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Opinião

“O meu, o teu, o nosso, o vosso Filho”

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Artigo de Vânia Mesquita Machado

Pediatra e escritora. Autora dos livros “Microcosmos Humanos” e “Humana Seja a Nossa Dor”. Mãe de 3. De Braga.

Podia ser o meu, o teu o nosso, o vosso Filho.

Menino de olhos muito vivos mesmo gravemente doente, menino com pele de pêssego muito macia onde antes existia muito cabelo preto encaracolado, caído pelo tratamento ao mesmo tempo que as lágrimas da Mãe lhe caíam por dentro do rosto corajosamente, a Mãe ao seu lado muito bonita mas esgotada pela dor do Filho arrancado da infância despreocupada tão injustamente, sorria por fora, e de semblante carregado por dentro repetia mentalmente a palavra quimioterapia, palavra ríspida, dura, e indigesta mas cada vez mais nítida à medida que o tempo passava, mal necessário para combater esta maldita doença indesejada, instalada uns meses antes, infiltrada às escondidas no sangue do seu menino, disfarçadamente assim de repente como são sempre as doenças, o seu menino muito cansado, o seu menino rosado a ficar com a pele da cor da cera, ninguém sabia o que era, o seu menino sem apetite nenhum a arder em febres que nunca mais passavam, as análises na mão da doutora, a palavra leucemia soletrada pela doutora, não era um filme de terror a dor era bem real, e o pesadelo apenas começava, agora.

O destino a desviar o caminho conhecido, feliz e despreocupado, entre a casa a escola e o parque infantil das mil brincadeiras, o percurso até ao grande hospital sabido agora de cor percorrido religiosamente de três em três semanas, noites inteiras em claro a Mãe à espera de um milagre que tardava, a náusea a subir amarga à boca da Mãe na saída da autoestrada, rapidamente engolida e transformada em sorriso porque é preciso o seu menino sorrir muito, o sorriso é meio caminho andado para tratamento surtir efeito tinha dito o médico humano e experiente, enquanto avisava devagar que seria uma luta feroz mas que o seu menino iria vencer tinha a certeza disso desistir era a palavra proibida, aos poucos a explicar que a frieza do sítio onde mais uma criança com cancro iria ser recebida contrastava com o calor infinito dos corações de todos que o acolheriam com os braços abertos.

Calava a revolta dos anos à espera de um hospital novo para os seus meninos, Filhos emprestados, e cada governo que vinha chegava recheado de promessas vistosas de conforto para tratar doenças graves em meninos na sua terra, onde dedicara grande parte da vida à paixão da Medicina, Pediatra de coração, havia primeiras pedras colocadas no local da construção com pompa e circunstância, políticos e gente famosa de pose estudada para a fotografia, os governos iam depois embora, as promessas perdidas guardadas nas lembranças dos que se dedicavam a tratar dos meninos, projetos sucessivamente começados e abandonados, pelos anos fora.

Podia ser o meu, o teu o nosso, o vosso Filho.

A máscara a tapar-lhe o sorriso, a máscara falsa proteção do menino indefeso sentado na cadeira dura do corredor de luz branca, o tablet na mão para o distrair, não estava sentado no meio de corredor onde as pessoas que passavam abrandavam o passo e o olhavam com pena e incredulidade pela crueldade a que assistiam, um menino muito doente sentado numa cadeira dura a fazer tratamento de quimioterapia, hospital de dia de país do terceiro mundo, o menino não precisava de pena, não era criança doente nem era criança pequena, corria velozmente pelo campo sem cansaço nenhum, jogador de futebol, o melhor do mundo como o Ronaldo e marcava o golo de vitória numa outra história inventada pela sua imaginação, o remédio que lhe corria na veia pelo tubo comprido um elixir mágico poção de Obelix.

