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Rapazes ou raparigas?

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Vania Mesquita Machado

Artigo de Vânia Mesquita Machado

Pediatra e escritora. Autora do livro Microcosmos Humanos. Mãe de 3. De Braga.

 

Rapaz ou rapariga, uma escolha? Ideologia de género versus orientação sexual? Que grande confusão…

Na revista Família Cristã de novembro surge uma reportagem intitulada «Rapaz ou rapariga: uma escolha?».

A polémica começa quando, no artigo se escreve que, perante uma pressuposta pergunta da criança em idade dos porquês sobre a diferença entre ser menino ou menina, a hipotética resposta seria «Teres pipi não significa que sejas menina. Podes decidir mais tarde».

O Professor Diogo Costa Gonçalves que em 2003 foi consultor da Conferência Episcopal para uma carta pastoral sobre a ideologia de género, é entrevistado e explica que género implica uma estrutura de pensamento que visa ter uma sociedade sem sexos, promovendo a troca de papéis para eliminar as diferenças de comportamento entre meninos e meninas porque as pessoas se tornam homem ou mulheres pela educação e pela cultura, sendo absolutamente indiferente o fenótipo feminino ou masculino. Defende que a identidade sexual deriva de um contexto patriarcal que visa subjugar a mulher.

Parece-me pertinente o ensino de que não existem tarefas ou profissões exclusivamente femininas ou masculinas, embora homens e mulheres possam assumir papéis diferentes por opção.

Mas o artigo refere em seguida que esta ideologia já está inserida nos conteúdos escolares, nos programas de educação sexual, com a promoção da descoberta do próprio aluno da sua identidade sexual.

No entanto e ao contrário do pressuposto objetivo de promover a igualdade entre os papéis femininos e masculinos, a confusão vai-se instalando na estrutura do artigo pela mistura dos conceitos de ideologia de género e identidade sexual.

No artigo lê-se também que em Espanha, «esta ideologia (de género) está a transformar escolas em fábricas de crianças sem sexo» (Manuel Martinez Sellés, cardiologista e investigador).Tanto Manuel Martinez Sellés como Maria José Vilaça, psicóloga clínica e Presidente dos Psicólogos Católicos, e entrevistada para a revista «Família Cristã», citam um artigo científico escrito por pediatras norte-americanos, «A ideologia de género prejudica as crianças».

São pontos de vista, claro, e cabe a cada um dos educadores decidir por si.

Quanto a mim parecem-me algo radicais e pouco ponderados, pois do que assisto como mãe e pediatra, não me apercebo dessa uniformização de género imposta por qualquer escola, nem me deparo com crianças ou adolescentes na generalidade com problemas quer a nível de género (distinção culturalmente imprimida acentuadamente na nossa sociedade portuguesa embora com tendência à diluição).

Relativamente à orientação sexual, como pais devemos estar atentos ao input de informação dos nossos filhos e de como esta é digerida, pois deriva de diversas fontes, principalmente dos pares, das redes sociais e das séries televisivas, muito mais do que do conteúdo pedagógico de disciplinas como Educação para a Cidadania, que abordam muito levemente estes temas. Pode ser por isso distorcida. Mas na maioria dos caos os adolescentes não se escandalizam se um colega é homossexual nem o ostracizam.

Esta revista refere também que ninguém nasce com um género mas todos nascem com um sexo, e como frisa o artigo homens e mulheres são diferentes, com comprovam por várias investigações (o artigo exemplifica com «sex diferences in human neonatal social perception»).Mas deveria aprofundar melhor que o sexo biológico não é o que define a orientação sexual…

Em conclusão e para ajudar a orientar os pais, o Professor Diogo Costa Gonçalves afirma que os educadores têm que criar espírito crítico. Concordo plenamente.

Maria José Vilaça, defende que é preciso «não ser influenciado do ponto de vista sentimental, moral e ideológico». Parece-me bem.

Quando interpelada sobre o que diria a uns pais com um filho homossexual, Maria José Vilaça responde que «para aceitar o filho não é necessário aceitar a homossexualidade, e até se calhar o ame mais», acrescentando que «ele vai viver de uma forma que não é natural e que o faz sofrer», e que «é como ter um filho toxicodependente, não vou dizer que é bom».

Vamos por partes: Identidade de género é um conceito de construção social, multifatorial, influenciada pela família, crenças, escola, trabalho, etnia, etc. O género não é biologicamente determinada. São um conjunto de aspetos que no seu todo se associam à masculinidade ou feminilidade.

Orientação sexual tem uma dimensão totalmente diferente, e embora a biologia determine as caraterísticas especificas que distinguem o masculino do feminino, (cromossomas, aparelhos reprodutores e carateres sexuais) a tendência para a homo ou heterossexualidade implica principalmente fatores psicológicos, que são sentidos individualmente.

O burburinho viral nas redes sociais, onde Maria José Vilaça é crucificada parece-me exagerado, no que diz respeito ao intuito das suas afirmações.

Na revista a psicóloga refere-se a como orientar os pais a lidar com um filho cujo comportamento ou atitude não vai de encontro ao padrão dos progenitores.

Independentemente da opinião de cada um, não será certamente fácil para a maioria dos pais aceitar a diferente orientação sexual do seu filho, mas não o deve repudiar pelo facto da sua forma de amar ser diferente da deles. Quando Maria José Vilaça diz que os filhos irão sofrer, também me parece ter razão, pois vivemos numa sociedade preconceituosa.

A meu ver, dizer que a homossexualidade não é natural, e comparar uma forma de orientação sexual com a toxicodependência são afirmações menos felizes.

Mesmo a toxicodependência dos adolescentes e jovens, não pode ser apontada com dedo acusador, porque na maioria das vezes é fruto de uma grave desestruturação familiar e filha da crise económica.

Em termos biológicos existe um gene que se associa à toxicofilia, o que implica maior tendência para comportamentos aditivos.

Assim sendo, estabelecer uma analogia entre homossexualidade e toxicodependência, que implicitamente poderiam insinuar que ser homossexual «é tão mau» como ser toxicodependente é um absurdo, são dois comportamentos completamente diferentes, não sendo sequer comparáveis.

O Papa Francisco é um defensor acérrimo da inclusão social a todos os níveis, e o porta-estandarte da tolerância e do respeito pelo ser humano.

Associar o artigo escrito nesta revista, embora cristã, à opinião da Igreja Católica é também uma forma de preconceito, tal como insultar e caluniar Maria José Vilaça (embora esta, com responsabilidades acrescidas nas suas afirmações públicas dado ser Presidente dos psicólogos católico, devesse ter sido mais diplomática nas respostas dadas na entrevista).

 

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