Seguir o O MINHO

Colunistas

Porque não praticar ‘mindfulness’ na profissão que exercemos?

Por Vânia Mesquita Machado

em

Artigo de Vânia Mesquita Machado

Humanista. Mãe de 3. De Braga. Pediatra no Trofa Saúde – Braga Centro.

Atenção plena:
Parar, escutar, e olhar.
Porque não praticar mindfulness na profissão que exercemos?

Transversalmente a todas as profissões está a necessidade de sermos produtivos, inquestionavelmente importante para a sustentabilidade económica, quer no sector privado como no público.

Deixando modelos utópicos de sociedades ideais de lado, é importante ser pragmático e compreender que nenhum país cresce economicamente se a principal força motriz, as pessoas que todos os dias vão cumprir as suas responsabilidades nos seus respetivos empregos não o fizerem de forma competente, que implica grande capacidade de gestão de tempo e cumprimento zeloso das funções que lhes são incumbidas.

Mas a pressão subjacente à rentabilidade profissional é uma moeda de duas faces.
Os horários laborais colidem quase sempre com os familiares, num mundo em que se vive em modo fast food, em que praticamente deixamos de ser humanos.
Criamos uma espécie de avatar virtual dos nossos seres, e é esse humano robotizado que se levanta mal o dia nasce e cumpre as suas numerosas rotinas até ao final do dia.
Uma forma vertiginosa de viver, com o inevitável perigo do esquecimento do essencial: o nosso lado humano.

A sociedade ocidental é atualmente vítima de uma pandémica crise de valores, que coloca em risco a essência básica da Humanidade: sermos humanos.
Esta doença altamente virulenta estendeu-se a todas as áreas da nossa vida, atingindo todas as idades sem distincaode sexo , raça ou nacionlidade, não poupando estados civis, não selecionando habilitações profissionais, ideologias, crenças.

Importa tentar tratar a doença, usando dos meios de que dispomos, e começando nos nichos onde diariamente respiramos, provando a nossa real existência terrestre como humanos.

É preciso é arregaçar as mangas, e começar.

Podemos iniciar esse processo onde passamos a maior parte do tempo:
no nosso local de trabalho.

Apesar de se ter tornado moda há alguns anos, separemos o trigo do joio, nem tudo o que esta voga é cliché.
A atenção plena , conhecida por mindfulness pode ser uma preciosa aliada em nos desencarcerar da armadura do avatar virtual, e voltarmos a sermos pessoas.

Parar. Escutar e olhar. Atentamente.
Como na passadeira, regra básica para evitar que sejamos atropelados numa distração.

Estamos agora cada vez mais distraídos de sermos humanos.

E em todas as profissões, importa que continuemos a ser humanos.
Todos gostamos de ser bem atendidos no balcão da pastelaria, na bomba de gasolina, na caixa do supermercado.

Quando é a saúde está em causa, a necessidade de nos sentirmos acolhidos aumenta exponencialmente.

Sou pediatra há quase 2 décadas, e tenho 3 filhos.
Sei perfeitamente a angústia sentida quando um filho tem uma dor ou uma doença.

Infelizmente, ouço relatos de quem não se sente humanamente acolhido.
Um dos motivos é o meio digital ter substituído o papel, que facilitava olhar o doente nos olhos,a escrita intercalada com esse contacto mais pessoal do que o teclar ininterrupto que exige mais atenção, o olhar quase hipnotizado pelo monitor, o tempo a passar e a deixar de haver tempo para escutar com o coração a pessoa doente.

A medicina tem um q.b. de exatidão, mas uma imensurável dose de psicologia, só possível com a atenção plena, a cada doente na sua vez.

Mesmo que, vezes sem conta.

E vezes sem conta entram os pais com os seus filhos, no consultório.
Vezes sem conta ouço-os falarem das febres, das dores, das faltas de apetite, vezes sem conta ausculto os seus meninos e lhes palpo a barriga, vezes sem conta lhes espreito os ouvidos e a garganta, o terrível pauzinho inimigo dos meninos e meu também, a bata branca a transformar-me num monstro temível pior que o bicho papão.

Vezes sem conta digito a história clínica no computador, vezes sem conta registo o exame físico, a doença diagnosticada,a medicação prescrita.

E depois de tantas vezes que lhes perdi a conta, porque os anos voaram desde o dia solene em que jurei dedicar-me à missão de tratar de pessoas doentes, e me especializei a tratar dos mais pequeninos, comecei a compreender que curar é muito mais do que o que os livro onde queimei pestanas anos a fio me ensinaram.

Que apesar de vezes sem conta, um doente não se conta, cada um é uma pessoa diferente.

Curar é uma arte, que implica doses infinitas de paciência, e uma empatia que transborde para sedimentar a confiança de quem vem ter comigo pedir ajuda num momento tão frágil como a doença.
No meu caso, médica de crianças, é importante também tentar tirar as dúvidas do difícil e longo curso de pais, que não existe oficialmente e que se vai aprendendo progressivamente, com cada filho que nasce.

Vezes sem conta, mas um de cada vez, igualmente importante.

E todos os dias desloco ligeiramente o monitor de posição de forma a poder olhar melhor nos olhos dos pais e dos filhos, sentados a seu lado numas cadeirinhas pequenas coloridas , úteis também para eu me sentar ao pé da mãe ou do pai quando leio na expressão dos meninos a palavra medo e o choro está quase a chegar, e é melhor serem observados no aconchego do colo.

No fundo é uma forma de mindfulness em Medicina, em que a dedicação tem necessariamente de ser total a cada ser humano que nos passar pelas mãos.

No meu caso, aprendi ainda a exercer a medicina do abraço, a medicina do sorriso, a medicina da maior delicadeza possivel para não assustar os meninos.

Não é fácil praticar medicina atualmente, as pessoas que muitas vezes nem conhecem bem o doutor entram de pé atrás, com receio de não serem recebidas como pessoas, com medo das doenças serem mais graves do que são, dos tratamentos não serem adequados.
O Dr google médico de bastidores a encher de dúvidas, a partilha com amigos das dores e das queixas a criar a incerteza, o pavor das epidemias de doeças galopantes a assombrar a já tremida relação médico-doente, antigamente tão sólida, sendo inquestionável o que o doutor dizia com palavras muitas vezes impercetiveis.

Hoje em dia todos palpitam sobre as doencas.
Hoje em dia tudo fica registado nos computadores, com a vantagem de mais facilmente se aceder a informaçao, mas com a inevitável desvantagem das pessoas se sentirem menos acolhidas na partilha das suas dores.

Somos médicos de humanos reais, não de humanos virtuais digitalizados virtualmente em processos informatizados.
Doutores de pessoas, não de monitores.

E esta forma de agir profissionalmente, tão importante quando o que está em questão são vidas humanas, pode ser aplicada em qualquer profissão.
Em todas se praticam inúmeros atos que envolvem pessoas , vezes sem conta.

Vezes sem conta.
Um de cada vez.
Parar, escutar e olhar…
Para deixarmos de ser distraídos na passadeira da vida, e nos atropelarmos uns aos outros pela pressa que gerou a pandemia da falta de valores.

Vânia Mesquita Machado
25 novembro 2019

Populares