Médicos internos não desistem de fazer carreira no SNS apesar das falhas

Foto: Lusa

Jovens médicos internos com vontade de fazer carreira no Serviço Nacional de Saúde (SNS) apontam falhas estruturais no sistema, mas não desistem do seu objetivo, apesar da falta de atratividade e insuficiência de recursos humanos.

Na véspera da realização de três marchas, em Lisboa, Porto e Coimbra, contra a “degradação do SNS”, convocadas por vários sindicatos e com a participação de movimentos de utentes, três médicos ainda a realizar internato reconheceram perda de poder de compra e um “planeamento de recursos humanos mal feito”.

Em declarações à agência Lusa, José Rodrigues, médico interno de Ortopedia no Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, de 26 anos, diz que “gostaria de continuar no SNS” como especialista.

“Ainda que não seja um sim absoluto – é um sim condicional -, sim, gostaria de continuar”, realçou.

Considerando o SNS “uma das maiores conquistas” da democracia portuguesa, o jovem enaltece o seu papel na promoção da saúde pública, lembrando que atualmente “não se pode viver só do idealismo”.

“Esse é que é o grande problema no SNS neste momento. (…) Na verdade, há uma insuficiência cada vez mais gritante de recursos humanos, que é a mais-valia do SNS” disse, lamentando que o problema se agrave progressivamente, o que é “um sinal de doença do SNS”.

Para José Rodrigues, a saída dos especialistas coloca em causa a rapidez e a forma como os médicos conseguem prestar cuidados aos doentes.

“(…) A longo prazo também coloca, de certo modo, em causa a formação dos internos, porque são os especialistas que são o exemplo – os mestres – e também dão orientação na formação dos internos atuais e especialistas durante as próximas décadas”, acrescentou.

Também a médica interna em formação geral no Centro Hospitalar do Tâmega e Sousa (sediado em Penafiel) Ana Diogo Coutinho, de 24 anos, contou à Lusa que “gostava muito de fazer carreira no SNS”, apesar de ainda não ter iniciado a especialidade.

“Eu acredito muito na missão do SNS e acho que temos um SNS que funciona”, disse, considerando, ainda assim, que o serviço público de saúde se encontra subfinanciado e que Portugal está “aquém do seu potencial”.

“Acredito que os profissionais que lá trabalham – não digo apenas médicos, enfermeiros, auxiliares de ação médica, fisioterapeutas, técnicos – não têm condições laborais” equiparáveis às de outros países da União Europeia, sustentou.

Assinalando falhas no planeamento de recursos humanos, Ana Diogo Coutinho sublinhou que os profissionais de saúde não estão satisfeitos com o SNS, “não pelo que ele representa, mas sim pelas condições que é possível dar aos doentes”.

“As listas de espera são intermináveis. As infraestruturas dos hospitais não estão preparadas para o número de doentes que têm à sua responsabilidade, portanto, acho que, de uma forma geral, o SNS está aquém do que poderia ser”, salientou.

Além disso, a médica lembrou que a saída de especialistas compromete a formação.

“Com a saída de especialistas, acabamos por não conseguir dar uma formação tão boa, porque claramente temos menos pessoas a ensinar, menos pessoas a tutelar (…). Com um número mais baixo de especialistas é mais difícil todos os médicos internos atingirem os seus requisitos essenciais para uma formação”, afirmou.

Por seu turno, Edgar Simões, médico interno de Saúde Pública no Agrupamento de Centros de Saúde Loures-Odivelas (ACES Loures-Odivelas), de 28 anos, adiantou que não sabe se vai exercer no SNS quando acabar o internato, dizendo que “ainda está numa fase de descoberta” daquilo que pretende.

“É óbvio que trabalhar no SNS é atrativo em muitas vertentes: A pessoa diferencia-se, aprende muito e acaba, pelo enquadramento atual, por ter muitas oportunidades de se destacar. Mas, por outro lado, as condições de trabalho são pouco competitivas”, observou.

