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Rui Marques, diretor geral da ACB: “A transição digital é um desafio de uma década”

Entrevista

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Foto: DR
Rui Marques, diretor geral da Associação Comercial de Braga (ACB), explica a O MINHO, nesta entrevista, como deve ocorrer a retoma económica do concelho, a importância de investir na transição digital, o que esperar do turismo e como devem os pequenos negócios, essencialmente o comércio, adaptarem-se à baixa procura, diminuindo custos e aumentando a receita.

Quais devem ser os motores da retoma económica do concelho de Braga?

Julgo que a retoma económica no concelho de Braga vai assentar em dois blocos fundamentais da nossa economia.
Por um lado, teremos a recuperação do consumo interno que, apesar da quebra significativa a que foi sujeito por força da pandemia, apresenta um potencial de retoma muito interessante, na medida em que a maioria dos portugueses não perderam o seu nível de rendimento ao longo desta crise. Aliás, os níveis de poupança têm registado inclusivamente uma subida. Esta revitalização do consumo interno vai beneficiar e ser fundamental para os setores do comércio, turismo e serviços de proximidade.
Por outro lado, teremos um importante contributo do setor industrial, nomeadamente das empresas exportadoras, que, com a melhoria sanitária da situação internacional, irão conhecer um novo período de crescimento, alavancando significativamente o crescimento do volume de negócios do território, gerando emprego, dinamismo e progresso social e económico. Um destaque especial para a fileira da “Engenharia e Construção” que tem em Braga um cluster fortíssimo e que poderá voltar a desempenhar um papel de motor do dinamismo da nossa região no ciclo que se avizinha de importantes investimentos públicos no âmbito do PRR –Plano de Recuperação e Resiliência e do próximo quadro comunitário de apoio para o período 2021-2027.

Até quando pode o concelho aguardar pela retoma do turismo e quais os impactos da sua ausência, até ao momento?

Temos de estar conscientes que a retoma do turismo vai acontecer a duas velocidades. A primeira e mais rápida relacionada com o turismo interno, esperando-se que o processo de vacinação em curso permita o início da recuperação já durante o verão de 2021. Uma velocidade mais lenta relacionada com o turismo de não residentes, que naturalmente demorará mais tempo e dependerá da normalização do tráfego internacional de turistas e da melhoria das condições sanitárias em todo o mundo, estimando-se que se venham a alcançar os níveis pré-pandemia apenas em 2023 ou 2024. Mas a incerteza e volatilidade na evolução da pandemia, torna muito difícil a antecipação de cenários de retoma, já que a situação sanitária continua a influenciar decisivamente o desempenho do setor do turismo.

Como devem os pequenos negócios preparar a retoma económica?

A preparação da retoma dos pequenos negócios deve ser planificada durante o período de crise, encarando a crise como uma oportunidade de melhoria ou para a mudança. Os empresários devem, desde logo, ter a capacidade de repensar e afinar o seu modelo de negócio. Muitas vezes as crises põem em evidencia as fragilidades das empresas até aí pouco percebidas e os empresários têm de ter a coragem de olhar para o negócio e pôr tudo em causa, promovendo as alterações que julguem necessárias para o tornar mais competitivo.
Nesta crise em concreto, durante o período de confinamento as empresas dedicaram, e bem, uma atenção muito especial à formação das suas equipas, tendo aproveitado este interregno para proceder a processos de qualificação dos seus recursos humanos em áreas diversas para a competitividade das empresas. Igualmente importante é o desenvolvimento de uma boa estratégia de comunicação e de marketing digital. Temos assistido a um processo muito rápido da digitalização dos pequenos negócios, porém rapidez não significa que esteja a ser bem feito. De uma forma geral, denota-se a ausência de estratégia e um défice de planeamento nos processos de transição digital.

Quais os conselhos da ACB, para a diminuição de custos no pequeno comércio e turismo? E quais os conselhos, para um aumento da receita?

No contexto adverso que vivemos, não é fácil estimular a procura. As empresas devem, por isso, aproveitar para promover um “programa de emagrecimento” dos seus custos de funcionamento. Até porque os benefícios são imediatos e perduram no tempo.
Na prática a diminuição de custos de operação passa por analisar a pertinência de todos os custos da empresa, como se de um orçamento de “base zero” se tratasse, procurando eliminar “gorduras desnecessárias” a que habitualmente não se liga, diminuir consumos e renegociar com fornecedores melhores preços e/ou melhores condições de pagamento. Nalguns casos, poderá também fazer sentido externalizar alguns processos, garantindo alguma poupança sem pôr em causa a qualidade dos serviços ou dos produtos da empresa. Uma dimensão importante nestas empresas é a dos custos financeiros. Em muitos casos, estes custos quase que asfixiam a tesouraria das empresas e será necessário, por isso, rever as suas condições junto das instituições financeiras. Desejavelmente, diminuindo o preço das operações, mas, muitas vezes, o caminho passa por ajustar o plano de reembolsos às reais capacidades da empresa, ou seja, garantindo um prazo mais longo.
Ao nível do aumento da receita, sabendo que uma parte significativa das empresas comerciais e turísticas estão numa situação de tesouraria bastante difícil, creio que uma opção muito válida e pouco onerosa para estimular as vendas da empresa passa pelo investimento em marketing digital. E isto implica um plano de comunicação devidamente estruturado e alinhado com a estratégia da empresa, com bons conteúdos e um orçamento, à medida das possibilidades da empresa, para investir em publicidade digital. É preciso ter em atenção que estimular a procura, por norma custa dinheiro.