Terminado o tratamento seguia, muitas horas de espera depois, no elevador sombrio de mão dada à Mãe, o carrinho do lixo companheiro no trajeto, não era carrinho de lixo nenhum, o menino era esperto, era a carruagem de um comboio onde o Homem Aranha espreitava e lhe piscava o olho, fazendo-o esquecer a vontade de vomitar, o menino ficava depois internado num quarto com o chão esburacado, o frio gelado a entrar pelas frinchas das janelas a congelar intermitentemente o coração dos Pais já hibernado pelo medo que escondiam do seu menino em segredo, as janelas despidas de cortinas, a lembrar que lá fora a vida corria com normalidade para tantos outros meninos e meninas.

Podia ser o meu, o teu o nosso, o vosso Filho.

Não é. Mas é um menino real, são muitos meninos, fotografados no corredor de um hospital real também, notícia agora de jornal, local onde fazem tratamento de quimioterapia para a sua doença grave, a esperança nunca morre e em breve se irão curar e partirão em liberdade a voar para as suas vidas despreocupadas da infância outra vez, talvez possam vir a ensinar ao nosso mundo de adultos analfabetos o alfabeto da humanidade.

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Opinião

‘Segundo sexo’ em tempos incertos

Opinião de Liliana Matos Pereira – PS/Braga

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ARTIGO DE LILIANA MATOS PEREIRA

Presidente Concelhia das Mulheres Socialistas – Igualdade e Direitos de Braga. Vereadora na Câmara Municipal de Braga.

No final dos anos 40, Simone de Beauvoir escrevia O Segundo Sexo onde retratou as discriminações sofridas pelas mulheres durante séculos e os papéis secundários que ocuparam ao longo da História. A sociedade entendia o papel da mulher como um papel menor, sendo esta perspetiva aceite por todos. Só no séc. XIX, com a obrigatoriedade da escolarização, alguns lugares começaram a ser ambicionados.

Em muitos lugares do mundo, as mulheres ainda hoje são vistas e tratadas como cidadãos de segunda. Na China, por exemplo, as mulheres não podem conduzir ou trabalhar durante a noite. Na Malásia, as mulheres não se podem divorciar e casar novamente. Na Índia, uma mulher foi violada por cinco homens de uma casta considerada superior e, no seu julgamento, estes foram absolvidos apenas porque homens de uma casta superior não violariam uma mulher de casta inferior.

Em Portugal a realidade é distinta, assistimos já a mulheres na liderança de grandes multinacionais e a ocupar lugares de destaque na vida pública. Estas conquistas devem ser celebradas e disseminadas, mas nem tudo corre bem! Sabemos as várias dificuldades que ainda hoje todas nós sentimos para conseguirmos ser mulheres na essência completa do que ser mulher significa. As dificuldades nas entrevistas de emprego – mesmo quando somos as mais qualificadas e nos questionam, nem sempre de forma discreta, “E ser mãe? Está nos seus planos?” ou “E quando os seus filhos ficam doentes, como gere a situação?” – a diferença salarial, entre outras situações que nos fazem sentir a todas diminuídas enquanto profissionais e condicionadas porque nascemos com o segundo sexo.

Infelizmente ainda faltam dar largos passos para atingirmos a igualdade plena entre géneros. “Tempo para termos tempo”. Este foi o mote para uma campanha desenvolvida pela Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego, no final do ano passado, com o intuito de alertar para a diferença na partilha, entre géneros, de tarefas profissionais e domésticas.

Dados da Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género revelam que, em média, as mulheres dedicam diariamente mais 1h 45 min às tarefas domésticas que os homens. Nos últimos 20 anos, o tempo que o sexo masculino dedica a este tipo de trabalhos aumentou apenas 8 minutos, pelo que faltam 180 anos para que a divisão de tarefas domésticas seja igual.

Relativamente à educação e cuidados dos filhos, as mulheres asseguram 73% do trabalho (não remunerado), não se registando qualquer evolução na última geração relativamente ao contributo paterno nesta tarefa.

Em termos laborais o cenário é ainda mais desolador. No ano passado, 54,1% dos alunos matriculados no Ensino Superior eram do sexo feminino. 60% dos licenciados são mulheres.

