O Vitória Sport Clube sopra hoje, dia 22 de setembro, cem velas. No seu palmarés, em termos de troféus nacionais, tem uma Supertaça e uma Taça de Portugal, mas o seu maior património são os sócios que nunca abandonaram o clube, mesmo nas piores horas, como quando foi despromovido a II Divisão. Na cidade portuguesa onde mais crianças são batizadas com os nomes “Afonso” e “Vitória”, isso não é alheio a gratidão da população para com um clube eclético, como já poucos, que movimenta centenas de crianças, jovens e pessoas com limitações, nas suas 15 secções amadoras.
“Numa tarde do mês de julho de 1918 depois do regresso do liceu, onde tinham acabado uma partida com outros estudantes, reuniram-se na casa do António Pires, ali na rua de Vila Verde, o Alberto Carlos Abreu e o António Antunes Castro. Comentou-se largamente o jogo e, por fim, a conversa estendeu-se à fundação de um clube…”, esta é, segundo Raul Rocha, a mais antiga referência ao Vitória Sport Clube, contada no “Norte Desportivo”, a 06 de fevereiro de 1938.

A data convencionada para contar a antiguidade do clube vimaranense foi a da fundação da Associação de Futebol de Braga de que o clube foi fundador. A simples constatação de que o Vitória aparece na ata de constituição desta associação é bastante para pôr em evidência que o clube já tinha de existir anteriormente. Raul Rocha, no livro que escreveu, por ocasião dos 75 anos do clube, diz que “o Vitória não nasceu em nenhum ano concreto, mês, dia, hora”. O Vitória terá sido “um dos muitos grupos organizados de futebol que a juventude vimaranense dos anos 20… fundou para ocupar os seus tempos de lazer…”, acrescenta. Esta juventude era, obviamente, parte das elites que estudavam e que, já naquela época, dispunham de tempos livres.
O nome, “Vitória”, parece ter sido inspirado pelo Vitória de Setúbal (fundado em novembro de 1910) que, no final da segunda década do século XX, se apresentava em grande plano. António Macedo Guimarães é apontado como o primeiro presidente do Vitória. Era um comerciante, dono da Chapelaria Macedo, onde se fabricavam e vendiam os chapéus que, na época, faziam parte da indumentária urbana masculina. Ao que parece, António Macedo Guimarães tinham um conhecimento muito alargado sobre o futebol, de forma que era simultaneamente dirigente, organizador, treinador e árbitro.
A polémica sobre o primeiro presidente
Este chapeleiro, tido como primeiro presidente, contudo, só foi eleito em dezembro de 1923, para o exercício de 1924. O VSC não podia, portanto, ter participado na fundação da AFB, em 1922, com uma primeira direção eleita em 1923. Inquietado por este desfasamento temporal, o historiador António Amaro das Neves mergulhou no arquivo e encontrou referências a uma direção, presidida por Mariano Fernando da Rocha Felgueiras, em fevereiro de 1923. “Provavelmente uma direção eleita em dezembro de 1922 para o exercício de 1923, como era costume naquela época”, esclarece. Embora as duas teses alimentem uma discussão sobre quem foi realmente o primeiro presidente, elas encontram-se na ideia de que o Vitória “não nasceu”, foi sendo criado pelas gentes da cidade apaixonadas pelo futebol.

O problema de qualquer clube em formação era – e ainda é – ter um campo de jogos e balneários. Calculava-se em 15.000 escudos (cerca de 75 euros) o investimento para a construção e os custos anuais com pessoal e manutenção em 8.660 escudos (43 euros). O primeiro local de jogo do Vitória foi o Campo Zé Minotes. Este campo seria de pouca dura porque, menos de um ano depois da inauguração, o proprietário do terreno decidiu construir ali a sua moradia. Este revés acabou por impedir o clube de competir no Campeonato Distrital de 1924/25. O Vitória só viria a ter um novo local de jogo, o Campo da Perdiz, em junho de 1925. Em 1926, o Vitória ainda iria absorver o outro emblema da Cidade Berço, o Atlético Clube de Guimarães, ficando a partir daí, hegemónico.

