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Braga

Anos de tormenta já lá vão: Clube Automóvel do Minho na estrada do sucesso

Sob a liderança do cirurgião Rogério Peixoto desde 2017

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Foto: Rui Feio de Azevedo / O MINHO

A poucos dias da realização da prova de automobilismo mais importante do mundo de montanha na Falperra – FIA Hill Climb Masters – o presidente do Clube Automóvel do Minho (CAM) explicou-nos o recente percurso de ascensão desta entidade com mais de meio século de história. Sob a liderança do cirurgião Rogério Peixoto desde 2017, o CAM retomou os trilhos do sucesso, organizando com assinalável êxito provas de montanha, karting, drift, motociclismo e street stage. Em vias de conquistar o saneamento financeiro do clube, através de uma gestão racional e criteriosa, o CAM conseguiu finalmente estabilizar-se numa sede própria e parece ter entrado em velocidade cruzeiro, uma vez que os seus responsáveis decidiram enfrentar agora “um grande risco” com a realização de uma prova de envergadura mundial com o carimbo da Federação Internacional do Automóvel.

Ligado há quase 30 anos ao CAM, Rogério Peixoto assumiu a sua presidência em meados de 2017, num ano especialmente conturbado em que se dá a cisão com o Kartódromo Internacional de Braga (KIB), acabando o CAM por abandonar as instalações de Palmeira. Na altura com uma situação financeira debilitada, fruto de dívidas à banca e fornecedores, o novo presidente imprimiu desde logo uma dinâmica de gestão criteriosa para combater uma dívida avultada e que limitava bastante a ação do clube.

Rogério Peixoto. Foto: Rui Feio de Azevedo / O MINHO

“Recuperamos bastante e estamos em vias de conseguir liquidar tudo a curto prazo”, confidencia-nos Rogério Peixoto, prosseguindo: “foi um trabalho bastante complicado porque havia que contrariar uma série de procedimentos aos quais as pessoas estavam habituadas. Acabaram-se as remunerações e a única pessoa que recebe aqui é uma funcionária. Tivemos que emagrecer o clube. O CAM quando estava em Palmeira tinha muitos funcionários, alguns dos quais também eram do KIB. Viemos com dois funcionários de lá, e agora apenas temos uma, porque não temos capacidade para mais. A minha missão, quando saímos de lá, era a de racionalizar e fazer uma nova gestão criteriosa”.

A respeito destaca “a ajuda importantíssima” do ex-piloto bracarense Adriano Barbosa e da sua empresa Stock Car que acolheu o CAM nas suas instalações durante três anos e a custo zero, até se concluírem as obras nas instalações da Rua Bernardo Sequeira, em Braga, recentemente inauguradas.

“Estas obras arrastaram-se por algum tempo, já que o clube não tem dinheiro. A maior parte do mobiliário é da casa dos meus pais, e foram-nos oferecidos alguns equipamentos! E assim conseguimos abrir este espaço agradável que tem dignidade e nos permite trabalhar com eficácia. Estamos finalmente na nossa casa, e claro que temos uma dívida de gratidão para com o Adriano Barbosa, nosso sócio benemérito”, refere.

Reconduzido para mais um mandato de três anos à frente do CAM, sendo também comissário europeu para as provas da montanha, Rogério Peixoto começou por colaborar com o clube na qualidade de médico e médico-chefe da Rampa da Falperra, tendo depois sido convidado por Alfredo Barros a integrar a direção como vogal.

Troféu dos 50 anos do CAM atribuído pela FPAK. Foto: Rui Feio de Azevedo / O MINHO

“Quando nasceu o KIB em Palmeira foi quando o Alfredo decidiu acabar com a Rampa da Falperra porque dizia que não dava lucro e sempre se soube que ele era um homem com instinto comercial muito apurado. Optou-se então por suspender a prova de 2002 (que só regressaria em 2010), até porque na altura se perdeu a transmissão televisiva em direto. E como havia a pista de Palmeira onde podia concretizar as suas ideias, achou que não se devia continuar a trabalhar para a Rampa, porque exigia muito trabalho e dedicação”, lembra.

Hecatombe que abalou o clube

Nessa altura, Rogério Peixoto saiu da direção e foi para o Automóvel Clube de Portugal (ACP) para integrar a Comissão Desportiva durante dois anos, tendo sido médico-chefe do Rallye de Portugal. Depois António Matos Chaves que fundou e presidiu ao ACP Motorsport, acabou por sair e Rogério Peixoto regressou ao CAM onde integrou a direção com Alfredo Barros e Álvaro Miranda. Entretanto, dá-se a hecatombe no CAM com o falecimento de três presidentes: António Vale Machado que havia sido presidente de 1979 a 1991, Alfredo Barros que lhe sucedeu até 2002 e Álvaro Miranda que presidiu ao clube até 2008! Quem assumiu a presidência a seguir e durante muitos anos foi António Barbosa Ferreira, numa direção que também contava com Rogério Peixoto, Pedro Macedo, José Alberto Domingues e João Rito.

