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Futebol

AF Braga: Pandemia provocou rombo no futebol de formação

Manuel Machado, da AF Braga, confia numa rápida retoma

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Manuel Machado, presidente da AF Braga. Foto: Rui Feio de Azevedo / O MINHO

Manuel Machado leva uma década na presidência da Associação de Futebol de Braga (AFB) e O MINHO foi tentar saber como é que este organismo tem enfrentado a crise provocada pela Covid-19, sobretudo ao nível do futebol de formação que registou “um grande rombo” com a perda de milhares de atletas. Mas o líder da AFB parece já estar calejado para enfrentar grandes abalos, até porque, curiosamente no ano em que passou a liderar esta entidade, ficou a braços com as medidas de austeridade impostas pela troika, estávamos então em 2011. “Enfrentei duas grandes crises, o que dificultou muito a vida aos clubes e agremiações e exigiu mais tolerância da nossa parte”, sublinha a respeito. 

Mas a retoma da normalidade é já uma realidade palpável, uma vez que “em relação à época anterior, e dando como exemplo os seniores, já tivemos um crescimento de 115 para 136 equipas”.

Com uma experiência acumulada no dirigismo desportivo de quase meio século, o vizelense Manuel Machado foi eleito presidente da Associação de Futebol de Braga em 2011 e certamente nunca estaria à espera de encarar duas grandes crises – a primeira, logo no ano de tomada de posse, de caráter económico e resultante de uma penosa operação de emissão de dívida pública; e a segunda de caráter sanitário que estalou há já 18 meses e foi provocada pela atual pandemia que fez estremecer a estrutura económica de clubes e organizações desportivas.

“Levamos com a troika, logo que assumi a liderança da Associação, e nessa altura muitos clubes viram-se impedidos de arranjarem patrocínios e sponsors em virtude da forte crise económica que se instalou. Agora sucedeu o mesmo com o aparecimento da Covid-19 que teve implicações muito negativas, registando-se uma perda brutal de inscrições de atletas”, recorda Manuel Machado. 

Segundo o máximo responsável da AFB, em consequência das medidas restritivas para se conter a pandemia “o setor de formação deixou de funcionar” e isso implicou uma redução de 17 para 9 mil atletas inscritos, sendo que no total esta entidade registava 21 mil jovens inscritos nos vários escalões antes de se instalar a crise. Na tentativa de minorar este impacto negativo, a AFB organizou o Torneio Esperança, competição pioneira em Portugal destinada aos escalões de formação que se realizou nos passados meses de maio e junho e acabou por ser um sucesso.

A quebra abrupta na percentagem de inscrições fez com que a AFB tomasse a iniciativa de não cobrar as taxas de filiação de todos os clubes e de organização das competições e apoiasse substancialmente nas taxas de inscrição dos atletas, segundo nos informou o dirigente.

Manuel Machado, presidente da AF Braga. Foto: Rui Feio de Azevedo / O MINHO

“Nos seniores houve várias paragens da competição em virtude dos consecutivos estados de emergência decretados pelo Governo e isso resultou na realização de campeonatos atípicos. E não fosse a grande responsabilidade e capacidade de resiliência dos dirigentes e treinadores – que avançaram e não tiveram medo, parando apenas quando tinham de parar e arrancando quando lhes foi permitido arrancar – e teria sido muito pior. Pelo menos, isso deu-nos a possibilidade de cumprirmos com 50 por cento das provas para que pudéssemos efetivamente validar as competições e indicar quem subia para os Nacionais”.

Os efeitos negativos nos jovens

Manuel Machado elencou-nos uma série de efeitos negativos no futebol de formação em consequência da pandemia gerada pela Covid-19, desde logo os que afetaram a componente desportiva, começando por exemplificar:

“Se na altura da eclosão da pandemia um atleta era iniciado e foi forçado a parar um ano, não fez o seu percurso normal para juvenil e isso fez com que perdesse um ano na sua progressão física e técnico-tática, o mesmo sucedendo em todos os restantes escalões. O pior ainda aconteceu entre os 17 e os 19 anos em que não conseguiram subir a juniores A e a Juniores B. E foi precisamente neste escalão em que se perderam mais atletas”.

