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Neno (1962-2021). A história de vida do eterno relações públicas do Vitória

Antigo futebolista morreu aos 59 anos

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Foto: Liga Portugal

O pai era um homem conservador (Salazarista nas palavras de Neno), não gostava que os sete filhos jogassem futebol, as duas meninas nem se falava e a cantoria também não lhe agradava. O professor apreciava o silêncio e dava tostões ao Neno para que se calasse e o deixasse trabalhar. Nada correu como o senhor Augusto Barbosa Barros planeava. Neno deu jogador de futebol e cantor.

Era através de acordos com a mãe, mais tolerante, que Neno e os irmãos conseguiam abertura para jogar. “Tens de estar em casa antes do teu pai chegar”, dizia-lhes.

Jogar à bola “era uma coisa de que gostava muito”, mas cantar encantava-o. O primeiro ídolo foi Roberto Carlos, mais tarde Júlio Iglésias.

Foto: DR

Faltar às aulas ou não ter boas notas era coisa impossível, em casa de professor, que, ainda por cima, conhecia os colegas e mantinha-se informado. A vontade de dar uma boa educação aos filhos terá sido o motivo por que, após o 25 de abril, a família se mudou para Portugal. Isso e as simpatias pelo regime do Estado Novo que o pai cultivava e que não lhe garantiam grande futuro em Cabo Verde.

Lembrava sempre o frio que sentiu no primeiro inverno no Barreiro. Impossibilitados de trazerem muitos haveres, a roupa era pouca e adaptada ao clima dos trópicos, também não havia dinheiro para comprar nova. O Barreiro nem é tão frio como o frio que havia de encontrar quando, mais tarde, veio para Guimarães, mas naquela altura parecia-lhe gelado.

O jogo da bola, na rua está claro, era a forma como os rapazes socializavam na década de 1970. Bom de bola e com uma capacidade natural para o relacionamento, o Barreiro tornou-se o seu elemento natural num instante.

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Dava nas vistas a jogar na rua, era “elástico” (alcunha) e não demorou a aparecer no Santoantoniense e depois no Barreirene, tinha 13 anos. Do pai recebeu o aviso: “Ao primeiro chumbo acaba-se o futebol”.

“Em Cabo Verde toda a gente é do Benfica, até hoje”, disse uma vez numa entrevista. Pelo Bento e pelo Eusébio, Neno também tinha simpatia pelo clube da Luz. Mas confessou que também simpatizava com o Sporting, por causa do Damas. Os guarda-redes são um mundo à parte.

Aos 15 anos, Benfica, Sporting e Vitória de Setúbal andavam atrás do rapaz que ainda nem jogava com luvas. Quando subiu à equipa principal do Barreirense, na equipa havia dois guarda-redes experientes e chegou o rapaz dos juniores. O certo é que, mesmo a contragosto do treinador, Neno impôs-se, no primeiro jogo que fez até penáltis defendeu.

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Naquela altura, o Barreirense era o clube de formação do Benfica. Aos 22 anos, naturalmente, Neno assinou pelo clube da Luz, ganhava 5 contos, estávamos em 1984. O mítico guardião Bento ofereceu-lhe as primeiras luvas. “Era o meu ídolo”, confessava. Continuou a jogar no Barreirense e a treinar na Luz. Quando foi mesmo para o Benfica para jogar, ganhava 100 contos.

Confusão de treinadores, as coisas nos Benfica não correram bem e Neno começou a fazer pressão para sair. Foi assim que chegou a Guimarães a primeira vez. “Quando cheguei senti-me logo em casa”, dizia. Esteve dois jogos no banco, mas rapidamente tomou o lugar de Jesus e fez uma época espetacular. Tão boa que o Benfica o chamou de volta. Mantinha contrato com o Benfica.

Voltou a casa dos pais, no Barreiro. As idas para os treinos eram na carrinha do Bento, a tresandar a peixe, porque este tinha um negócio de peixaria. Contava que aprendeu muito com o antigo guarda-redes da seleção, nesse tempo. Mesmo assim foi para o Vitória de Setúbal, ser suplente do Bento era um estatuto, mas o que queria era jogar à bola.

Pimenta Machado foi buscá-lo a Setúbal. Nessa época, fez todos os jogos e conquistou a Supertaça. As boas exibições em Guimarães fizeram com que o Benfica, com quem mantinha contrato, voltasse a rondar. Por esses dias já tinha envergado a camisola da seleção A, um feito para um jogador do Vitória, numa altura em que o peso dos “grandes” na seleção era ainda maior que hoje.

Era o tempo de Eriksson e de Silvino a guarda-redes. Voltou a deixar Guimarães de coração partido. Mas Guimarães, a ele não lhe sairia do coração nunca mais. Casou no Berço, em 1990. Quando volta à Luz, uma parte de si já fica na Cidade Berço.

Foi dividindo a baliza com Silvino, de tal forma que é difícil dizer quem era o titular. Foi duas vezes campeão pelas Águias. Na seleção havia Victor Baía e Silvino, os tempos não eram fáceis para chegar à baliza.

“O Michel foi o melhor guarda-redes que eu conheci na minha vida. Michel Preud’homme e Bento, não há mais ninguém”, opinião de quem sabe do que fala e Neno sabia.

Com Preud’homme, “o melhor do mundo”, na baliza do Benfica, Pimenta Machado voltou ao ataque e ultrapassou o Sporting na corrida pelo Neno.

Na última época em Guimarães magoou-se num treino, caiu para dentro da baliza e ficou com os dentes presos na rede, deslocou um maxilar e foi operado nessa noite. Voltou como suplente do Pedro Espinha, mas por onde o Vitória andava, a bancada levanta-se para o aplaudir. Amor com amor se paga.

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Mas, não era homem de banco de suplentes, por isso, passou para a direção técnica. Em 1998/99, era diretor técnico e terceiro guarda-redes. Foi diretor desportivo, secretário técnico, treinador de guarda-redes, relações-públicas.

Este último cargo assentava-lhe como uma luva. Era naturalmente empático e depois tinha uma vocação para o palco, gostava de cantar, o seu ídolo era Júlio Iglésias que deixou de jogar futebol para se dedicar à música, no ano em que Neno nasceu, 1962.

Gravou CD´s e teve oportunidade de conhecer o seu ídolo musical que lhe ofereceu um fato e uns sapatos. Nada de mais, afinal Neno era um excelente promotor das músicas do Iglésias que cantava com primor. Trinta anos depois, ainda vestia o fato que guardava religiosamente.

Cantava, principalmente para ajudar e se nunca seguiu uma carreira de cantor profissional, não foi por falta de talento, foi porque o futebol continuava a tomar-lhe o tempo todo. Prisões, hospitais, festa de angariação de fundos,

Neno lá estava sempre disponível para ajudar e espalhar alegria.

Partiu na quinta-feira, dia 10 junho, tinha 59 anos.

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