Antes do fim da década de 1920, o clube entrou num período de crise, um pouco como a cidade, devido a perda da população militar, pela extinção do Regimento de Infantaria 20, até essa altura aquartelado no Paço dos Duques de Bragança. Talvez o único facto que se pode sublinhar nestes anos seja o desenho do emblema do clube, em uso até hoje, pelo capitão Mário Cardoso.
A refundação na década de 1930, o primeiro título e a subida à I Divisão
O ano de 1931 é frequentemente mencionado como o da refundação. É a partir desta data que se começam a fazer esforços para a construção do Campo de Benlhevai, que acabou por ser inaugurado em 24 de janeiro de 1932. Na inauguração deste novo recinto de jogo, estiveram três mil pessoas. Em 1936/37 surge o primeiro título, com o triunfo no Campeonato da AFB, proeza repetida no ano seguinte. Durante a maior parte da década seguinte, entre 1939/40 e 1945/67, o Vitória dominou este campeonato, arrecadando mais sete títulos.

A década de 1940 é rica em acontecimentos para a história do VSC. Em 1942, a 18 de janeiro, o clube disputa pela primeira vez um desafio na categoria principal (I Divisão). Dai em diante, durante 14 épocas, o emblema do Rei estaria sempre presente na principal prova do futebol português. A certa altura, nem mesmo os históricos Académica de Coimbra e Vitória de Setúbal, tinham tantas presenças na I Divisão como o clube de Guimarães.
Nesse mesmo ano, uma equipa amadora, “constituída por jogadores da terra”, apura o Vitória para a sua primeira final da Taça de Portugal. O troféu foi disputado com o Belenenses e o jogo saldou-se por uma derrota (0-2). Sublinhe-se que, por esses anos, havia não três, mas quatro grandes: Benfica, Sporting, Porto e Belenenses.
É também nos anos quarenta que o Campo de Benlhevai é abandonado em detrimento do Campo da Amorosa, um pouco mais desviado do centro da cidade. Estes foram também os anos que viram o clube profissionalizar-se. Nunca mais haveria uma equipa feita de boa vontade e amor à camisola, como a da final de 1942. Isso começou a notar-se também no vai-e-vem de treinadores. A Alberto Augusto, que esteve vários anos nos comandos da equipa, sucedeu-se, entre 1942 e 1955, Artur Baeta, Alfredo Valadas, Janos Biri, Alexandre Peics, Cândido Tavares e Galloaway.
A primeira modalidade além do futebol: o hóquei em patins
Os primeiros passos no sentido do ecletismo, que hoje se reconhece ao Vitória, foram dados a partir da década de 1950. A primeira modalidade amadora (como agora são chamadas) do VSC foi o Hóquei em Patins e terá durado até 1958. Recorde-se que, nesta época o hóquei era, a par com o ciclismo, uma das modalidades preferidas dos portugueses.

A época de 1954/55 marca o fim de um ciclo com a descida à II Divisão. A subida ao escalão principal só foi alcançada novamente em 1958. Um empate no dia 15 de junho de 1958 garantiu a subida e “a cidade encheu-se de vitorianos para comemorar o regresso à I Divisão, numa altura em que se anunciava a vinda a Guimarães de Humberto Delgado, em campanha para a presidência da República. A massa humana que o VSC movimentou nos festejos foi já de uma grandeza tal que se confundiu com os apoiantes do “general sem medo”.
Pela primeira vez nas competições europeias
A partir desta altura, o Vitória começou a intrometer-se regularmente entre os grandes no resultado dos campeonatos. Foi terceiro classificado no campeonato de 1968/69 e antes tinha feito três quartos lugares, em 1960/61, 1963/64 e 1965/66. O terceiro lugar no ano em que o homem pisou pela primeira vez a lua, deu ao Vitória a possibilidade de jogar, pela primeira vez também, uma competição europeia, no caso a Taça das Cidades. Além da participação nesta competição, o clube promoveu-se além-fronteiras com uma digressão pelas antigas colónias portuguesas, em 1959, pelos EUA, em 1964 e pela Venezuela, em 1966.
O Estádio Municipal (muito mais tarde viria a ser D. Afonso Henriques) passou a ser a casa do Vitória, a partir de 3 de janeiro de 1965. O último jogo no Campo da Amorosa foi um VSC x Torreense (2-0), numa altura em que ainda era possível, em certas circunstâncias, jogar partidas do escalão principal em campo pelado.

