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Cávado

Roupa doada por empresários de Barcelos para a Ucrânia acaba na lixeira

Revelou responsável pela logística em Aveiro

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Roupa acumula em Medyka, na Polónia, e não é escoada para a Ucrânia. Foto: DR

O responsável pela logística da recolha de bens humanitários para a Ucrânia em Aveiro revelou esta terça-feira que alguma da roupa doada para apoiar os refugiados ucranianos acabou por ter como destino a reciclagem, nomeadamente “duas paletes” fornecidas por empresários da área de Barcelos, Braga e Esposende que chegaram aos armazéns daquela instituição ‘escondida’ por entre medicamentos e alimentação – que são os verdadeiros bens prioritários.

Alberto Teixeira, que dirige a logística da operação humanitária montada pela comunidade ortodoxa de Aveiro, tem vindo a alertar para problemas logísticos na campanha humanitária, sendo uma delas o excesso de roupa doada que, uma vez chegada à Ucrânia, não é aceite e pode acabar numa lixeira ou deixada a apodrecer. Ou até mesmo antes, ainda nas fronteiras da Polónia.

O responsável deu como exemplo um ação de empresários de Barcelos: “Enviaram-nos para aqui sub-repticiamente [às escondidas] duas paletes com roupa provenientes de Barcelos, mesmo depois de as termos recusado quando nos foi proposto”.

“Como o transporte era à borla, meteram duas paletes com roupa”

Contactado por O MINHO, Alberto Teixeira explicou o incidente: “Eu tinha recusado, uns dias antes, em receber roupa que tinha sido recolhida no Minho, creio que maioritariamente em Barcelos, mas aproveitaram uma remessa de uma empresa daí que nos vinha trazer produtos médicos e, como o transporte era à borla, meteram duas paletes com roupa, o camião descarregou, foi embora e nós ficamos com aquilo na mão”.

Alberto Teixeira diz que “agora ninguém a quer, nem lojas sociais nem instituições, porque está tudo cheio de roupa”. E revela: “Falei com o responsável pelas paletes, porque foi ele que socialmente andou a dar a cara, e contactei para virem buscar, mas recebi uma resposta muito pouco agradável”.

A solução “em comum” que foi encontrada acaba por ser a menos desejada: “Mandarmos para a reciclagem”. “Estamos agora à espera que uma empresa de reciclagem tenha a boa vontade de nos levantar aquilo, porque temos um armazém emprestado e agora está ali com aquelas duas paletes que não servem para nada”, disse, a propósito do episódio.

Alberto Teixeira deixa o apelo para que a entrega de bens consista na escolha de alimentos não perecíveis, como é o caso de enlatados, e medicamentos e material de enfermagem. Já quanto à roupa, nem pensar.

“Já há muito tempo que não há necessidade de donativo de roupa, no entanto algumas instituições receberam e não sabem o que fazer com ela, porque quer a área social quer as diversas associações e entidades que normalmente lidam com carências, estão cheias de roupa”, considerou.

Alberto dá nota de algumas situações reportadas (com fotografias) de roupa abandonada e já estragada, ao ar livre, na Ucrânia, e também na Polónia, em zona de fronteira, onde a roupa foi descarregada e acabou por ser recolhida pelos serviços municipais para uma reciclagem.

Conta que, nos primeiros dois dias, fruto do “coração de manteiga” de alguns dos voluntários, foi aceite roupa como doação. Mas a verdade é que é “muito difícil arranjar camiões que façam o transporte” e, por esse motivo, a prioridade passa pela alimentação, medicamentos e outro material médico, pelo que a roupa “só estaria a ocupar espaço”.

Comunidade de Lisboa também não está a aceitar roupa

Contactado por O MINHO, o padre Alexandre Bonito, da comunidade ortodoxa ucraniana de Lisboa, explicou que na área da capital não estão a aceitar doação de roupa.

“Muitas pessoas aproveitam que é altura de mudança de estação e doam as roupas, mas as necessidades do momento são outras. Há quem peça para ir recolher a roupa a casa e já explicamos o motivo para nos negarmos a fazer isso”, concluiu.

A Rússia invadiu a Ucrânia no passado dia 24 de fevereiro, provocando uma das maiores crises de refugiados da história da Europa. A ação foi condenada a nível internacional por grande parte das nações, que respondeu com o reforço de sanções económicas a Moscovo.

A comunidade internacional, onde Portugal se inclui, tem ajudado a Ucrânia ao acolher centenas de milhares de refugiados e com o envio de bens humanitários para ajudar nos centros de acolhimento montados nas fronteiras e também com ajuda aos hospitais ucranianos.

Notícia atualizada às 17h03. 

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