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Opinião

Jogos vivos e com golos, precisam-se!

Artigo do jornalista Luís Moreira

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Foto: DR

Artigo de Luís Moreira

Jornalista

Um ponto prévio de crítica, antes de ir ao assunto das normas do jogo! Há dias, no estádio municipal de Braga, no jogo SC Braga/Sporting de Lisboa, assisti a um detalhe «tático-estratégico» que considero um escândalo, uma vergonha, ainda que legal, porque não previsto nas regras do jogo: a ordem dada pelo treinador Rúben Amorim para que um avançado do Sporting se deitasse no relvado, atrás da barreira defensiva, quando o clube da casa se preparava para marcar um livre direto.

No caso, o avançado leonino Jovane «lambia» a relva para evitar que o remate, caso fosse rasteiro, chegasse à baliza do campeão nacional.

Dir-me-ão…nada na lei da bola proíbe um jogador de lamber o relvado ou mesmo de comer a relva… Só que o jogo de futebol de onze foi criado com um espírito (e esse deve ser lei), o de que é para se jogar de pé! Ao mandar um atleta deitar-se no tapete para impedir a passagem do esférico, o treinador mostra que não respeita e manda desrespeitar o espírito e a dignidade do jogo: os homens (e as mulheres, no caso) jogam de pé, peito erguido e pés feitos à bola. Lamber a relva é feio, e antidesportivo. A FIFA devia-o proibir expressamente! Mesmo o chamado «carrinho», que muito usado é em campo, devia, em minha modesta opinião, ser limitado ou mesmo impedido. Viola esse espírito de dignidade do jogo – joga-se de pé -, além de ser responsável por dezenas de lesões, ou mesmo de pernas partidas aos adversários.

Mudar as regras

A FIFA está a estudar mudanças… Eu há muito que defendo a alteração de algumas das regras do futebol, como se comprova no texto que publiquei há alguns anos no jornal Diário do Minho. Mudanças que serviriam para tornar o jogo mais vivo, mais disputado e com mais golos. O futebol vive do bairrismo e não, salvo em alguns jogos entre equipas de topo ou milionárias, pela vivacidade do espetáculo e pela incerteza do resultado.

Em tempos recentes, a hipótese de criação de uma Super Liga dos Campeões trouxe à tona essa realidade. Então, numa entrevista a propósito do assunto, o presidente do Real Madrid, Florentino Perez citou estudos recentes sobre a adesão dos jovens ao futebol, dizendo que a maioria não gosta nem vê, o que põe em causa o futuro da indústria.

De facto, muitos dos jovens com quem abordo o tema, incluindo os meus dois filhos, dizem que ver futebol “é uma perda de tempo” e associam o facto a falta de cultura e ao facto de eu ser «cota», ou seja, “só os «belhinhos» é que gostam dessa seca”. Devo dizer que têm alguma razão: a maioria dos jogos são desinteressantes, abundam as faltas e as paragens do jogo (com essa coisa edificante de se “passar tempo), os critérios disciplinares são dúbios (passando do oito ao oitenta às vezes em minutos) e as partidas são aborrecidas. É «boring», diriam os ingleses! É certo que hoje em dia a qualidade técnica e a velocidade melhoraram, os executantes são exímios e as equipas treinadas para executar modelos táticos ditos perfeitos. Mas essa qualidade esbarra nas armadilhas do fora-de-jogo, nos «autocarros» à frente da baliza, nas faltas sistemáticas, nas interrupções propositadas.

FIFA revoluciona regras?

Aqui há três meses, deparei-me na TVI com o resumo de um jogo internacional de juniores em que a FIFA experimentou regras diferentes. Estas mudanças foram testadas na Taça do Futuro do Futebol , torneio para sub-19 disputado por PSV, AZ, Leipzig e Brugge. No final, a FIFA prometeu avaliar o impacto destas mudanças e decidir se merecem um pedido ao International Board, organismo que fixa as regras do futebol. O tema não teve grande repercussão na comunicação social portuguesa, estranhamente avessa à mudança e à discussão, quer no futebol quer noutras áreas da vida social.