Cerca de metade dos doutorados em Portugal são mulheres. Apesar disso, os homens continuam a auferir mais. Os últimos dados revelados pelo Governo, evidenciam que os homens ganham, em média, 1034,90 euros mensais e as mulheres auferem 886 euros, um diferencial de 14,4%. E sabemos que este diferencial é tanto maior quanto maior for o nível de qualificações, atingindo os 27,3% nos quadros superiores.

No que à precariedade diz respeito, Portugal é o terceiro país da União Europeia com maior proporção de trabalhadores em situação precária, sendo o número estimado de cerca de 1 milhão e 300 mil pessoas. Cerca de metade são mulheres, mas estes números preocupam ainda mais quando olhamos para as gerações mais novas, sendo 2 em cada 3 precários do sexo feminino.

A crise provocada pela pandemia Covid-19, provocou um enorme retrocesso nestas estatísticas. As várias medidas de confinamento implementadas evidenciaram ainda mais a fragilidade da condição profissional da mulher. Um dos valores que mais nos deve chamar a atenção são os números do desemprego: 90% dos 50 mil novos desempregados são do sexo feminino.

Várias podem ser as justificações apontadas, porque os seus vínculos laborais são mais precários ou porque são provenientes de setores mais afetados. A verdade é que alguns números são muito claros, as mulheres foram aquelas que mais recorreram aos programas de apoio às famílias, com 8 pedidos provenientes de mulheres em cada 10. Além disso, sabe-se que as mulheres tendencialmente fazem a renovação de pedido de assistência, mas os homens não. Se olharmos para aquelas que ficaram em casa em regime de teletrabalho, estas atingiram um nível enorme de exaustão, com a dificuldade em conciliar a vida profissional, familiar e doméstica.

Com todas as dúvidas sobre o comportamento da pandemia nos próximos meses, a indefinição acerca do funcionamento do próximo ano letivo, a eventual necessidade do apoio aos filhos e a consequente ausência dos locais de trabalho, muitas são as empresas que declinam contratar mulheres e renovar contratos de trabalho.

A este retrocesso de décadas para o mercado de trabalho e para o sexo feminino, junta-se a um estudo do Citigroup, que prevê uma perda de 1 bilião de dólares do PIB mundial, com a saída das mulheres do mercado de trabalho, em consequência da pandemia.

Quem- como eu – teve o prazer de ler Simone Beauvoir, no seu tratado sobre a condição feminina nos longínquos anos 40, questiona-se sobre o “agora” escrito há mais de sete décadas. É que não podia ser mais atual uma das mais significativas afirmações que nos deixou n’ O Segundo Sexo: ” Não se trata para a mulher de se afirmar como mulher, mas de se tornarem seres humanos na sua integridade”.

Liliana Matos Pereira
Presidente Concelhia das Mulheres Socialistas – Igualdade e Direitos de Braga
Vereadora na Câmara Municipal de Braga

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Opinião

CCDR-Norte não deve transformar-se em sindicato de autarcas do Norte

Opinião

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ARTIGO DE JOSÉ MARIA COSTA

Presidente da Câmara de Viana do Castelo e da Comunidade Intermunicipal (CIM) do Alto Minho.

As futuras funções da Comissão de Coordenação da Região Norte no atual contexto nacional e europeu podem ser de extraordinária importância para a coordenação e cooperação interinstitucional num contexto complexo de crise económica e social pós-Covid.

Se há momento em que necessitamos de conjugar investimento público e privado é este, tal como é urgente a necessidade de concertar as diferentes estratégias de desenvolvimento das sub-regiões e entidades do território para a dinamização das regiões do interior e de fronteira.

Nunca como agora o conhecimento e a inovação foram tão necessários como agora para oxigenar a atividade empresarial e a internacionalização das pequenas e médias empresas que constituem o perfil empresarial da região.

O reforço urgente da rede do ensino superior politécnico e universitário do interior, dotando-os de meios financeiros suficientes para promoverem o ensino e a inovação para que possam apoiar o tecido sócio económico das vilas e cidades do imenso interior de baixa densidade.

