Humor, crime e música fecham Festival Utopia em Braga que ruma à América Latina em 2025

Termina hoje
Foto: Festival Utopia

Humor, crime e música encontraram-se em Braga, para sessões de conversa e um concerto de casa cheia, no último fim de semana do Festival Utopia, que hoje termina, com a promessa de viajar até à América Latina em 2025.

A segunda edição do Festival Literário Utopia, que decorreu desde dia 15 em vários locais da cidade de Braga, termina com a novidade de que se vai expandir já a partir do próximo ano.

De acordo com Paulo Ferreira, diretor do festival, os primeiros destinos estão já definidos, começando pela América Latina (num país e datas ainda a serem anunciados) em 2025 e Ponta Delgada, nos Açores, em 2026, coincidindo com a Capital Portuguesa da Cultura, que será nessa cidade.

“Apontada inicialmente para 2027, a internacionalização do festival vai acontecer mais cedo”, afirmou o responsável, considerando “um sinal muito positivo esta antecipação”, por validar a “relevância de um evento com este formato” e a aposta crescente no mundo literário.

O diretor adiantou ainda que o Utopia quer afirmar-se cada vez mais como uma referência no universo dos festivais literários, “contribuindo para uma maior dinamização cultural e económica dos territórios em que se realiza”.

Naquele que foi o último fim de semana do evento, um dos destaques da programação foi uma conversa entre o humorista Ricardo Araújo Pereira e o autor e professor de literatura judaica e de estudos americanos, Jeremy Dauber, autor do livro “Os Judeus e a Comédia”, recentemente editado em Portugal pela Zigurate.

O tema foi o humor judaico, numa conversa que tentou explicar o que caracteriza o humor judaico, concluindo que tudo é matéria suscetível de ser transformada em humor, exceto talvez o Holocausto, embora, nas mãos certas, este possa também ser matéria humorística, como afirmou Jeremy Dauber. 

Essas mãos podem bem ser as dos judeus, uma vez que “uma das características da comédia judaica é as suas tendências masoquistas, de [eles] fazerem pouco de si próprios”, continuou o professor nova-iorquino, judeu, formado em Harvard e Oxford. 

Ricardo Araújo Pereira aproveitou a deixa para contar a história, relatada no livro, de quando “no Irão decidiram fazer uma competição de ‘cartoons’ sobre o Holocausto, e em Israel um cartoonista disse ‘ok, abrimos o mesmo concurso só para judeus e vamos ganhar’”.

“Ninguém pode fazer pouco de nós, mas nós podemos fazer pouco de nós mesmos. É uma dinâmica muito complicada”, completou Jeremy Dauber, citando o realizador Woody Allen, que afirmou: “odeio-me e não é por ser judeu”.

Jeremy Dauber – que desde criança se interessa por perceber como as piadas funcionam, porque é uma “forma interessante de perceber como uma comunidade funciona” – admite que o humor judaico possa ser um mecanismo de defesa.

Ainda dentro do mesmo registo, Ricardo Araújo Pereira afirmou que por um lado os judeus sofrem de uma espécie de “complexo de superioridade” ao afirmarem que são “o povo escolhido”, mas por outro têm uma natureza autocrítica e estão sempre insatisfeitos, mesmo com “o trabalho de deus”.

“Se o mundo tivesse ‘tripadviser’, os judeus dar-lhe-iam provavelmente 2,5 estrelas”, acrescentou, arrancando gargalhadas da plateia, num auditório lotado.

Do humor, o festival passou para o crime, convocando para uma mesma mesa os autores de ‘thrillers’ Camilla Grebe, Jorge Diaz Cortés (um dos três escritores espanhóis que assinam como Carmen Mola) e Pedro Boucherie Mendes.

Nesta conversa, os autores, falaram da origem e razão porque escolheram o policial como género literário, com a escritora sueca, residente no Estoril, em Portugal, a contar que cresceu rodeada de livros e que começou “desde muito cedo a ler romances de crimes”, pelo que quando começou a escrever, o caminho foi natural.

No entanto, a escritora salientou que o género “é apenas uma forma, e que pode ser preenchido com o que se quiser”, desde dinâmicas da sociedade até à linguagem poética, exemplificou, garantindo que nunca se sentiu limitada pelo género.