Dizem as crónicas que está nos planos da FIFA – quando se fala em FIFA deve-se pensar que qualquer alteração demora 10 ou 20 anos – “uma verdadeira revolução” nas regras do desporto mais popular do mundo, com a entidade máxima do futebol a realizar testes para avaliar quatro mudanças.

As novidades

As novidades que estiveram em campo no torneio são:

1) a instituição de duas partes de apenas 30 minutos, com o cronómetro a parar quando a bola sair do campo ou houver faltas. À semelhança do que acontece no basquetebol ou futsal, por exemplo. O que acabaria com o pouco ético sistema de «passa-tempo».

2) Substituições ilimitadas. Até antes da pandemia, o máximo eram três alterações por jogo. Com a covid-19, implantou-se o sistema com cinco substituições. O regresso à normalidade pode levar a alterações sem qualquer limite. Eu, neste capítulo, proponho que as substituições sejam em andamento, mas com entrada na linha de meio campo…

3) Permitir lançamentos laterais com os pés. No entender da FIFA, isso permitiria criar situações de muito mais perigo, já que a bola poderia alcançar a área rival com mais facilidade. E, digo eu, com mais golos… de resto, atirar, de propósito, a bola para fora do retângulo de jogo é anti-jogo… E não se pode beneficiar quem manda a bola prá bancada…

Punir o cartão amarelo com uma suspensão temporária de 5 minutos. O jogador ficaria de fora do relvado e regressaria ao fim do tempo estipulado. Neste capítulo, defendo a alteração de todo o sistema de cartões, de modo a que o jogo decorra sempre com 11 contra 11. Em igualdade…

Mas vou mais longe. Proponho a criação de uma linha de fora de jogo junto à grande área, alargando a que já existe, a linha de meio campo.

Aqui há uns dez anos, fui ouvir o treinador Jesualdo Ferreira, que deu uma palestra sobre motivação no Hospital de Braga. Estava com a moral em alta pois tinha sido campeão no FC do Porto. Puxou de um computador e projetou no quadro na parede, imagens de um jogo que tinha acontecido, real, portanto, mas em que os jogadores apareciam como símbolos. Dizia o técnico: “Como podem ver na imagem, no meio da campo, num espaço de 30 metros estão 20 jogadores, dez de cada lado”. E acrescentou: “A grande arte do futebol atual é a de se conseguir sair dos 30 metros, do meio do aglomerado de jogadores, com a bola dominada e meter golo”.

À saída, dei comigo a pensar: o Jesualdo está tão viciado – e bem pago – no futebol dito moderno, que não entende que ao haver 20 atletas em 30 metros – por causa do «off-side», o jogo torna-se quezilento e cheio de faltas. E, são tantas as faltas – quase uma por minuto em certos jogos – que os árbitros já deixam passar, em branco, várias delas… Não estão para se «chatear», desculpem o pleibeísmo… Por isso, passou a haver um conjunto de regras não escritas, de facilitismo: um empurrão com menos de três quilos de força, não é falta, e um de cinco quilos já o é. Até proponho – em jeito de ironia, claro! – que o INL- Laboratório Internacional de Nanotecnologia, de Braga, estude uma camisola com um chip que meça essa força – a do empurrão ou do agarrão – e a indique ao árbitro e ao do vídeo: “não marque, o empurrão/agarrão foi só de 2,8 quilos”, indicará o aparelho…

A concluir, e com a promessa de voltar ao tema, para quem tiver paciência e vontade de discutir o tema: custa ver os estádios, no meu caso o da Pedreira, meio vazio ou mesmo quase vazio. A maldita pandemia ajuda a isso, mas jogos mais vivos e disputados trariam mais pessoas… ou não?

PS: No torneio também se experimentou uma outra regra: quando um jogador sofre falta e o árbitro a marca, ele pode pegar na bola e sair a jogar, sem ser necessário que o juiz da partida, apite de novo. E sem ter de a passar a um colega de equipa…

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