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Vânia Mesquita Machado

Versos à desgarrada, sem poesia e sem piada. Tal como é a pandemia

Opinião de Vânia Mesquita Machado

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Artigo de Vânia Mesquita Machado

Humanista. Mãe de 3. De Braga. Pediatra no Trofa Saúde – Braga Centro.

Notas prévias:
1)Sou Pediatra, e quem me conhece sabe que gosto de praticar medicina de proximidade.

2)Tenho saudades de não precisar de usar máscara para mostrar o meu sorriso, de abraçar os meninos…de me poder expressar mais humanamente, sem o ar de bicho papão.

3)Se todos colaborassem, talvez a pandemia amainasse, e voltássemos ao antigamente de há meses que já parecem anos.
Ninguém sabe como a pandemia vai evoluir.
A incerteza, faz parte da vida.

4) Quem me conhece também sabe que não tenho medo, e que sou otimista.
Não estou preocupada com a temida segunda vaga, e a vida não pode ficar em stand-by.

5) Mas…

O covid-19 é novo e o seu comportamento incerto.
Já se sabe muito sobre o vírus, a comunidade científica está imparável na luta contra a praga viral, embora falte muito para o podermos dar como conhecido e inofensivo.
Não temos a desejada vacina ( a que surgiu não vou comentar), mas em breve teremos, não existe ainda cura, mas sabemos que a grande maioria evolui favoravelmente.
As crianças e os jovens têm geralmente sintomas leves, a doença de evolução moderada sabemos tratar…
E o que é grave é, nestas idades, mesmo muito raro.
Infelizmente, as pessoas mais velhas foram escolhidas pelo covid-19 como alvos: a doença pode evoluir desfavoravelmente e matar.
Assim como grupos de risco.

6) Sei que não disse nenhuma novidade.
Mas vou exprimir o que penso sobre o regresso ao antigamente antes da ciência “dominar” este novo vírus:
Acho uma irresponsabilidade total.

7) Aviso também que bloqueio em redes sociais quem me insultar.

8 ) E que dispenso aplausos à janela, dentro de meses.
Então, aqui vai, em jeito de poesia tosca à desgarrada ( para aligeirar, embora o tema seja sério, imaginem uma guitarra meio desafinada para disfarçar a rima sem métrica…)

“Estou cansada
(mas não desisto)
Insisto
Em gritar
no silêncio surreal
Das mentes adormecidas
Pelo calor estival.
A ameaça viral, é real.
E usamos máscaras
E fardas e viseiras
No hospital
– Não por ser carnaval,
– Nem por nos agradar
Contribuir para a poluição ambiental.
Com o aumento de lixo não degradável
Infelizmente indispensável,
(estou plastificada ao observar um menino suspeito de infeção)
Confesso que muito me irrita depois
Ver também a praga maldita
De máscaras usadas
espalhadas por aí
( já chegavam as beatas,
entre outras marcas de humanos, que comem bebem e usam o chão do nosso planeta como caixote do lixo, sem qualquer preocupação)
Estou cansada
(Mas não desisto)
E insisto
em tentar acordar
As mentes adormecidas
Pela alegre anestesia
do tempo de verão
Espécie de histeria coletiva
Que convida
a não se pensar
Em absolutamente nada
Há quem pense,sim.
Causas a defender são imensas:
Cada uma com o seu valor e lugar.
Mas há um vírus a debelar.
Uma pandemia,
que não é alucinação,
Nem fruto de conspiração.
É um microorganismo real.
E,se para a maioria,
Vai ser um inofensivo
Sindrome gripal,
Para muitos, será letal.
Aliás, já causou muitas mortes
Não são fantasia, pois não?
É como tudo na vida:
Questão de azar ou sorte
Posso sair de casa
um dia qualquer,
e ser atropelada
Ou uma doença súbita
me levar
Quando Deus quiser.
É verdade.
Mas isso não quer dizer
Que desista de gritar
no silêncio surreal
Das mentes adormecidas
Pelo calor estival.
A realidade do novo normal
Não significa voltar à normalidade
Do antigamente.
Aglomerados,
de qualquer natureza
Sao uma leviandade.
Podem ter a certeza.
Uma irresponsabilidade,
E uma falta de respeito,
Pelos profissionais de saúde
Que nos hospitais
Cuidam zelosamente
De quem puder
eventualmente
estar infetado
Pelo virus da pandemia
Qualquer tipo de evento,
De qualquer natureza,
Em qualquer lado,
Independentemente
– Do credo ou da ideologia
– Seja de culto ou cultural
Se forem desrespeitadas
As regras mais do que decoradas
( embora infelizmente ignoradas)
De uso de mascaras
ou do essencial
distanciamento social
É como um insulto
A quem está na linha da frente
A cuidar da saúde dos outros
e a arriscar a sua, e a dos seus.
É ridículo pensar
Que um grupo reunido
De muita gente
Nao é um perigo
Em fase de pandemia.
O virus é indiferente
Ao tipo de comemoração
E surge em surtos.
É matreiro.
Nao é um virus porreiro.
Festas?
De qualquer direção
(Esquerda, centro ou direita)
Devem ser canceladas,
Sem exceção.
Assim como a procissão
De homenagem a qualquer Santo.
Causa-me espanto
que tudo se esteja a ocorrer
Desregradamente
Idas a centros comerciais,
Em bandos de carneiros
Sao locais propícios
Para comício virais
De dimensões descomunais.
E as imensas festas
entre muitas pessoas amigas,
todas cuidadosas, logicamente?
(Todas as pessoas se acham cautelosas)
Eu sou muito festiva também.
E afetiva também.
Mas estou na linha da frente.
E sei bem como é provável
a seguir aos festejos terminados,
Vir a febre e a tosse e o pingo no nariz.
E a criança feliz
Vai enfrentar os doutores
mascarados
De bicho papão.
Se houver o azar de alguém
Após o agradável festejar
( onde toda a gente era saudável e cuidadosa)
Contatar com uma pessoa mais idosa
E a contaminar
As consequências poderão ser bem piores.
Nao sou fatalista, não…
Sou realista.
O verão, vai acabar.
A epoca viral, vai começar.
As escolas vão reiniciar:
Acho muito bem:
-Os meninos têm de aprender,
-A vida, de continuar.
Se todos estivéssemos agora
a remar para o mesmo lado
Ou seja a ter mais cuidado,
Iria ficar certamente tudo bem,
brevemente.
Assim, esperemos
que fique tudo bem,
também brevemente,
Se Deus quiser.
Estou cansada,
Mas não desisto.
Nem nunca vou desistir
Até chegar a minha hora.”
– E para finalizar:
Relembro que as outras doenças não deixaram de existir.
Ou seja:
– O desejável, era perder menos tempo a combater ocovid-19.
( e daí este meu desabafo no vento virtual).
Para que então, toda a atividade normal,
de prevenção, diagnóstico e tratamento atempado de qualquer outras patologia, pudesse ser uma realidade outra vez,
e não uma utopia.
E para não se voltar ao confinamento.

Vânia Mesquita Machado

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