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Alto Minho

Portugueses e espanhóis cruzam fronteiras do Alto Minho apesar da incerteza legal

Reportagem

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Foto: Tomás Guerreiro / O MINHO

Portugal anunciou, no dia 01 de maio, a reabertura das fronteiras. Espanha nada apresentou contra. Milhares de pessoas cruzam as fronteiras limítrofes às suas vilas e cidades, sem que, nem de um lado, nem de outro, a polícia se manifeste, visivelmente. A fronteira entre Valença e Tui está a funcionar em pleno, com portugueses a comprar tabaco e a abastecer combustível. Espanhóis fazem jogging de um lado ao outro da ponte velha, construída em 1886, sob o rio Minho, para conectar os dois países.

“As fronteiras da Galiza com Portugal não estão fechadas. O que está a acontecer é uma confusão administrativa total, entre o governo central de Espanha e o governo regional da Galiza”, explica o presidente da Câmara de Cerveira, João Nogueira, a O MINHO.

A disputa administrativa, entre o poder central espanhol e os governos das regiões autónomas e fronteiriças com Portugal, deve-se às restrições sanitárias em território espanhol, como a proibição de passagem entre concelhos: os famigerados cordões sanitários, entre concelhos do país vizinho.

Conforme noticiou esta tarde O MINHO, o vice-presidente da Junta da Galiza afirmou hoje que tanto espanhóis como portugueses não podem atravessar a fronteira porque a Galiza se encontra de perímetro encerrado, embora admita que não está a existir fiscalização por falta de autorização do Governo central, a quem submeteu um pedido, também hoje, para reverter a situação.

Foto:Tomás Guerreiro / O MINHO

“Os trabalhadores podem passar as fronteiras à vontade. Isto é um avanço extraordinário, para os trabalhadores das duas regiões, Galiza e Alto-Minho, que só na fronteira entre Cerveira e Tominho, representam um fluxo diário de 6.000 pessoas”, afirma João Nogueira. No entanto, o presidente da Câmara Municipal de Cerveira acrescenta: “Supostamente as pessoas não podem passar a fronteira para comprar tabaco ou combustíveis, mas estão a fazê-lo”.

O posto fronteiriço de controlo policial, em Tui, não se opôs à passagem de veículos Portugueses, provenientes de Valença. A Guarda Civil Espanhola contactada por O MINHO, afirma: “Para além dos problemas causados pelas filas e atrasos na circulação dos cidadãos, e das consequências negativas para a economia de ambos os lados da fronteira, não houve problemas de ordem pública com os cidadãos espanhóis ou portugueses”.

Foto:Tomás Guerreiro / O MINHO

Os inspetores do posto fronteiriço não mandaram parar veículos, enquanto o jornal O MINHO acompanhava as diligências, nem questionaram nenhum cidadão, que atravessasse a ponte entre os dois países, a pé. Nem cidadãos de nacionalidade Portuguesa, nem cidadãos de nacionalidade Espanhola.

“É um vazio legal, entre Espanha e Portugal e entre o governo regional da Galiza e o governo central Espanhol, que provoca esta confusão na vida das pessoas. Aquilo que mais esperamos, é o retomar célere, das relações entre o Alto Minho e a Galiza. Sem descuidarmos, claro, os cuidados sanitários de combate à pandemia da covid-19”, conclui o presidente da Câmara de Cerveira.

Gente da fronteira

Ilídio Pontedeira cruza constantemente a fronteira entre Portugal e Espanha, para comprar tabaco e combustíveis. “A falta de convívio, com os amigos espanhóis, foi uma das coisas, que mais falta fez-me durante a pandemia. Este encerramento da fronteira, para o comércio e a restauração Portuguesa, por exemplo, ali do lado de Valença, foi fatal para os negócios”, conta Ilídio a O MINHO.

Ilídio Pontedeira. Foto:Tomás Guerreiro / O MINHO

“A Galiza é Portugal e Portugal é a Galiza, eu costumava cruzar a fronteira três ou quatro vezes por semana, hoje, vim apenas desfrutar um pouquinho de liberdade”, comenta, com um sorriso bem-disposto, Ilídio, natural da freguesia de Campos, em Cerveira.

Ana Filipa atravessa a ponte, que liga os dois países, enquanto empurra um carrinho de bebé. Antes da pandemia atravessava a fronteira todos os dias, “a minha mãe é esteticista em Tui e vive comigo e com o meu filho em Portugal”. Acaba de regressar a Valença, após almoçar com a mãe, em Espanha.

“Estou feliz que as fronteiras tenham reaberto. Dá para ir às compras, abastecer combustíveis e, para a vila de Valença, é necessário que os espanhóis voltem”, conclui esta reportagem, a jovem mãe em cima da ponte, enquanto o rio Minho corre aos seus pés.

Ana Filipa. Foto:Tomás Guerreiro / O MINHO

Ponte velha de Valença Foto:Tomás Guerreiro / O MINHO

Na quinta-feira, no final da reunião do Conselho de Ministros sobre a última fase de confinamento, o primeiro-ministro António Costa anunciou a reabertura, no sábado, das fronteiras terrestres com Espanha.

Do lado português, as fronteiras com Espanha estão abertas em todo o território nacional, com controlos móveis feitos pelas forças de segurança para alertar os cidadãos provenientes de países de risco para a obrigatoriedade de quarentena, anunciou no sábado o ministro da Administração Interna.

De acordo com uma notícia de sexta-feira da agência EFE, todas as comunidades autónomas de Espanha, exceto Madrid, Canárias e Baleares, decidiram manter cercas sanitárias, ao nível da comunidade, da província ou do concelho, até 09 de maio, com vista a a propagação da covid-19.

Ponte velha de Valença Foto:Tomás Guerreiro / O MINHO

A pandemia de covid-19 provocou, pelo menos, 3.203.937 mortos no mundo, resultantes de mais de 152,7 milhões de casos de infeção, segundo um balanço feito pela agência francesa AFP.

Em Portugal, morreram 16.977 pessoas dos 837.457 casos de infeção confirmados, de acordo com o boletim mais recente da Direção-Geral da Saúde.

A doença é transmitida por um novo coronavírus detetado no final de 2019, em Wuhan, uma cidade do centro da China.

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