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Viagens na Nossa Terra

Soajo, terra onde as pedras falam grosso

em

ARTIGO DE MANUEL PIMENTA

Não foi boa ideia ter começado este trabalho num lugar que me era estranho. Senti-me ainda incapaz de me fundir sozinho por esse Minho que desconheço. Por isso nesta segunda viagem optei por um destino que me fosse mais familiar. Com o tempo lá me adaptarei a estas minhas novas tarefas. Assim espero, pelo menos.

A primeira vez que vim ao Soajo, foi num desses idos anos oitenta. As mãos que me cá trouxeram foram as do meu Pai e as do Sr. Gasparinho do Arrabalde.

Isto ficava longe nessa época, com a nossa 4L a tentar subir a pulso por uma estrada esburacada. Ultrapassar um carro de bois naquela micro chaimite era manobra arriscada, pelo tempo que demorava a consumar.

Quando nesse dia aqui cheguei julguei-me nos confins da Criação. O Gasparinho sentou-se nesta mesma pedra onde estou agora e suspirou:

– Senta-te cu, que a esta terra não voltas tu.

O que eu me ri com aquilo. Talvez por isso o meu cu tenha decidido cá voltar mais um par de vezes.

O falecido Gasparinho caía sempre nas graças das gentes locais. Tinha um jeito natural para criar laços com todos os que encontrávamos, e é um saudoso personagem de tantas e inesquecíveis aventuras na minha infância ‘longe’ de casa.

Lembro-me de o ver meter conversa com algumas senhoras de muita idade. Talvez fossem mães de algumas destas velhotas com quem me tenho cruzado.

Eu feito parvo apenas lhes digo bom dia. Tenho um certo medo que me levem a mal. Um tipo aparecer assim sozinho e do nada, só pode estar ali pra vender ou enganar… o que na maioria das vezes vai dar ao mesmo.

Talvez por isso alguns ainda mantenham os cães presos, e daqueles capazes de abocanhar a cabeça de um carteiro.

É triste aquela condição de ser prisioneiro e guardião ao mesmo tempo. Não deve haver nada mais ingrato nesta vida. A liberdade deles é apenas a suficiente para azucrinar quem passa em frente às grades da sua prisão.

Aquilo é um som que assusta. E ainda bem que não se percebe o que eles dizem. Em ladrar minhoto deve ser qualquer coisa tipo: – Põe-te já no caralho!!

Os tipos que vivem de roubar velhos devem pensar duas vezes antes de entrar numa casa assim guardada. O mal é que esses cães não guardam a TV nem o telefone. E é por aí que agora os larápios mais lhes vão ao bolso. Bem que já se podia ir extinguindo esta ingrata missão que têm dado a tão fiéis criaturas. Que os filhos destes, pelo menos, já possam levar algumas festas dos visitantes que agora tanto por cá passam.

Lá voltei eu a virar-me para um aspecto negativo. Julgava que nesta segunda viagem não corria riscos de ter de dizer mal de alguma coisa. Há muito que sei que esta terra é bonita e de forte identidade. Uma espécie de pequeno País Basco cá do Minho, que nunca deixou nem deixará que o Poder se esqueça da sua importância. Antes mesmo de aqui ter vindo já o meu Pai me contava a história do juiz do Soajo como forma de me explicar o que é ter dignidade. Gosto desta terra como de poucas, por isso mais obrigado me sinto em dar o meu contributo.

A cabine telefónica que vejo ao fundo também não me vai ficar entalada. Custa muito ver aquele jazigo do tempo dos credifones a poluir a imagem de um dos mais extraordinários monumentos do nosso país. Que terrível esta mania minhota de adorar mostrar ter muitas coisas, mesmo que essas coisas já não façam falta nenhuma.

E mesmo que um telefone público ainda seja necessário a algum vivo, isso não é motivo para se ter ali aquilo. Nesta terra sempre souberam dar vida às pedras. Fizeram-se casas, caminhos e espigueiros com elas… além deste incrível pelourinho, verdadeiro símbolo da firmeza e criatividade das gentes locais. Estou certo que algum criativo cá da terra conseguiria fazer uma cabine bem mais castiça.

Quanto ao terrível bloco metálico, deveria ter o mesmo destino dos fidalgos que cá tentavam tributar desalmadamente, e que tanto devem ter inspirado o autor deste ilustre pelourinho…. apenas ali devia ficar o tempo de um pão arrefecer numa lança.

Soajo. Fotografia de Manuel Pimenta

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