Jogo de formação. Foto cedida pela AF Braga

Depois, referiu-se a outro problema que considera muito grave: “outro efeito altamente negativo remete-nos para a saúde mental dos atletas, porque a socialização entre os jovens é muito importante, diria até crucial para o seu desenvolvimento. Sabemos que o futebol acarreta consigo a vertente desportiva, mas também vertentes tão importantes ou mais do que essa, nomeadamente nos planos humano, social e cultural”, realçou.

O presidente da AFB recorda também as dificuldades e frustrações dos pais e encarregados de educação “ao verem os seus filhos metidos em casa”, impedindo o seu normal desenvolvimento físico e psicológico. Tal implicou um agravamento do fenómeno da obesidade, “já de si um problema latente da sociedade portuguesa”. E a propósito, elucida: “o desporto cumpre aqui um papel fundamental de prevenção. Bastará lembrar que os jovens têm de praticar uma alimentação cuidada para melhor poderem treinar e competir e muitos clubes agora têm nutricionistas”.

Por outro lado, Manuel Machado lembra a importância da prática desportiva coletiva como algo que assume extrema importância no atual contexto social e familiar, ao sustentar que “o futebol é uma escola de vida e uma escola para a vida, pois os atletas apesar de infelizmente serem muito renitentes em relação aos pais e à escola, aqui obedecem aos dirigentes e aos treinadores, mostrando-se tolerantes com os adversários e sendo muito solidários com os colegas de equipa”.

Manuel Machado entrega troféu a jovem atleta. Foto cedida pela AF Braga

Aposta no projeto Crescer 2020+ 

No final de 2019, a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) já tinha alcançado perto de 220 mil atletas inscritos a nível nacional e, nesta vertente, Manuel Machado elogia a ação de Fernando Gomes que curiosamente assumiu a presidência da FPF no mesmo ano em que ele assumiu a liderança da AFB.

“Quando o Dr. Fernando Gomes foi eleito presidente da FPF havia cerca de 160 mil atletas inscritos na federação, mas ao longo do seu mandato foi possível chegar quase aos 220 mil. De resto, a UEFA recomendou que o mínimo que cada país deve ter é três por cento da população ativa, o que representa cerca de 300 mil atletas em Portugal. A verdade é que estávamos no bom caminho, mas a pandemia fez ruir a estratégia de crescimento”, lembrou Manuel Machado.

Manuel Machado com Fernando Gomes, presidente da FPF. Foto cedida pela AF Braga

Outra das iniciativas da FPF que elogia é o Projecto Crescer 2020+, um programa de apoio ao crescimento do futebol português criado em 2018 que assenta em duas macro estratégias: a qualificação do futebol português e o seu crescimento e a retenção dos praticantes da modalidade. Neste contexto, a AFB tem trabalhado com afinco para avançar com a certificação de todos os seus clubes e Manuel Machado acredita que “o futebol feminino e de formação serão as bases para um futuro de crescimento acelerado”, para além de que a formação de agentes desportivos será sempre outra das apostas mais fortes.

Para tentar consumar este “selo de qualidade”, a FPF permitiu a cada uma das 22 associações distritais e regionais de futebol que entrassem no ativo três profissionais para valorizarem áreas consideradas nucleares. Na AFB, foram destacados Ricardo Martins como diretor técnico regional, Tiago Moura como gestor de Projeto Crescer 2020 e Margarida Direito, responsável pela comunicação e marketing.

O risco de faltarem árbitros

A crise pandémica também chegou à arbitragem da AFB com a saída do ativo de cerca de 25% de árbitros, razão pela qual Manuel Machado se mostra receoso: “vamos ver se conseguimos árbitros para todos os jogos na época que vai arrancar”.  