Ao longo da década de 1970, o Vitória disputou competições europeias em 1969/70 e 1970/71 e fez um quarto lugar, de má memória, em 1974/75. A época de 1974/75 só ficou decidida na última jornada, num célebre Vitória x Boavista (1-2), em que a arbitragem de António Garrido foi fortemente contestada. No ano seguinte, o Vitória disputou pela terceira vez a Taça de Portugal, novamente com o Boavista e mais uma vez foi derrotado (1-2). Inexplicavelmente, o arbitro nomeado foi o mesmo Garrido que tinha deixado tão má impressão no ano anterior.
Pimenta Machado fica 24 anos de presidência
Em 1980, chegaria à presidência do VSC um homem que deixou o seu nome inscrito na história do emblema vimaranense: António Pimenta Machado. A património imobiliário do clube foi constituído neste período. Pimenta Machado abriu uma “guerra” com o Município pela posse do estádio. A contenda só ficou resolvida, em 1989, quando a Assembleia Municipal votou favoravelmente a passagem da posse do estádio, hoje conhecido por D. Afonso Henriques, para o Vitória. Era ano de eleições autárquicas e António Magalhães (candidato do PS) viu-se obrigado a ceder naquilo que sempre se mostrara intransigente. Os políticos perceberam que, em democracia, era preciso contar com a força do Vitória para vencer eleições. Por isso, as comissões políticas do PS e do PSD assinaram com o clube um protocolo que previa, não só a transferência de propriedade do estádio, mas também um subsídio de 500.000.000 escudos (500.000 contos, como se usava dizer para simplificar a compreensão e as contas de uma moeda altamente inflacionada, ou seja, 2,5 milhões de euros), para a construção de uma nova bancada.

Pimenta Machado “reinava”, mas havia oposição e milhares de sócios a participarem nas assembleias e nas primeiras eleições verdadeiramente disputadas, em 1984. No mandato que se seguiu, corria o ano de 1986, o Vitória assinou com o Governo e o Município um protocolo para a edificação do Complexo de Treino, agora conhecido como Complexo Desportivo António Pimenta Machado (junto ao Parque da Cidade).
A Supertaça de 1988 foi o primeiro troféu nacional
O Vitória fechou a década de oitenta com chave de ouro, alcançando o seu primeiro troféu nacional, a Supertaça, em 1988. A última década do século XX, viria a ser um período de conclusão de projetos lançados no período anterior. Para começar passou a ter uma nova sede social – substituindo a anterior, na rua D. João I, que datava da década de 1950 – situada num complexo desportivo moderno, como os clubes ditos grandes só viriam a ter anos mais tarde. O Estádio D. Afonso Henriques foi renovado para receber o Mundial de Juniores de 1990 e passou a contar com uma nova bancada custeada pelo Município. O concurso para a construção do Pavilhão da Unidade Vimaranense (onde jogam as modalidades amadoras), foi lançado em 1995. No plano desportivo houve altos e baixos: por um lado foram garantidas cinco participações em provas europeias, por outro, o clube tremeu com a perspetiva de poder descer de divisão em 1990/91 e 1992/93. Em 1996/97, o Vitória eliminou o Parma, (na altura um grande de Itália e da Europa), na 1º eliminatória da Taça UEFA, com uma derrota fora (1-2) e um triunfo claro (2-0) em casa.

