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Opinião

Sobre o humanismo

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Foto: DR

ARTIGO DE MÁRCIO LUÍS LIMA

Humanista. Licenciado em Filosofia (atual mestrando). Escritor, no sentido lato da palavra. Um apaixonado por boa literatura. De Viana do Castelo. Presente através do ig (@marcioluislima) e de becodapedrazul.wordpress.com . Toda a escrita tem por base o detalhe certo, daí sucede-se a vida.

Desde já́ quero pedir desculpa por não poder abordar o tema por completo, de todos os ângulos possíveis, portanto, devido à falta de tempo e de ter escrito o texto entre duas cidades, numa viagem cansativa, escolhi como núcleo o humanismo e o humanismo na sociedade enquanto mulher; enfim, explicação desnecessária e espero que o texto fale por si.

Há́ muito pouca coisa que nos dá humanidade – olhem ao redor e denotem que a maioria dela não nos dá humanidade porque já́ é feita pelo humano e, como tal, tudo o que nos dá é uma “superioridade” ilusória – sim, ilusória porque este automóvel em que me desloco não foi construído por mim, não foi pensado por mim, nada de mim teve qualquer influência na sua construção ou mecânica, até mesmo o movimento é ilusoriamente meu porque, na verdade, a combustão da gasolina e transformação em oxigénio, que se requer à deslocação, é puramente cientifico; enfim, pode ter sido em parte trabalho humano mas não meu, não teu (excecionalmente), posto isto, e à parte da natureza (que é tema para outra crónica) a mulher é, de facto, o ser que mais humanidade traz ao humano. Toda a experiência do nascimento e explicação antropológica desde a geração de um filho até à ligação inteligível, etc., não há́ como negar que isso dá-nos a humanidade, não no seu total, mas em grande parte.

Em Portugal, em 2019, pelo menos vinte e nove mulheres morreram, em casos relacionados com violência doméstica – no ano inteiro de 2018 morreram vinte e oito – quinhentas e três mulheres desde 2004 (não contabilizando as de este ano); tudo isto são apenas números, frios, contudo, cada uma delas era uma mulher, um ser humano. É uma realidade avassaladora e deveras suspensa em séculos passados (que facilmente se arrancariam essas páginas da história caso não fossem tão importantes para não se repetir – mas repete-se, tragicamente).

Posto isto, a mulher, por razões biológicas, é uma das portadoras da humanidade que constitui o humano, como tal, porque haveria de alguém violentar essa possibilidade de humanidade, esse núcleo? Seja tal partindo de um homem ou de uma outra mulher, é necessária uma carência enorme de humanidade para que tal ato aconteça e, ainda mais, para que todo o oposto de geração (corrupção – isto é – morte) se dê!

Em que medida podemos nós, como sociedade comum, explicar que existam pessoas que careçam de humanidade? Não é, em parte, nossa culpa? Observemos, quando um achado excecional acontece: sentimos orgulho no humano como parte de um humano maior – humanidade; mas quando a calamidade ocorre afastamos “louros” e encolhemos os ombros, como se esta pessoa fosse de uma escória “extra-ordinária” muito longe da tão “minha humanidade”. Se somos parte de um bem maior, não seremos então parte, também, de um mal maior? Ou excluímo-nos da humanidade e caímos no solipsismo, cerrados em nós mesmos?

Tem de haver consciência social quando se trata de uma deficiência gravíssima do humano, como esta, e incluir os sentimentos negativos como o ciúme, raiva, etc., como partes do tolerável em nós e para nós mesmos, aceitar que o humano não é nem quererá́ ser um deus.

O sentimento, por si só́, não carece ou pede reação – e se tal pedisse, com certeza seria o alívio, no entanto, esse jamais passará pelo alívio no alheio, se é em mim que se dão sentimentos, é em mim que se “exige” a tal reação hipotética, como tal, o alívio dá-se de mim para comigo mesmo – através de um terapia (medicinal ou não), desde um tratamento Rogeriano (de Carl Rogers) até um café́ ou um cigarro, mas nunca, jamais, provocando tais entraves numa sociedade.