Mas o presidente da AFB acredita que a situação vai poder entrar na normalidade a curto prazo, até porque a Associação organiza todos os anos cursos de formação de árbitros que habitualmente contam com cerca de 90 a 100 inscritos. 

A AFB investe também bastante na formação dos treinadores, promovendo a organização de cursos dos níveis 1 e 2, já que os níveis 3 e 4 estão sob orientação da FPF. Também estes cursos “são muito concorridos, registando-se sempre mais pedidos de inscrição do que as vagas existentes”.

Outra das apostas da direção da AFB que comprova a diversidade da sua oferta formativa recai na referida organização de cursos de formação de dirigentes, e Manuel Machado salienta que “a Associação de Futebol de Braga tem vindo a registar grande adesão nos últimos anos aos diferentes cursos, e para isso poderá também contribuir o facto de termos as modalidades online e presencial”.

Manuel Machado, presidente da AF Braga. Foto: Rui Feio de Azevedo / O MINHO

E revela a propósito: “estamos aptos para promover e organizar todo o tipo de cursos, uma vez que temos estrutura e logística para o efeito. Queiram as pessoas aderir e podemos ter uma oferta ainda mais alargada ao nível da formação. Estou-me a lembrar, por exemplo, e para além dos cursos mencionados, da área da gestão desportiva e económica dos clubes…”.

Grande ânsia da retoma

A realização do Torneio da Esperança durante um mês e meio pretendeu, segundo o presidente da AFB, “dar uma imagem de normalidade e transmitir confiança aos jovens atletas e suas famílias, e foi fantástico termos seis mil atletas a participar na competição”.

Esta iniciativa pioneira a nível nacional “que resultou muito bem” permitiu que o máximo responsável da AFB percebesse “a grande ânsia de retoma” e que o leva agora a confiar na recuperação dos 21 mil atletas que estavam inscritos na Associação antes da pandemia: “temos a expetativa que vamos chegar lá perto, e em relação à época anterior já tivemos um crescimento de 21 equipas em seniores. Nas camadas jovens há também 18 equipas B e tudo isto nos faz ter a expetativa de um rápido regresso à normalidade”. 

Antecipando já o anúncio das regras sanitárias que terão de ser respeitadas aquando do regresso das competições, Manuel Machado informa que não é necessário apresentar certificado de vacinação nem teste covid em assistências aos jogos até 1000 pessoas, mas “é preciso manter as barreiras sanitárias e o distanciamento”. Sendo permitido até 50% da capacidade de assistência de cada campo, o presidente da AFB considera que “a nível regional, esta percentagem é mais do que suficiente” e aquando da realização dos sorteios transmitiu “uma palavra de reconhecimento” aos dirigentes e treinadores “pelo comportamento responsável que tiveram, o que fez com que registássemos poucos casos de contaminação com a Covid na esfera da Associação, o que não aconteceu com outras associações que tiveram de parar a sua atividade”. 

Jogo de formação. Foto cedida pela AF Braga

De resto, é desejo de Manuel Machado “atingir-se a normalidade no final da época 2021/2022 para que possamos realizar novamente a Festa do Futebol Distrital com a presença de todos os campeões dos diferentes escalões”. Para isso ser possível defende que “não podemos regredir na nossa responsabilidade, porque o vírus ainda anda por aí e lanço aqui o apelo aos nossos dirigentes e treinadores para que façam cumprir as regras de contenção sanitária”.

