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Quadrilha albanesa que assaltava casas no Minho primava pelo profissionalismo, diz a GNR

Dois dos suspeitos de furtos milionários começaram a ser julgados

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Carros apreendidos à quadrilha albanesa. Foto: O MINHO

A quadrilha albanesa desmantelada pela GNR de Braga, suspeita de furtos milionários na região do Minho, primava pelo profissionalismo e discrição, em que cada um sabia aquilo que tinha a fazer, nunca entrando em casas ocupadas no momento em que se preparavam para os furtos.

A quadrilha é suspeita de ter cometido furtos no valor total de cerca de meio milhão de euros, entre finais de 2021 e inícios de 2022.

Entre as vítimas dos furtos estão os vizinhos do condomínio de luxo em frente da nova moradia do ex-ministro Manuel Pinho, a Quinta do Assento, em Gondizalves, bem como um magistrado do Ministério Público, que reside em Nogueiró, ambas as casas situadas no concelho de Braga.

Segundo os investigadores criminais da GNR relataram, durante o primeiro dia do julgamento, que está a decorrer no Palácio da Justiça de Braga, não lhes são conhecidas quaisquer atitudes violentas, pelo contrário, chegaram os três a fugir de um locatário, que estava sozinho em casa.

Mas o profissionalismo do grupo, principalmente com atenção ao detalhe colocado em todos os pormenores, foi referido pelos vários militares. O grupo nunca atuou armado, nem tinha qualquer tipo de arma quando foi desarticulado pela GNR de Braga, em Vila Nova de Cerveira e na região da Galiza,

Estão a ser julgados dois suspeitos, Edi Gjonaj (43 anos) e Artur Zisko (46 anos), ambos em prisão preventiva, por acusações de associação criminosa, furto qualificado e falsificação de documentos, tendo Edi Glonaj cadastro por crimes do género, remetendo-se os dois ao silêncio, perante o coletivo dos juízes e o procurador da República, na primeira audiência do julgamento.

A defesa dos arguidos, assegurada pelo advogado Tiago Melo Alves, tem vindo a evidenciar, na sua perspetiva, que o conhecimento dos investigadores criminais da GNR de Braga sobre as atividades que imputam aos suspeitos, à exceção das vigilâncias dos últimos dias antes das suas detenções, é indireta, isto é, baseia-se nos visionamentos dos vídeos e relatos dos ofendidos.

Advogado Tiago Melo Alves a sair do Palácio da Justiça de Braga. Foto: Joaquim Gomes / O MINHO

Matrículas falsas e vidros opacos

Estes três albaneses deslocavam-se entre Espanha e Portugal num Mercedes ou numa carrinha Audi A4, esta última com os vidros traseiros opacos, sendo que só o condutor seguia à frente, enquanto os outros dois iam sempre atrás, fazendo manobras de diversão para saber se estavam ou não a ser seguidos, como alterações súbitas de velocidade ou voltas sucessivas em rotundas.

Entre os dois países ibéricos, saíam sempre na A3 pelo acesso a Paredes de Coura e iam até um esconderijo, em Vila Nova de Cerveira, onde guardavam em pouco tempo, geralmente em três minutos a cinco minutos, o material usado para os furtos, como pés-de-cabra, marretas, luvas e ‘walkie-talkies’, ao mesmo tempo que trocavam as matrículas falsas só com um simples clique.

“Cada um sabia muito bem aquilo que tinha a fazer, quase não falavam uns com os outros, mal chegavam ao local onde escondiam as coisas apagavam as luzes da viatura e apenas utilizavam as suas luzes de lanternas de mineiro”, como revelou um dos investigadores criminais da GNR, explicando “haver uma divisão de tarefas que estava perfeitamente definida antes de atuarem”.

“Até uma espécie de fato de trabalho tinham e usavam-no sempre durante os furtos, como era visível nos sistemas de videovigilância das moradias onde eram praticados os furtos”, afirmou um outro investigador criminal da GNR, acrescentando que “usavam sempre luvas e o único vestígio biológico encontrado nos veículos foi do que fazia de motorista” e que conseguiu fugir.