Mas abordar tais pessoas não é o meu objetivo, o que se deve abordar mais sistematicamente e consistentemente até que isto se entranhe é a reação externa à situação – a passividade do social não pode ocorrer! Se somos em sociedade, sou um mero cúmplice se testemunho ocorrências deste calibre (ou até mesmo de qualquer outro de repercussões semelhantes) e nada faço, o meu olhar silencioso é um consentimento para com o meu bem-estar perante uma sociedade que mata mulheres, que viola, que assedia, que maltrata, etc.; e, de fato, é essa a sociedade que quero para o meu país, para a minha cidade, para a minha rua – mais, para o meu futuro e os meus futuros? Cesse-se o pensar futurista, não se pode viver numa sociedade assim, pelo menos não conscientemente, e a verdade é que nós somos os construtores de tal!

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Opinião

O meu congresso do PSD (à distância)

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ARTIGO DE PEDRO SALVADOR

Deputado Municipal em Ponte de Lima. Antigo Conselheiro Nacional do PSD. Gestor.

Terminou hoje o 38º Congresso do PSD e com ele termina um ciclo de discussões estéreis e de insultos gratuitos nunca antes vistos no meu partido. As redes sociais foram nas últimas semanas o palco de um triste espetáculo entre militantes do PSD que se posicionam no combate político como uma espécie de fanáticos religiosos ou de membros facciosos de claques. O meu PSD não é rigorosamente nada disto.

Declaro desde já que não estive neste congresso. Não estive por vontade própria e ninguém me proibiu de estar. Este é talvez dos poucos congressos do PSD em que não estou em 30 anos que completo agora de militância no PSD (acumulando a militância na JSD). E não estive porque não me identifico minimamente com a atual direção do partido e com a estratégia desenhada para este ciclo de liderança que vai de 2018 a 2022, ou seja, o 1º e 2º mandato de Rui Rio à frente do PSD. Há 2 anos apoiei Rui Rio nas diretas, por falta de alternativa em que eu acreditasse. Em pouco tempo dei por perdido o meu voto de confiança em Rui Rio, quando assisti de perto ao ambiente cozinhado nos seus grupos de apoiantes de whatsapp e Facebook. Retirei-me de tudo porque a política não é nada daquilo que estão a fazer à volta de Rui Rio. Não votei por isso em Rui Rio nas últimas diretas. Não me considero Zequinha de ninguém, muito menos de Rui Rio que conheço há uns bons 20 anos.

Por falar nisso, lembro-me agora que fui presidente da JSD do Porto quando Rui Rio fez o seu primeiro mandato como presidente da Câmara Municipal do Porto e recordo-me muito bem do que as estruturas locais do PSD do Porto tiveram que passar com a guerra que decidiu unilateral e intempestivamente mover contra o Futebol Clube do Porto – a maior instituição desportiva da Cidade do Porto (gostem ou não os Zequinhas). Lembro-me também que não tive ninguém na minha comissão política que fosse avençado na Câmara Municipal do Porto ou que fizesse da política um modo de vida. Não devo por isso nada a Rui Rio ou aos seus atuais fiéis radicais.

Este congresso trouxe uma novidade: Rui Rio não domina as estruturas do partido. Apesar de ter ganho 53% dos votos nas diretas, não tem maioria no conselho nacional e perde o conselho de jurisdição. É difícil num partido como o PSD, um qualquer militante aceitar isto como normal. Não é normal. O presidente Rui Rio continua na sua intifada contra os seus adversários internos, alimenta-se disso e esquecendo-se qual é o seu papel fundamental enquanto líder do PSD. Não sobreviverá por isso muito tempo à frente do PSD, por escassez do alimento que elegeu para a sua dieta. Neste particular, vejo-me obrigado a concordar com o José Silvano que reclamou no congresso que nos temos que deixar de hipocrisias. Tem toda a razão. Não temos que disfarçar as nossas diferenças e sobretudo não somos todos obrigados a chupar os meus rebuçados ou a comer alheiras!

O PSD não merece o que está a acontecer internamente, do mesmo modo que os portugueses não merecem que o PSD seja este triste e paupérrimo espetáculo político. Precisamos de elevar a ambição e a qualidade dos quadros que são eleitos para os órgãos nacionais. Precisamos de compreender a natureza de poder do PSD e respeitar as idiossincrasias de cada distrital do partido. A prova absoluta de que Rui Rio perdeu o seu combate pela ética e pelos banhos de ética é o de que o tal cacique de que Rui Rio sempre reclamou é o mesmo cacique que o sustenta por pontas por mais uns tempos. Não é isto que é o PSD, nem na génese, nem na sua história de décadas.