A transição digital dos pequenos negócios ocorreu com sucesso no concelho de Braga? E, como pode ser aprimorada?

As empresas foram “obrigadas” pela crise a iniciar ou aprofundar os seus processos de digitalização. Tiveram de se desenrascar para conseguir suportar as limitações e restrições colocadas pela pandemia.
A transição digital é um desafio de uma década, não podíamos nem podemos esperar que fique resolvido no espaço de um ano; até porque persistem debilidades ao nível das competências digitais, quer dos empresários quer das suas equipas, que não foram resolvidas e têm atrasado o processo de digitalização em curso. No entanto, há que referir que em meia dúzia de meses avançamos aquilo que se esperava que viesse a acontecer em meia dúzia de anos, caso não houvesse pandemia. Hoje, cerca de 50% dos pequenos negócios já têm alguma presença digital. Mas, atenção, é evidente e até preocupante a falta de estratégia nestes processos.
Temos receio que algumas das empresas com menos aptidões digitais, abandonem o processo de digitalização por não verem resultados no curto prazo. Isto é particularmente evidente ao nível do comércio eletrónico. Algumas empresas criam uma loja eletrónica e acham que isso é o suficiente para começar a vender. Mas a verdade é que o mundo digital é um espaço onde a concorrência é muito mais agressiva e feroz do que no tradicional formato físico. Se é verdade que nos permite quebrar as barreiras do raio de ação de uma loja de rua e passar a vender para o mundo, também é verdade que nos coloca a competir com operadores de qualquer parte do mundo e, na maioria dos casos, com competidores de dimensão muito superior, nomeadamente marcas nacionais ou internacionais. Creio, por isso, que devemos continuar a dar uma atenção muito especial à capacitação das pessoas ao nível digital e a fomentar a adoção de processos de digitalização bem estruturados e com uma forte vocação estratégica, porque a questão tecnológica cada vez é mais acessível a todas as empresas, independentemente da sua dimensão ou até da sua capacidade de investimento.
Dito de outra forma, o sucesso não está tanto no “hardware” do processo de digitalização, mas sobretudo no “software”, ou seja, na criatividade, no método, na estratégia e nas competências digitais.
Quais os negócios, que sofreram as maiores quebras no concelho e quais devem, ou deveriam, ser as respostas do município? 

Do ponto de vista empresarial, os setores do comércio, do turismo e de alguns serviços foram dos mais afetados pela pandemia. Porém, uma das marcas distintivas desta crise é assimetria dos impactos. Quer isto dizer que no mesmo território os diversos subsetores de atividade podem ser atingidos de forma diversa e mesmo dentro de um mesmo setor existem empresas mais afetadas do que outras. Todavia, hoje podemos afirmar que as diversas áreas ligadas ao turismo foram provavelmente aquelas que registaram maiores quebras, como é o caso do “alojamento” (quebra de mais de 55% em 2020), da “animação turística” e das “agências de viagem” (com quebras na ordem dos 75%) ou da “restauração” (quebra de mais de 40%). Mas, no setor do comércio existem também alguns setores muito afetados pela crise, como é o caso do comércio de vestuário e acessórios de moda que registou uma quebra de faturação semelhante à da restauração.
Relativamente às medidas de apoio a estas empresas, creio que são da responsabilidade do governo e não das autarquias. E, como já é sabido, são fundamentais para assegurar a sustentabilidade das empresas as medidas de apoio à tesouraria e à proteção do emprego. Os apoios devem ser desburocratizados, acessíveis e rápidos na sua tramitação e pagamento.
Qual foi a dimensão da contração económica do concelho e da região, desde o ano de 2019?


Ainda não dispomos dos dados do INE. No entanto, atendendo aos impactos verificados no volume de negócios dos setores do comércio e serviços, do turismo e da indústria, nomeadamente ao nível das exportações, bem como do desempenho, em contraciclo, dos setores da construção e da tecnologia, que em Braga têm grande importância e vitalidade, creio que a contração deverá situar-se entre os 5% e os 10%.

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