Rogério Peixoto. Foto: Rui Feio de Azevedo / O MINHO

“Quando entrei para a direção com o Barbosa Ferreira tinha o propósito de recuperar novamente a Rampa da Falperra. Nunca concordei com essa decisão que levou até à minha saída e recuperamos a prova em 2010. Fizemo-lo desde então, sempre com muito sacrifício. A verdade é que nunca tivemos prejuízo, mas também não tivemos lucro. Andamos sempre a lutar com muitas dificuldades todos os anos para não registarmos prejuízos porque é uma prova que tem sempre orçamentos muito elevados. Mas a Rampa da Falperra foi sempre a nossa bandeira”, enfatiza.

Importância do Drift na recuperação

Entretanto, o CAM tem vindo a realizar diversos tipos de eventos desportivos, tendo começado pela organização de provas de Karting nos kartódromos de Viana do Castelo e Baltar, em detrimento de Palmeira.

“Há oito anos que Baltar não organizava provas de karting e nós recuperamos para ali o Campeonato Nacional!”, destaca.

Mas foi há três anos que o CAM ganhou grande alento quando passou a ser promotor e organizador do Campeonato de Portugal de Drift que, até à data, já passou por vários pontos do país de norte a sul. 

Drift

“O drift foi muito importante para a recuperação do clube e tem registado um crescimento exponencial. É a modalidade que regista mais expansão a nível nacional em termos de visualizações na internet. Basta ver que a penúltima prova em Melgaço teve 80 mil visualizações e a última em Pinhel ultrapassou as 100 mil!”, destaca

De tal maneira, o drift ganhou importância no desporto automóvel que a FIA, aquando da primeira prova do Mundial de Fórmula 1, há dois anos na Austrália, abriu o circuito com um carro à frente a fazer a pista toda em drift. E atestando esta franca expansão a nível mundial da modalidade, agora já se realiza um Campeonato da Europa de Drift.

O primeiro praticante desta modalidade em Portugal é o piloto bracarense Isac Pedroso e a FPAK nomeou-o responsável pelo drift no nosso país, sendo que este decidiu envolver o Clube Automóvel do Minho na promoção e organização das provas. 

Este ano, o calendário nacional de drift começava em Olhão, mas a pandemia impediu a realização da prova. Depois houve competições em Melgaço e Pinhel e agora vão realizar-se as de Marinha Grande e Leiria. 

Versatilidade como trunfo

Esta versatilidade organizativa do CAM comprova-se na dinamização de provas ao longo da sua história em diferentes modalidades como as de karting, motociclismo, rallies e karting, nunca sendo demais recordar o facto de terem passado por Palmeira nomes consagrados como os do motociclista Valentino Rossi ou dos pilotos Lewis Hamilton, Niko Rosberg, Max Verstappen e Fernando Alonso, entre outros.

Troféu do CAM. Foto: Rui Feio de Azevedo / O MINHO

“Continuamos a trabalhar afincadamente com o máximo de profissionalismo possível, mas tudo em regime de voluntariado”, sublinha Rogério Peixoto, o condutor de uma direção onde há muita gente jovem da qual fazem parte mais seis elementos, dois vice-presidentes e quatro vogais. De resto, o presidente do CAM gostaria muito que este fosse o seu último mandato à frente dos destinos do clube, “não só porque não me quero eternizar no cargo, mas porque temos jovens capazes de agarrar as rédeas do CAM”.

E é “com base no empenho desta equipa reforçada” que o clube tem vindo a crescer “de forma equilibrada e sustentada”, fazendo com que agora se sintam capacitados para organizar o FIA Hill Climb Masters, o maior evento a nível mundial em provas de montanha.

Com a realização da 4.ª edição do FIA Hill Climb Masters, depois do Luxemburgo, República Checa e Itália, o CAM consegue trazer a Portugal um “naipe de pilotos e de carros nunca visto” e tal não aconteceu em 2020 devido à pandemia Covid-19.

“Apresentamos há dois anos uma candidatura para realizar este Masters em Boticas que não foi aceite, mas houve pressão para este evento se realizar na Falperra. Os responsáveis da FIA gostaram muito do traçado da Rampa de Boticas, considerando-o seguríssimo, mas acharam que devido à envolvente social que o Masters tem, aquela localidade é demasiado pequena para justificar a realização de um evento com esta envergadura. E depois de auscultarem a opinião e sensibilidade dos pilotos, todos queriam ir a Braga”, lembra.