Chegados aqui, resta-nos assistir no sofá ao total falhanço deste líder ou participar por todos os meios na discussão e fiscalização (interna e externa) de que o PSD sempre se alimentou. O PSD não é propriedade de Rui Rio ou de qualquer assembleia de acólitos seus. O PSD tem uma história de pluralismo e de discussão aberta (interna e muitas vezes pública) que não se compadece com este estilo de sala de aulas onde a professora só vê um Zequinha a quem dedica o seu tempo. Rui Rio nunca irá perceber que não é líder de um partido mas sim líder de uma facão. Não o perceberá porque não ouve ninguém, para além daquela meia dúzia de iluminados dos anos 80 que o idolatram no seu caminho para o abismo desde os tempos de faculdade.

O PSD resistirá a tudo isto como prova de uma dimensão política que muitos não reconhecem. O PSD elegerá uma nova liderança mais depressa do que alguns desejam. A prova disso foi a reação de hoje do congresso à tomada de posse dos diferentes órgãos nacionais do partido. Que grande banhada levou Rui Rio neste congresso. E não foi de ética!

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Braga

Marginalizado em Angola por ter falado em corrupção, associando-a a Isabel dos Santos

“Aconteceu-me em 2003 durante uma visita do primeiro-ministro Durão Barroso”

em

Foto: DR / Arquivo

CRÓNICA DE LUÍS MOREIRA

Jornalista de O MINHO. De Braga.

Em outubro de 2003 fui, enquanto jornalista, a Angola, na comitiva do então primeiro-ministro, Durão Barroso. Ia com apoio do Diário do Minho – onde nunca trabalhei, apenas tendo colaborado muito esporadicamente, mas que teve a amabilidade de me apoiar – e do extinto jornal O Primeiro de Janeiro, que Deus tenha, porque já fechou.

Na primeira crónica que enviei referi-me a Isabel dos Santos, a empresária filha do ex-presidente angolano, José Eduardo dos Santos.

Disse que ela era vista como corrupta em muitos setores da sociedade angolana, e que – dizia-se – beneficiava do apoio político do pai, e consequente acesso ao dinheiro do Estado. Numa caixa ao lado, tive o cuidado de emitir opinião contrária, a de que, segundo outros setores, se tratava de uma mulher de grande iniciativa e qualidade, capaz de investir e criar riqueza. E que a acusação de corrupção era “uma calúnia”.

Sucede que, os editores de O Primeiro de Janeiro, por falta de espaço, cortaram esta caixa, a que defendia a reputação da empresária.

No dia seguinte, ambos os jornais receberam telefonemas, julgo que da Embaixada de Angola em Portugal, a perguntar quem eu era, e porque os representava. Telefonemas que me foram transmitidos e que indiciavam o que se seguiu: passei, logo, ao estatuto de renegado; o staff que acompanhava a comunicação social começou a virar-me a cara, com ar agressivo, e nem respondiam a qualquer coisa que perguntasse. Nessa noite, houve um jantar para os jornalistas oferecido pela Embaixada de Angola, com a presença do responsável em Portugal, e a hostilidade repetiu-se: ninguém falava para mim!

Regressei ao nosso país, ciente de que, se um dia quisesse voltar a Angola, onde já estive três vezes – uma delas na tropa em 1975 – o visto ser-me-ia recusado por caluniar a filha do Presidente.

E certo de que fiquei nos ficheiros da secreta angolana…

Embaixador não responde

Meses depois, o Embaixador veio a Braga, à Câmara, no tempo de Mesquita Machado. Fui lá enviado pela Agência Lusa para quem trabalhava. O procedimento antipático manteve-se: nem o assessor me falou, e o Embaixador – um tipo alto e anafado, cujo nome não recordo – recusou-se a responder-me.

O tema da corrupção incomodava os dirigentes angolanos, está bom de ver. Felizmente, o atual Presidente, João Lourenço, quer acabar com a máfia e governar para todos os angolanos!!!

