O livro “Pedro Alecrim”, do escritor António Mota, vai ser traduzido para língua mirandesa com o título “Bai Pedro Bai” numa alusão ao cancioneiro tradicional mirandês, foi divulgado esta sexta-feira.
Em declarações à agência Lusa, o escritor disse que este livro, publicado originalmente em 1988, relata o ambiente rural de um adolescente e conta já com mais de 40 edições.
“Em ‘Bai Pedro Bai’, conhecemos Pedro, um rapaz que observa o quotidiano da sua aldeia e da sua escola com olhos curiosos e uma alma inquieta e começa a descobrir o mundo. Não é um menino rico, mas que gosta das coisas simples da vida”, disse o autor.
Vencedor do Prémio Gulbenkian de Literatura para Crianças e Jovens, o livro tem a seguinte sinopse: “Pedro Alecrim reparte os seus dias entre a escola, as brincadeiras com os amigos e o trabalho no campo para ajudar a família. Pedro gosta de andar na escola, embora se interrogue sobre a utilidade de algumas matérias e nem sempre aprecie o feitio de alguns professores. Os dias vão passando, com sonhos, alegrias e tristezas. A morte do pai alterará tudo”.
Segundo António Mota, o livro despertou a atenção dos tradutores para língua mirandesa após uma apresentação em Miranda do Douro em 2023.
De acordo com a editora Asa, em comunicado, na versão em língua mirandesa de “Pedro Alecrim” “a história ganha uma nova sonoridade, preservando toda a sensibilidade e humor do original, enquanto valoriza e celebra o património linguístico e cultural de Portugal”.
Para Carlos Ferreira, um dos tradutores da versão mirandesa da obra, a par de Alice Almendra Ferreira, “Pedro Alecrim” é uma obra literária que muito se adapta à Terra de Miranda, no distrito de Bragança.
“A personagem do livro é uma criança que anda no sexto ano que vai e vem da escola e ajuda os pais na lavoura. Este livro acaba por ser biográfico, porque foi este o meu caminho”, relatou Carlos Ferreira.
No que respeita à tradução para língua mirandesa, segundo o tradutor, é feita de forma muito direta, porque está cheia de vocabulário ligado ao campo, área em que o mirandês está muito especializado.
“Acho que este livro vai ser muito importante, porque o ensino do mirandês nas escolas tem falta deste tipo de obras literárias de apoio e escritas na segunda língua oficial em Portugal. Assim, este livro vai ser um reforço para o ensino do mirandês nas escolas”, enfatizou Carlos Ferreira.
Segundo o tradutor, existe muito pouca literatura para a faixa etária infantojuvenil em língua mirandesa. “Há muitas obras traduzidas para mirandês de várias temáticas, mas muito poucas para jovens”, observou.
O mirandês passou a segunda língua oficial em Portugal há 27 anos, após a aprovação, na Assembleia da República, em 17 de setembro de 1998, da lei que reconhece esse estatuto ao idioma falado no concelho de Miranda do Douro e parte dos concelhos de Vimioso e Mogadouro, no distrito de Bragança.
O mais recente estudo feito pela Universidade de Vigo, com apoio e colaboração da Associação de Língua e Cultura Mirandesa, concluiu que haverá cerca de 3.000 falantes de mirandês na Terra de Miranda e que, se nada for feito, a língua caminhará para o seu declínio.
O mirandês é lecionado nas escolas de Miranda do Douro como disciplina de opção.