Falando no seu caso pessoal, mas sem revelar as suas pretensões futuras, o jovem contou que já tem aprovação para fazer o segundo ano do internato no estrangeiro.

“Faço-o porque vou para uma universidade com muita credibilidade internacional, mas também, porque quero explorar opções lá fora”, disse.

Todavia, Edgar Simões perspetiva “um grande problema” quando os médicos que estão na casa dos 60 anos se reformarem, porque, segundo o próprio, “vai haver muitos desafios à qualidade do internato e à capacidade de formar médicos de Saúde Pública”.

“Na minha especialidade, não fazemos urgência e, portanto, (…) talvez não dê tantos títulos noticiosos, porque a falta de médicos de Saúde Pública não é tão óbvia. Os efeitos não são tão óbvios. Os efeitos negativos são insidiosos e mais lentos, mas sem dúvida que é uma das especialidades mais afetadas, porque há um grande problema de demografia”, acrescentou.

As marchas em defesa do SNS Profissionais de saúde, utentes e sindicatos do setor participam no sábado numa marcha em defesa do Serviço Nacional de Saúde (SNS), uma iniciativa que terá uma “forte participação”, perspetivam os seus promotores.

“Do nosso ponto de vista, o SNS, se nada for feito, corre o risco de implodir”, adiantou à agência Lusa o coordenador Federação dos Sindicatos da Função Pública (FNSTFPS), uma das várias entidades que promovem a marcha que vai decorrer nas cidades de Lisboa, Porto e Coimbra.

Segundo Sebastião Santana, a “Marcha pelo Direito à Saúde” tem tido uma adesão “em linha com a importância do SNS”, o que quer dizer que vai registar uma “forte adesão” dos trabalhadores da saúde, dos utentes e dos seus movimentos representativos, dos sindicatos e até de outras entidades como associações de bombeiros.

“Estamos a viver um quadro muito difícil para quem trabalha no SNS, mas, mais do que isso, para o próprio serviço público. A falta de recursos é enorme e os profissionais estão exaustos”, adiantou o dirigente sindical, para quem, se não forem revertidas as atuais políticas para o setor, pode-se “chegar a um ponto de irreversibilidade”.

De acordo com Sebastião Santana, a situação de “degradação do SNS” vem-se acentuando há mais de 10 anos, “com um desinvestimento crónico e um subfinanciamento absurdo” das instituições de saúde públicas.

A Federação Nacional dos Médicos (FNAM), apesar de não ser uma das entidades promotoras, vai também estar presente na marcha, assegurou à Lusa a sua presidente, alegando que o “SNS precisa mesmo de ser salvo”.

“Vamos participar no sentido da defesa da nossa profissão, mas também de todo o SNS”, adiantou Joana Bordalo e Sá, ao salientar que “existem médicos em Portugal, não existem é médicos suficientes” nos hospitais e centros de saúde públicos.

Segundo referiu, a solução para o SNS ter mais médicos “é apontada todos os dias” ao Governo, através das propostas que a FNAM apresenta ao ministério para a melhoria das condições de trabalho, algumas das quais não implicando mais recursos financeiros.

Joana Bordalo e Sá sublinhou ainda que os recém-especialistas “não veem qualquer perspetiva de um projeto profissional, de serem valorizados e de poderem progredir”, o que está a contribuir para que o SNS continue a ter dificuldades em reter médicos.

A marcha de sábado é organizada pela Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses — Intersindical Nacional (CGTP-IN), Federação dos Sindicatos da Função Pública (FNSTFPS), Sindicato Nacional dos Trabalhadores da Administração Local e Regional (STAL), Sindicato dos Enfermeiros Portugueses (SEP), Sindicato Nacional dos Técnicos Superiores de Diagnóstico e Terapêutica (STSS) e Movimento de Utentes dos Serviços Públicos (MUSP).

Está prevista sair do Campo Pequeno, em Lisboa, às 15:00, do Hospital de São João, no Porto, também às 15:00, e do Centro de Saúde Fernão de Magalhães, em Coimbra, às 11:00.

 
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