Nessa viagem, tive direito a participar num jantar oferecido pelo primeiro-ministro angolano ao homólogo português, e onde estavam ministros, dirigentes vários e empresários dos dois lados… Na mesa que me calhou estava Rui Mingas, que fora ministro e também embaixador em Portugal. Antes fora atleta do Benfica… Mingas era crítico do regime do MPLA, partido a que pertencia, mas de que se afastara – dizia – devido ao fenómeno da corrupção. Na mesa estava ainda o embaixador de Moçambique em Angola, António Mathonse, irmão do pintor Elias Mathonse, ambos meus amigos, do peito.

A conversa fluiu e foi ter ao dito fenómeno… Disse o Mingas: “estão a ver aquela mesa ali. O general que lá está tem uma mansão na ilha de Luanda, uma na África do Sul, outra no Brasil, outra ainda na Flórida, casa em Lisboa e no Algarve e na Côte D’Azur, em França”. Que valem dezenas de milhões de dólares! E concluiu: “nesta sala, há vários outros com a mesma situação, à custa dos angolanos”.

Calei-me e nada escrevi, porque era confidencial!!!

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Colunistas

Porque não praticar ‘mindfulness’ na profissão que exercemos?

Por Vânia Mesquita Machado

em

Artigo de Vânia Mesquita Machado

Humanista. Mãe de 3. De Braga. Pediatra no Trofa Saúde – Braga Centro.

Atenção plena:
Parar, escutar, e olhar.
Porque não praticar mindfulness na profissão que exercemos?

Transversalmente a todas as profissões está a necessidade de sermos produtivos, inquestionavelmente importante para a sustentabilidade económica, quer no sector privado como no público.

Deixando modelos utópicos de sociedades ideais de lado, é importante ser pragmático e compreender que nenhum país cresce economicamente se a principal força motriz, as pessoas que todos os dias vão cumprir as suas responsabilidades nos seus respetivos empregos não o fizerem de forma competente, que implica grande capacidade de gestão de tempo e cumprimento zeloso das funções que lhes são incumbidas.

Mas a pressão subjacente à rentabilidade profissional é uma moeda de duas faces.
Os horários laborais colidem quase sempre com os familiares, num mundo em que se vive em modo fast food, em que praticamente deixamos de ser humanos.
Criamos uma espécie de avatar virtual dos nossos seres, e é esse humano robotizado que se levanta mal o dia nasce e cumpre as suas numerosas rotinas até ao final do dia.
Uma forma vertiginosa de viver, com o inevitável perigo do esquecimento do essencial: o nosso lado humano.

A sociedade ocidental é atualmente vítima de uma pandémica crise de valores, que coloca em risco a essência básica da Humanidade: sermos humanos.
Esta doença altamente virulenta estendeu-se a todas as áreas da nossa vida, atingindo todas as idades sem distincaode sexo , raça ou nacionlidade, não poupando estados civis, não selecionando habilitações profissionais, ideologias, crenças.

Importa tentar tratar a doença, usando dos meios de que dispomos, e começando nos nichos onde diariamente respiramos, provando a nossa real existência terrestre como humanos.

É preciso é arregaçar as mangas, e começar.

Podemos iniciar esse processo onde passamos a maior parte do tempo:
no nosso local de trabalho.

Apesar de se ter tornado moda há alguns anos, separemos o trigo do joio, nem tudo o que esta voga é cliché.
A atenção plena , conhecida por mindfulness pode ser uma preciosa aliada em nos desencarcerar da armadura do avatar virtual, e voltarmos a sermos pessoas.

Parar. Escutar e olhar. Atentamente.
Como na passadeira, regra básica para evitar que sejamos atropelados numa distração.

Estamos agora cada vez mais distraídos de sermos humanos.

E em todas as profissões, importa que continuemos a ser humanos.
Todos gostamos de ser bem atendidos no balcão da pastelaria, na bomba de gasolina, na caixa do supermercado.

Quando é a saúde está em causa, a necessidade de nos sentirmos acolhidos aumenta exponencialmente.

Sou pediatra há quase 2 décadas, e tenho 3 filhos.
Sei perfeitamente a angústia sentida quando um filho tem uma dor ou uma doença.

