clássicos guardados, mas tinha perdido a vertente museológica. “Como sabíamos da existência deste fantástico espaço, lançámos o desafio à Câmara Municipal”, conta o presidente do Automóvel Clube de Fafe.

Tratava-se de um projeto arrojado, em que, logo à partida, o que se pretendia era fazer algo diferente do que são os já conhecidos museus do automóvel. “Este é um museu do rali, na terra do rali. A Roma vai-se ver o papa, a Fafe vêm-se ver o rali”, ironiza José Pereira.

Uma galeria Lancia. Foto: Rui Dias / O MINHO

A Câmara aceitou o repto e intercedeu junto dos proprietários dos carros antigos que ainda restavam no espaço para que os retirassem. Foi firmado um protocolo com o Município e, em junho deste ano, ficaram criadas as condições para o arranque do Museu do Rali.

Um museu vivo que, em três meses de existência, já reconfigurou a sua exposição várias vezes. Os carros são de sócios do Automóvel Clube de Fafe e de entusiastas dos automóveis de todo o país. “Abordámos os proprietários, mostrámos-lhes o projeto e foi muito fácil fazê-los aderir à ideia”, congratula-se José Pereira.

Um icónico Grupo B, campeão do mundo em 1985 e 1986. Foto: Rui Dias / O MINHO

Agora, ali estão os Lancia HF Turbo 4 WD e os Integrale, do final dos anos 80, principio da década de 90, o Peugeot 205 Turbo 16, com a foto e a biografia do Timo Solonen, o Fiat 131 Abarth, um Ford RS 200 ou um, mais atual, Volkswagen Polo WRC. Mas há mais, muito mais.

Ford RS 200, tristemente ligado ao pior acidente de sempre no Rali de Portugal, em 1986. foto: Rui Dias / O MINHO

“Este é um museu com vida, todos estes carros estão operacionais. Na sua grande maioria os carros que aqui estão rodam, até porque alguns deles ainda vão ao seu habitat natural fazer corridas. A maioria destes carros ainda vão aos ralis de legends”, refere José Pereira.

O Museu vai à estrada, “parte destes carros vão aos ralis desfilar”, não para fazer tempos, “vão deliciar-se e deliciar o público”. Alguns destes carros hoje são raros e de muito difícil reparação, porque deixaram de se fabricar há muitos anos. “É muito arriscado tentar fazer tempos com um carro destes, para isso usam-se os carros mais modernos que são de fácil reparação. Embora haja alguns proprietários mais arrojados”, clarifica José Pereira.

Os pilotos e navegadores não são esquecidos. Foto: Rui Dias / O MINHO

Hoje seria muito difícil recuperar, por exemplo, o Lancia Delta Integrale, além de muito dispendioso, pode demorar anos até se encontrar todas as peças necessárias. O público dos ralis legends também é diferente, esclarece José Pereira. “Num rali legends as pessoas vão para ver os carros, não pela emoção, vê-se ali desde criancinhas até avôzinhos.”

O Museu do Rali, nos seus três primeiros meses de existência tem superado todas as expectativas, mesmo num período em que ainda existem algumas limitações: “Estamos agora a trabalhar muito os grupos organizados e ainda hoje recebemos dois”.

Um Ford Escort RS e o Subaru Impreza que já foi de Colin McRae. Foto: Rui Dias / O MINHO

A visita ao Museu do Rali, é claro, serve para ver carros, mas é mais que isso. Trata-se de uma imersão na cultura automóvel, particularmente nos ralis. Nas colunas do enorme salão, encontram-se as fotografias de todos os campeões do mundo de ralis e as suas biografias. Há espaço também para outros que não foram campeões do mundo, mas que são campeões no coração dos amantes da modalidade: Michèle Mouton, Jean Ragnotti, Henry Toivonen e Dani Sordo. A primeira foi, até hoje, única mulher a vencer uma etapa do Campeonato Mundial de Ralis, em Sanremo, em 1981. No ano seguinte, terminaria o Campeonato do Mundo no segundo posto. Jean Ragnotti encantava os fãs pelo seu estilo de pilotagem e ficou para sempre ligado à primeira vitória de um carro turbo num rali do Campeonato do Mundo, com o Renault 5 Alpine Turbo (que também pode ser visto no Museu do Rali). Henry Toivonen foi um dos mais espetaculares pilotos de rali de todos os tempos, foi o mais jovem piloto a vencer um rali do Campeonato do Mundo, o RAC, em 1985, recorde que só foi batido em 2008, por Jari-Matti Latvala. Toivonen ficaria ligado ao fim dos míticos carros de Grupo B (monstros com mais de 500 cv), primeiro por ter feito parte do grupo que desistiu do Rali de Portugal, em 1986, em protesto pela falta de segurança e, um mês depois, por ter sofrido um acidente fatal com o seu Lancia Delta S4, na Córsega. Já Dani Sordo, foi visita de honra do Museu que promoveu com um vídeo no Youtube.

Recordar os tempos dos carros de tração atrás. Foto: Rui Dias / O MINHO

No Museu há também uma biblioteca com coleções de publicações sobre desporto automóvel, “que servem para ser consultadas por quem nos visita, não apenas para decorar a parede”, avisa José Pereira. Ali está uma mesa com cadeira a convidar a sentar para ler uma L’Automobile dos anos 80.

O presidente do Automóvel Clube de Fafe, ilustra a vida do museu com uma ausência. “Neste momento não temos aqui nenhum Audi 4, mas ainda há pouco estava aqui um que saiu para ir fazer o Rali Madeira Legend, mas que depois deve voltar para a exposição”.

Um dos modelos da Ford mais vitorioso de sempre. Foto: Rui Dias / O MINHO

No futuro está prevista muita interação com outros pilotos. Para José Pereira haverá dois grandes momentos na programação anual do Museu: o verão, em que os visitantes vêm naturalmente, porque há mais pessoas de férias e o próprio concelho tem mais população, com a vinda dos emigrantes; e o resto do ano em que será preciso trabalhar os grupos organizados e as iniciativas, com pilotos, navegadores, mecânicos e com as próprias equipas. Sempre com o objetivo de retratar a história do Campeonato do Mundo de Ralis e particularmente dos troços da Catedral do Rali.

A Toyota também está representada. Foto: Rui Dias / O MINHO.

Quando se pede a José Pereira que eleja o seu bólide preferido, opta por uma resposta politicamente correta. “A reposta que o meu pai que tinha três filhos dava, ‘gosto dos três’.” Mas caem-lhe os olhos pelo Peugeot 205 Turbo 16, um icónico Grupo B, campeão do mundo em 1985 e 1986, com Timo Solonen e Juha Kankkunen.

Contudo é uma escolha difícil, até porque também por ali está um Subaru Impreza 555 que foi carro de treinos do saudoso Colin McRae, que se sagrou campeão do mundo, em 1995, com uma destas máquinas.

Não faltam os campeões nacionais. Foto: Rui Dias / O MINHO

Fafe, a 40 quilómetros de Braga, a 68 quilómetros do Porto e a um passo de Guimarães, deixou de ser a terra onde se vai para ver o rali duas vezes no ano, agora pode ir em qualquer dia. A vitela assada, o prato mais afamado da cidade, também se arranja em qualquer dia, mas é mais garantido à quarta-feira, dia de feira. O Museu do Rali está aberto de terça a sexta das 15:00 às 18:00 e aos fins-de-semana e feriados das 15:00 às 19:00, mas se for em grupo organizado o melhor é contactar o Museu, a receção calorosa a todos os amantes dos ralis é uma garantia.

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