Pedro Boucherie Mendes, fã confesso de Patricia Highsmith, contou que sempre leu muitos ‘thrillers’ e depois quis “saber se era capaz de escrever”.

O também diretor de conteúdos Digitais da SIC, e diretor da SIC Radical, sublinhou que os seus livros são “enriquecidos com informações que as pessoas provavelmente não sabem”, sobre os locais onde se passa a trama, por exemplo, que é uma forma de o autor “agradecer ao leitor”.

Jorge Diaz Cortés relatou que aquilo que é hoje um caso de sucesso começou como uma brincadeira entre três amigos, em que cada escreveria uma parte do romance, depois de discutirem bastante a história e fazerem “um alinhamento, capítulo por capítulo, sobre o que ia acontecer”.

“Tínhamos de fazer com que parecesse que tinha sido escrito só por uma pessoa”, afirmou, explicando que o género policial foi uma escolha que lhes pareceu a mais adequada para um trabalho em conjunto.

A ideia inicial era manter o anonimato e por isso escolheram um pseudónimo, que quiseram que fosse nome de mulher. Depois de várias hipóteses chumbadas, um deles sugeriu “Carmen”, ao que outro respondeu “mola” (que em calão espanhol significa “porreiro”).

Quando decidiram concorrer ao prémio Planeta, que venceram, os seus verdadeiros nomes foram desvendados, contou, lamentando, em tom de brincadeira, ter tido de dividir o prémio de um milhão de euros com outras duas pessoas.

Uma das principais características dos romances de Carmen Mola é o “divertimento”, disse, acrescentando: “Não somos concorrentes de outros escritores, somos concorrentes do jogo de futebol, da praia, das séries da Netflix”.

Uma outra sessão recebeu o jornalista Paul Caruana Galizia, filho da jornalista e ativista anticorrupção em Malta Daphne Caruana Galizia, assassinada em 2017, que tem lutado pela justiça à morte da mãe e em defesa do jornalismo de investigação, que esteve à conversa com o ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, sobre democracia, verdade e desinformação, liberdade de expressão e jornalismo.

Em destaque esteve também a “entrevista de vida à escritora britânica Paula Hawkins”, fenómeno mundial de vendas com o seu primeiro romance de suspense, “A Rapariga no Comboio”.

Nascida em 1972 no Zimbabué, onde viveu até 1989, Paula Hawkins nunca volta ao seu território de infância para escrever, porque considera “difícil”, preferindo ambientar as tramas no Reino Unido, embora admita que a cidade de Braga é o “lugar perfeito para um crime”: “Uma cidade com tantas igrejas clama por um assassínio”.

Começou como jornalista, fez uma incursão na escrita de comédias românticas sob pseudónimo, que foram um fracasso, e finalmente experimentou o género de suspense.

Sobre o seu estilo de escrita, Paula Hawkins explicou que o “ponto de partida” é sempre a personagem e que os temas surgem à medida que a vai desenvolvendo.

A autora gosta de escrever sobre pessoas normais, pois considera que “todas têm um lado muito negro, que se manifesta em determinadas circunstâncias”, admitindo a sua própria escuridão interior: “para mim, escrever é uma forma de explorar esse lado, num lugar seguro”.

O penúltimo dia fechou com um concerto do artista brasileiro Johnny Hooker, que encheu o Theatro Circo de cor, luzes e de um público esfuziante, em grande parte constituído por brasileiros residentes em Braga, que gritou, cantou, saltou das cadeiras e dançou.

Durante todo o festival, uma instalação de realidade virtual, designada VRwandlung, ocupou o Claustro do Espaço Vita, para quem quisesse utilizar, replicando a experiência da obra “A metamorfose”, de Franz Kafka, numa homenagem ao centenário da morte do escritor.

A VRwandlung permite às pessoas ocuparem o lugar de Gregor Samsa, a personagem da história, e sentir no seu próprio corpo a transformação num escaravelho, enquanto observam o interior do quarto a partir do olhar do protagonista.

Já em balanço de encerramento, a organização aponta cerca de 18 mil visitantes em dez dias, mais três mil do que no ano passado, e avança as datas de 14 a 23 de novembro para a próxima edição em Braga.

 
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