Melhores do mundo na Falperra

Segundo o presidente do CAM, a garantia de realização do Masters que levará para Braga os melhores pilotos de montanha do mundo, já nos próximos dias 8 a 10 de outubro, só foi obtida “devido ao envolvimento e apoio da Câmara Municipal de Braga e do Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ”, dado tratar-se de um evento de grande investimento e complexidade organizativa, havendo a necessidade de articulação com entidades locais e nacionais.

Parque dos pilotos ficará na Cripta do Sameiro

“As inscrições no Masters são gratuitas, ao contrário do que acontece no Europeu de Montanha, e são as federações que subsidiam os pilotos. E para as pessoas perceberem a razão pela qual vamos ter a Rampa paga pelo público em alguns locais (o que nunca aconteceu), foi devido a uma exigência da FIA que pretende parte da receita da bilheteira para a promoção e divulgação do próximo Masters. Os bilhetes irão ter um valor simbólico e podemos garantir que mais de metade dos espaços continua a ser de livre acesso”, garante Rogério Peixoto.

O arranque deste evento ficará marcado pelo desfile dos pilotos no centro da cidade que começa no Campo das Hortas às 18:00 do dia 08 de outubro e vai subir pela rua do Souto até à Avenida Central, onde se vai realizar um concerto defronte da Igreja dos Congregados. Aí serão apresentados os pilotos e as respetivas nações participantes e decorrerá um espetáculo de luz e fogo.

A grande novidade para o público em geral é que o parque de manutenção dos pilotos vai ficar instalado “numa zona fantástica em frente à cripta do Sameiro, algo que agradou muito à FIA e à Igreja bracarense, na pessoa do cónego José Paulo Abreu que se mostrou um entusiasta da iniciativa e uma vez que o santuário vai ser projetado para todo o mundo”, afirma Rogério Peixoto. 

Carros de 800 cavalos desfilam em Braga

Entretanto, e uma vez que a FIA exige elevados padrões de segurança e de informação, houve um grande investimento na colocação de rails no traçado da Falperra e uma grande aposta na sinalética. Por outro lado, o traçado da Falperra foi encurtado para 2,97 kms, uma vez que a pista é demasiado rápida e há pilotos, nomeadamente os ingleses, cujos automóveis têm depósitos de combustível que não ultrapassam os cinco litros e, muito provavelmente, não conseguiriam chegar ao Sameiro, local habitual da meta. Deste modo, a linha de chegada ficará localizada logo após o cruzamento das Taipas.

Espólio de Vasco Sameiro oferecido pela família. Foto: Rui Feio de Azevedo / O MINHO

O rigor que o CAM empresta à organização de provas de grande impacto desportivo permitiu que o clube tivesse renovada “a confiança da FPAK, FIA, instituições locais e da Altice que, desde há dois anos, tem sido o nosso parceiro tecnológico”, sublinha Rogério Peixoto para adiantar: “uma palavra muito especial para a Acrescentar, a empresa de construção responsável pela edificação da zona vip, a qual vai ficar localizada na chicane e será ao nível da Fórmula 1!”. 

Rogério Peixoto revela também que a transmissão live streaming da competição será assegurada pela FIA, que também custeará os prémios para os primeiros classificados, e que o CAM está a negociar com uma cadeia televisiva para que o evento possa ser transmitido em direto para Portugal.

“Gostaríamos que fosse a RTP, porque tivemos cerca de 20 anos de transmissões e sempre com um share fantástico, mas, se não for possível, teremos com certeza portas abertas noutros canais”, afirma.

Outra particularidade que envolveu atempadamente recursos financeiros do clube foi o facto de o CAM ter de subsidiar as equipas mais carenciadas com 15 mil euros, já que algumas delas se deslocam de países longínquos, como é o caso da Geórgia, tendo a FIA contribuído com 10 mil euros para o mesmo efeito. 

Medalha de Honra da cidade. Foto: Rui Feio de Azevedo / O MINHO

Está assim tudo a postos para que Braga volte a entrar na rota dos grandes eventos desportivos do mundo automóvel, sendo que o Masters oferece uma oportunidade única ao permitir um confronto entre pilotos de topo de diferentes países e carros de vários designs, alguns deles atingindo 800 cavalos de potência!

Para esta verdadeira Taça das Nações, já estão inscritos 161 participantes de 19 países, transformando esta prova num dos momentos mais altos de 2021 do desporto automóvel português.

Reportagem de Rui Feio de Azevedo.

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