O grupo albanês residia do lado de lá do rio Minho, na Galiza, a meia dúzia de quilómetros da fronteira, mas só assaltava no Minho, tendo em poucos meses furtado dinheiro e artigos no valor de mais de meio milhão de euros, com um dos três suspeitos a fugir para Espanha num veículo da GNR, com duas armas de calibre de guerra, depois recuperadas, na viatura policial.

As restantes audiências continuarão a decorrer no Palácio da Justiça de Braga, tendo um dos três suspeitos, Desard Marku, que continua a monte, a 24 de fevereiro deste ano, em Vila Nova de Cerveira, aproveitado uma viatura da GNR com chave na ignição e fugiu logo para Espanha.

Graças à Guarda Civil, o carro da GNR, com as duas armas e documentos de identificação de militares da GNR foram recuperados no dia seguinte e devolvidos ao Grupo de Intervenção de Operações Especiais (GIOE) da GNR, que na altura das detenções estava a apoiar os elementos pertencentes ao Núcleo de Investigação Criminal, o NIC, do Destacamento da GNR de Braga.

A Guarda Civil de Pontevedra estava a fazer simultaneamente, desde há algumas semanas atrás, um trabalho conjunto com a GNR de Braga, através de Ordem Europeia de Investigação, entre Espanha e Portugal, tendo dando lugar a uma operação, denominada Gerbera-Arvoredo, devolvendo à GNR as pistola-metralhadora MfG&Thomet AG 9mm e shot-gun Fabarm 12mm.

Segundo a acusação do Ministério Público, foram furtados dinheiro e artigos de luxo com valor superior a mais de meio milhão de euros, especialmente em Braga, Famalicão e em Esposende, entre finais de 2021 e inícios de 2022, sendo que, ainda segundo a GNR, no concelho de Braga furtaram mais nas freguesias de Nogueiró, Gondizalves e Nogueira, sempre com mesmo modo.

A quadrilha falava por ‘walkie-talkies’, para não ser detetada pelas autoridades policiais, tinha um detetor de sinais de rede e outros aparelhos tão sofisticados que a GNR de Braga pretende revertam agora para seu favor, entrando de noite em vivendas de luxo, quando não estavam os moradores, evitando sempre entrar por portas ou janelas com fotocélulas de sensores de alarme.

Ainda segundo o MP, os três albaneses privilegiavam o “dinheiro vivo”, joias, ouro e relógios, intensificado a sua ação aquando dos dias mais próximos do Natal de 2021, por se aperceberem haver mais casos de ausência dos moradores. Os furtos criavam intranquilidade e já se falava entredentes na necessidade de contratar profissionais de segurança privada para vigiar as ruas.

Os elementos do grupo deslocavam-se diariamente entre a Galiza e o Minho, tendo arrendado uma moradia em O Rosal, perto da fronteira com Valença, pela qual pagavam três mil euros de renda mensal, escondendo objetos para cometerem os furtos, numa bouça, perto da Rua do Chão, em Candemil, Vila Nova de Cerveira, onde a GNR deteve então dois dos três suspeitos.

A GNR de Braga apreendeu o Mercedes e a carrinha Audi utilizados pelos suspeitos, para as suas deambulações entre Espanha e Portugal, colocando sempre chapas de matrículas falsas, mas com denominador comum de corresponderem a outros automóveis das mesmas marcas e modelos, para não levantar suspeitas quando passavam a fronteira e pelas autoridades policiais.

O grupo é suspeito de deslocar-se rapidamente entre os dois países ibéricos, através da A3 e da A28, enquanto nos furtos às residências minhotas caberia a Desard Marku ficar ao volante e a vigiar as imediações, ficando a dupla que agora será julgada, Edi Gjonaj e Artur Zisko, com encargo de entrar nas casas e levar o mais valioso, falando sempre entre si por ‘walkie-talkies’.

Segundo refere a acusação do Ministério Público, o primeiro dos furtos terá sido cometido na madrugada de 08 de outubro de 2021, em Gondizalves (Braga), enquanto o último assalto se verificou a 24 de fevereiro de 2022, em Aveleda (Braga), com o furto de um cofre às costas, poucas horas antes de detidos, em Vila Nova de Cerveira, dois dos três suspeitos dos assaltos.

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