A densificação da estrutura técnica e organizativa da CCDR-Norte terá de ser uma prioridade face ao desgaste e erosão sofrida nos últimos anos para que possam apoiar os projetos e iniciativas de ordenamento e desenvolvimento que se avizinham face aos novos desafios que a região vai enfrentar nos domínios do ambiente, da energia, das cidades e dos transportes.

A construção de um projeto mais aprofundado de cooperação transfronteiriça com a Galiza e Castela-Leão em que se promova a cooperação mais estreita das instituições autárquicas, científicas e empresariais deve prosseguir com passos mais fortes e determinados num percurso que tem ainda muito para progredir.

O apoio na internacionalização da região, com uma maior articulação com a AICEP e Câmaras Comércio e o melhor aproveitamento das oportunidades de programas e fundos europeus, com uma presença mais forte em Bruxelas da região Norte, potenciando desta forma a integração das cidades da região norte nas redes europeias de cidades e incentivando as parcerias e redes de conhecimento com universidades europeias pode e deve ser uma das opções de governação da CCDR-Norte.

A componente cultural e turística da região tem de ser considerada um dos ativos mais relevante na competição saudável da região norte com outras regiões europeias, desenvolvendo estratégias de afirmação cultural e turística, contando com a participação dos atores do território e promovendo de forma mais consistente e coerente no exterior o enorme potencial que temos.

Perante este quadro de referência e de grande exigência da região parece me que a candidatura à futura presidência da CCDR-Norte não deve ficar submetida à usual lógica partidária autárquica de equilíbrios e calculismos partidários, mas sim ser aberta a todos os setores e atores do meio económico, social, académico e cultural.

A CCDR-Norte merece muito mais do que ser um mero sindicato autárquico para distribuir fundos comunitários de acordo com as regras e compromissos por vezes dissonantes das realidades regionais e sub-regionais. A região Norte é muito mais, mas muito mais que o somatório das autarquias, independentemente da qualidade das intervenções dos autarcas.

 

Viana do Castelo, 9 de junho de 2020

José Maria Costa
Presidente Câmara Viana do Castelo

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Coube-nos a nós

Opinião

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ARTIGO DE JORGE RIBEIRO

Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Melgaço.

Um século depois da última grande epidemia, coube-nos agora a nós viver neste período dramático. Um novo vírus espalhou-se por todo o mundo e obrigou-nos a mudar radicalmente a nossa forma de vida.

A doença provocada por este vírus é especialmente agressiva com os mais idosos. A sua ação tem sido por isso muito sentida em lares residenciais, onde a concentração de idosos proporciona o meio ideal para a propagação deste vírus. Todos os dias nos chegam relatos de situações trágicas vividas em lares dos quatro cantos do mundo.

Quis o destino que eu estivesse, hoje, à frente de uma instituição onde existem lares para idosos. Foi num desses lares que a doença bateu à porta a três de abril. Nesse dia despedi-me dos meus filhos, sem saber quando voltaria a estar com eles. Um mês depois, a luta contra a doença e o medo de os contagiar, ainda não deixaram que isso acontecesse.

O dia três de abril de dois mil e vinte há-de ficar sempre nas memórias de toda a família da Santa Casa da Misericórdia de Melgaço, em especial dos que estão ligados ao Lar Pereira de Sousa, como o dia em que o inferno nos caiu em cima.

Entre o pânico, as lágrimas e o medo da doença, tínhamos que continuar a fazer aquilo que fazemos todos os dias, tínhamos que garantir que os nossos idosos continuavam a ser cuidados.

Os nossos dias passaram a ser geridos minuto a minuto. A cada momento uma situação nova e mais difícil que a anterior se nos apresenta. Dia após dia.

Quando à noite encosto a cabeça na almofada, penso que falta menos um dia para isto acabar.

Nem eu, nem certamente ninguém dos que me acompanham, alguma vez viveram algo semelhante. Não estávamos preparados para isto. Ninguém está.

Mas estes são períodos reveladores. Entre outras coisas, permite-nos ver o melhor e o pior que há em cada pessoa. E permite-nos também perceber quem são as melhores e as piores pessoas.