Pimenta Machado saiu em 2004, 24 anos depois de ter sido eleito presidente pela primeira vez. Nesse mesmo ano disputou-se, em Portugal, o Euro 2004 e o Estádio D. Afonso Henriques foi um dos eleitos, beneficiando de grandes melhorias. A época de 2005/06 não deixa boas recordações aos vitorianos: saíram da Taça UEFA sem nenhuma vitória e o 17º lugar no Campeonato condenou o clube a despromoção. Ficaram celebres as imagens do Estádio D. Afonso Henriques cheio, em jogos da II Divisão, a época seguinte, provando que o casamento entre o clube e a cidade era “para o melhor e para o pior”.
O basquetebol e o voleibol também dão alegrias aos sócios
Logo em 2008/09, o Vitória estava de novo no topo do futebol nacional, ficando em terceiro no Campeonato Nacional. Esta foi uma época de grandes feitos também nas modalidades amadoras, com o basquetebol e o voleibol a conquistarem Taças de Portugal. A primeira década do novo século terminaria com mais uma final da Taça de Portugal, desta vez perdida para o FC Porto (6-2). Mas não tardaria muito até que a sala de troféus do D. Afonso Henriques pudesse exibir a Taça de Portugal.
Finalmente a Taça que tantas vezes escapou ao Vitória veio para o Berço
Foi na época de 2012/13 que o Vitória trouxe a Taça de Portugal para o Berço, num jogo em que apesar de ter estado a perder (0-1) contra o SL Benfica, o Vitória viria a dar a volta, nos últimos dez minutos do jogo, acabando por vencer (2-1), com golos de Soudani e Ricardo Pereira. Mais uma vez o voleibol e o basquetebol acompanharam os bons resultados do futebol, chegando à final das taças das respetivas modalidades. O basquetebol acabaria por trazer para Guimarães a segunda Taça de Portugal, nessa época. O ano de 2012, com Júlio Mendes na direção, ficou marcado pela constituição de uma Sociedade Anónima Desportiva, abrindo um cisma entre os que acham que o clube deve ser dos sócios e os que entendem que a única forma de crescer e ser competitivo é atrair investimento.

Em 2016/17 o Vitória foi 4º classificado no Campeonato Nacional e assegurou um lugar na final da Taça de Portugal. A final da Taça de Portugal foi, provavelmente uma das maiores enchentes de sempre no Estádio Nacional. Com os bilhetes esgotados muito tempo antes, partiram de Guimarães 220 autocarros rumo ao Jamor. Muitos não tinham bilhete e acabaram por assistir ao jogo nas imediações do Estádio Nacional. O resultado não foi aquele que desejavam, com o Benfica a levar a melhor (2-1), mas ficou claro que em termos de apoio dos adeptos, salvaguardadas as dimensões das cidades em que se situam, não há nenhum clube em Portugal como o Vitória. Nesse ano, o Benfica voltaria a ser o carrasco do VSC, na Supertaça (2-1).
O Vitória Sport Clube chega aos 100 anos vibrante, tirando Benfica, Porto e Sporting, ninguém tem uma média de espectadores tão alta como o emblema do Rei, em 2021/22 foram 10.768. O clube que mais se aproximou ficou pelos 7.898. É o clube com mais adeptos, depois dos três grandes, com mais de 26 mil sócios e tem uma implantação enorme na sociedade vimaranense pela quantidade de crianças, jovens e pessoas com limitações que movimentas nas suas 15 modalidades amadoras.
Agradecimentos ao engenheiro Raul Rocha, ao historiador António Amaro das Neves e à Jornalista Sónia Sousa. Este trabalho mais não do que uma síntese dos escritos deles.