Sobre as críticas de muitos dirigentes de que o futebol e outras modalidades foram muito penalizadas pelas medidas sanitárias restritivas, mesmo sendo um desporto que se pratica ao ar livre em que as hipóteses de contágio são menores, Manuel Machado mostra a sua concordância: “houve de facto alguma incoerência na forma como se tratou o desporto em período de pandemia, nomeadamente aquele que se pratica ao ar livre, dado que foram permitidas algumas iniciativas em pavilhões fechados de outro cariz, pelo que as pessoas naturalmente não compreenderem isso. Julgo que seria possível cumprir o distanciamento se fosse aceite cerca de 33% da capacidade de assistência de cada campo de futebol. E com a utilização da máscara, a medição da temperatura e o facto de ser possível os adeptos entrarem por um lado e saírem por outro, não vejo qual seria o perigo de contágio!”. Para Manuel Machado, tal acarretou reflexos negativos em termos económicos para os clubes “porque, vendo-se privados de público, não tiveram receitas nem patrocinadores, e como também não houve futebol de formação não receberam as avenças dos pais para ajudar a pagar a formação dos jovens”.

Por isso, o presidente da AFB insiste em dar “os parabéns aos clubes pela coragem e resiliência que tiveram em aguentar esta crise, embora apoiados pela Associação e autarquias”. E estende os elogios aos autarcas dos diferentes concelhos onde está integrada a Associação, sublinhando que “temos um distrito onde as câmaras municipais têm um papel decisivo na sustentabilidade dos clubes”.

Desta forma, o líder da AFB chega a esta altura do ano “com a perspetiva de que vamos ter praticamente tudo como tínhamos em 2019”, lembrando também a importância da medida governamental “Reativar Desporto” que permitiu apoiar financeiramente os clubes que conseguiram ficar elegíveis, de modo a poderem retomar a atividade desportiva federada. No entanto, este Fundo de Apoio para a Recuperação da Atividade Física e Desportiva no contexto de resposta à pandemia da doença COVID-19 acabou por não ter muita expressão, uma vez que nem todos os clubes reúnem condições para se candidatarem.

Manuel Machado, presidente da AF Braga. Foto: Rui Feio de Azevedo / O MINHO

Seis clubes no escalão maior!

Manuel Machado esteve duas décadas no Vizela como dirigente e presidente, sendo vice-presidente e chefe do departamento de futebol quando o clube subiu pela primeira vez à primeira divisão em 1983, onde só permaneceu uma época. Eram tempos em que o clube não tinha campo para jogar, pois não era relvado, fazendo-o em Guimarães, porque na altura Vizela ainda pertencia ao concelho vimaranense e valia-se do facto do estádio da cidade-berço ser municipal.

E é claro que Manuel Machado viveu com entusiasmo a recente nova subida ao escalão maior do clube da sua terra-mãe e sobretudo o facto da Associação de Futebol de Braga passar a ter seis clubes no escalão maior do futebol português, afirmando:

“Nunca nenhuma Associação teve seis clubes na I Liga em simultâneo! É um caso único, mas isso é mérito exclusivo dos clubes e dos seus administradores, dirigentes, treinadores, atletas e associados. O que sobra daí para nós? Orgulho e prestígio… e estamos felizes por isso mesmo. E também é muito importante na vertente desportiva da AFB ter esses clubes na I Liga porque servem de referência e motivação para muito jovens”.

Manuel Machado atribui este grande sucesso da região “às estratégias acertadas dos dirigentes”, mas também à paixão com que o Minho vive o futebol, arriscando dizer: “não há nenhuma região em Portugal que tenha tanta paixão pelo futebol como a do Minho!”

Por outro lado, releva a importância económica deste sucesso desportivo: “já viram o que é ter aqui seis clubes na I Liga num raio de poucos quilómetros? Reparem que para irem ver os jogos a Moreira de Cónegos, Vizela e Guimarães, os adeptos até podem ir de bicicleta, tanta é a proximidade destes estádios! Havendo por isso menos despesas de deslocações e mais receitas porque os derbies são sempre apetecíveis. O mesmo se aplica ao Gil Vicente, Famalicão e Braga. Mas os dividendos económicos de tudo isto não se refletem só nos clubes, pois também beneficiam o comércio local e os transportes”.

Por Rui Feio de Azevedo.

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