Podia falar-vos aqui da muita maldade que vimos, que sentimos na pele. Podia falar-vos daquele pequeno grupo de pessoas que tentam aproveitar os momentos de fraqueza para prejudicar, para fazer mal, para destruir. Sem qualquer preocupação com aqueles que tentamos salvar. Pessoas que não fazem falta, que não melhoram a vida de ninguém.

Mas prefiro falar-vos do melhor que vivi, das enormes lições de vida que recebi, da quantidade de vezes que me arrepiei com a grandeza de algumas personalidades.

As notícias que íamos lendo e ouvindo na comunicação social, falavam de lares onde os idosos eram abandonados, ou onde um pequeno grupo de pessoas tentava prestar os cuidados mínimos, até ao limite das suas forças. Esta era uma ideia que nos aterrorizava – a qualquer momento poderíamos não ter equipa suficiente para cuidar dos nossos utentes.

A verdade é que nem a doença, nem o medo de adoecer foram suficientes para que isso acontecesse. A coragem, a responsabilidade e o espírito de missão das nossas colaboradoras falaram sempre mais alto e não permitiram que em momento algum faltassem cuidados aos nossos idosos. Para estas pessoas que me acompanham nesta batalha, dia após dia, sem outra preocupação que não seja o bem-estar daqueles a quem cuidam, a minha vénia, a minha imensurável gratidão.

A resposta dada pela comunidade foi imediata e em grande escala. De todo o lado foi chegando colaboração, mensagens de apoio e donativos dos mais variados géneros, desde equipamentos de proteção a alimentos. As populações e entidades locais, públicas e privadas, disseram presente de uma forma que deixou bem claro que, nos momentos de aflição, somos uma comunidade, unimos esforços.

Numa onda de solidariedade que se estendeu até Lisboa, chegaram à nossa instituição os voluntários. Mais de uma dezena de jovens, com as mais variadas formações académicas e profissões, vieram até nós, disponibilizando-se para o que fosse necessário. Sem esperar nada em troca, a não ser a satisfação de poder ajudar. “Não podíamos ficar em casa, sabendo que estes idosos precisam de ajuda”, diziam. Inundaram a instituição de carinho. Não tenho palavras para exprimir a admiração que sinto por estes homens e mulheres. São eles o garante de um futuro melhor para a humanidade.

Mas a maior lição de vida veio certamente dos nossos idosos. De um dia para o outro viram-se privados de visitas. Há quase dois meses que não recebem um abraço dos seus familiares, algo que as novas tecnologias ainda não substituem.

Mais tarde, passaram a não ter as suas atividades normais, a não conviver como habitualmente. Deixaram até de reconhecer os rostos daquelas que todos os dias lhe prestam cuidados. As máscaras, as viseiras, os fatos passaram a fazer parte do seu dia a dia.

Muitos deles não compreenderão bem o que está a acontecer. Mas confiam e acreditam que estamos a fazer o melhor para eles. E serenamente esperam por dias melhores. Com aquela serenidade que tanto precisamos e apenas os anos de vida trazem.

No entanto, não conseguimos salvar todos. Apesar de todos os esforços de toda esta gente, alguns dos nossos idosos foram vencidos pela doença. É para eles e para as suas famílias que vai o nosso pensamento. Queríamos continuar a tê-los entre nós. São eles o centro da família Santa Casa e é por eles que existimos e que trabalhamos diariamente.

Sairemos disto pessoas diferentes. Acredito que melhores, mais fortes, mais solidárias, mais preparadas para lidar com as adversidades da vida, que serão sempre pequenas, comparando com o que estamos a atravessar.

Santa Casa de Melgaço passa “maior crise” dos últimos 100 anos

Na parte que me diz respeito, na parte que toca à Santa Casa da Misericórdia de Melgaço, estamos mais unidos do que nunca à volta da nossa missão.

Esperamos que este flagelo tenha um fim rápido, com um pensamento que nos acalenta em cada fim de dia – os nossos idosos nunca se sentiram abandonados.

Jorge Ribeiro – 13 de maio, 2020

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