Infelizmente, ouço relatos de quem não se sente humanamente acolhido.
Um dos motivos é o meio digital ter substituído o papel, que facilitava olhar o doente nos olhos,a escrita intercalada com esse contacto mais pessoal do que o teclar ininterrupto que exige mais atenção, o olhar quase hipnotizado pelo monitor, o tempo a passar e a deixar de haver tempo para escutar com o coração a pessoa doente.

A medicina tem um q.b. de exatidão, mas uma imensurável dose de psicologia, só possível com a atenção plena, a cada doente na sua vez.

Mesmo que, vezes sem conta.

E vezes sem conta entram os pais com os seus filhos, no consultório.
Vezes sem conta ouço-os falarem das febres, das dores, das faltas de apetite, vezes sem conta ausculto os seus meninos e lhes palpo a barriga, vezes sem conta lhes espreito os ouvidos e a garganta, o terrível pauzinho inimigo dos meninos e meu também, a bata branca a transformar-me num monstro temível pior que o bicho papão.

Vezes sem conta digito a história clínica no computador, vezes sem conta registo o exame físico, a doença diagnosticada,a medicação prescrita.

E depois de tantas vezes que lhes perdi a conta, porque os anos voaram desde o dia solene em que jurei dedicar-me à missão de tratar de pessoas doentes, e me especializei a tratar dos mais pequeninos, comecei a compreender que curar é muito mais do que o que os livro onde queimei pestanas anos a fio me ensinaram.

Que apesar de vezes sem conta, um doente não se conta, cada um é uma pessoa diferente.

Curar é uma arte, que implica doses infinitas de paciência, e uma empatia que transborde para sedimentar a confiança de quem vem ter comigo pedir ajuda num momento tão frágil como a doença.
No meu caso, médica de crianças, é importante também tentar tirar as dúvidas do difícil e longo curso de pais, que não existe oficialmente e que se vai aprendendo progressivamente, com cada filho que nasce.

Vezes sem conta, mas um de cada vez, igualmente importante.

E todos os dias desloco ligeiramente o monitor de posição de forma a poder olhar melhor nos olhos dos pais e dos filhos, sentados a seu lado numas cadeirinhas pequenas coloridas , úteis também para eu me sentar ao pé da mãe ou do pai quando leio na expressão dos meninos a palavra medo e o choro está quase a chegar, e é melhor serem observados no aconchego do colo.

No fundo é uma forma de mindfulness em Medicina, em que a dedicação tem necessariamente de ser total a cada ser humano que nos passar pelas mãos.

No meu caso, aprendi ainda a exercer a medicina do abraço, a medicina do sorriso, a medicina da maior delicadeza possivel para não assustar os meninos.

Não é fácil praticar medicina atualmente, as pessoas que muitas vezes nem conhecem bem o doutor entram de pé atrás, com receio de não serem recebidas como pessoas, com medo das doenças serem mais graves do que são, dos tratamentos não serem adequados.
O Dr google médico de bastidores a encher de dúvidas, a partilha com amigos das dores e das queixas a criar a incerteza, o pavor das epidemias de doeças galopantes a assombrar a já tremida relação médico-doente, antigamente tão sólida, sendo inquestionável o que o doutor dizia com palavras muitas vezes impercetiveis.

Hoje em dia todos palpitam sobre as doencas.
Hoje em dia tudo fica registado nos computadores, com a vantagem de mais facilmente se aceder a informaçao, mas com a inevitável desvantagem das pessoas se sentirem menos acolhidas na partilha das suas dores.

Somos médicos de humanos reais, não de humanos virtuais digitalizados virtualmente em processos informatizados.
Doutores de pessoas, não de monitores.

E esta forma de agir profissionalmente, tão importante quando o que está em questão são vidas humanas, pode ser aplicada em qualquer profissão.
Em todas se praticam inúmeros atos que envolvem pessoas , vezes sem conta.

Vezes sem conta.
Um de cada vez.
Parar, escutar e olhar…
Para deixarmos de ser distraídos na passadeira da vida, e nos atropelarmos uns aos outros pela pressa que gerou a pandemia da falta de valores.

Vânia Mesquita Machado
25 novembro 2019

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