Dedicatória ao Padre Zé

ARTIGO DE MÁRIO FERREIRA

(Sobrinho)

Falar do P. Zé para mim é falar de uma referência, de uma forma de estar e encarar a vida de uma forma inigualável. O desprendimento, o cuidado com o outro, a atenção aos pormenores, o dar-se na forma mais profunda da palavra… Sempre vi o meu tio como um homem que vive para os outros.

“Obrigado… Perdão… Ajuda-me mais, Senhor.” DR

Tal como todos os homens teve e tem as suas paixões! O hóquei, o futebol, o seu “Porto” são paixões que não o largam, mas outras houve que lhe permitiram mais uma vez dar um pouco de si aos outros, ainda que fosse em contextos que o estávamos menos habituados a ver. A montanha, jogar futebol, as caminhadas… Sim, já há 40 anos o P. Zé juntava grupos de jovens que iam com o fulgor da juventude serra acima quer fosse o Gerês ou a serra de Arga! Grupos que subiam na expectativa de ser capazes de ultrapassar a dificuldade da jornada e que quando desciam o cansaço não era companheiro muito pelo contrário, vinham cheios de histórias para contar e com ânimo para enfrentar as vicissitudes que a época trazia.

Sempre vi o P. Zé como uma força da natureza, sempre disponível, sempre com tempo para ajudar, sempre preocupado com o que afligia e aflige quem o rodeia. Nunca o vi a adiar para amanhã aquilo que ele tem capacidade para resolver hoje, recordo-me a este propósito de umas quantas vezes em que lhe pedia alguma bibliografia para um qualquer trabalho da faculdade e meia hora depois tinha um saco de livros que ele considerava que me podiam ser úteis.

É um homem de livros, mas daqueles que tem livros que lê, a sua biblioteca imensa permite- lhe ser possuidor de uma cultura que poucas vezes se encontra. A profundidade dos seus pensamentos, a forma como analisa o mundo são sempre fruto de períodos longos de ponderação e com alguma base de conhecimento.

Monsenhor José Gomes de Sousa com os irmãos. Foto (2017): DR

A família para o P. Zé está sempre no centro, está sempre pronto para nós… e isso faz tanta diferença… É o mais velho de nove irmãos e a palavra “referência” volta a aparecer aqui… é sempre a voz sábia, a voz da consciência que todos nós os 35 sobrinhos, os irmãos e as cunhadas gostamos de ouvir. É a pessoa que nunca recusou a celebração de todas as cerimónias religiosas da família, cerimónias estas que não foram assim tão poucas e ainda hoje continuam a acontecer com a terceira geração da família.

Os meus avós, pais dele, eram como costumo dizer às minhas filhas os típicos avós dos livros de histórias. Eram os avós que estavam sempre ali para nós, prontos a encobrir as nossas malandrices, prontos a chamar a atenção mas daquela forma que só os avós sabem fazer. As ceias de Natal eram indiscritíveis tal era a quantidade de pessoas reunidas à volta de uma mesa, e tudo era perfeito! Sou testemunha do profundo amor que o P. Zé e a restante família tinha por eles… foram de facto bons semeadores, pois as sementes que semearam foram colocadas em boa terra e deram muita flor!! Apesar de já não estarem junto de nós, a família continua a encontrar-se todos os anos em convívio, para contarmos as nossas histórias e fazermos o jogo de futebol que coloca frente a frente solteiros e casados, sendo que com o passar dos anos os solteiros passaram para a outra equipa e os casados passaram a fazer parte dos treinadores de bancada. Tínhamos a sorte de o P. Zé jogar pela equipa dos solteiros, era um craque e equilibrava as equipas.

Sou hoje Limiano graças ao P. Zé e só isto já era um grande motivo para lhe estar eternamente grato… A vinda dele para Ponte de Lima e a disponibilidade da minha mãe para o acompanhar a isso deram origem. Tenho a firme certeza que se não o tivesse por perto havia muitas coisas de que hoje me orgulho, que teriam ficado por terra, algures perdidas nos projetos por concretizar. A sua persistência, a sua capacidade de fazer as perguntas certas e às vezes incómodas nos momentos certos, a sua visão das coisas que nunca procurava impor, mas que da qual nos íamos apercebendo, permitiram-me ter coragem para arriscar e avançar.

Comecei com a palavra referência e termino com a palavra obrigado… pelo orgulho que tenho de o ter como amigo, como companheiro, como tio, tão ilustre pessoa que opta sempre por não ser notado, mas deixa sempre marcas boas naqueles que com ele se cruzam.

Aquilo que posso dizer do meu tio é que nos torna a todos melhores pessoas e não o faz com conselhos, com palavras, fá-lo com o seu exemplo de vida, com a sua forma de ser e de estar sem nunca ser o centro das atenções mas chamando a atenção pela sua forma de estar.

Isto é uma arte, não uma arte que se aprende nos livros, mas uma arte que se vive… e ele fá-lo como ninguém.

 

Este artigo também foi publicado na revista “Limiana” n.º 49, Abril-Maio-Junho 2017

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