Aos 47 anos, João Rodrigues, atleta dos Amigos da Montanha, de Barcelos, não só venceu o ALUT – Algarviana Ultra Trail, o trail mais longo de Portugal, como bateu um recorde com cinco anos, ao fazer os 305 quilómetros em 37h17m28s.
O anterior recorde, conquistado em 2019, pertencia a Paul Giblin (38h06).
“O meu sonho foi realizado, não só ganhei como destronei o recorde do britânico Paul Gibly que era de 38:06. Consegui correr 305 km em 37h17. Nem acredito que com 47 anos continuo a concretizar estes resultados”, conta João Rodrigues, citada em comunicado dos Amigos da Montanha.
O atleta barcelense conta, então, “como tudo começou”. “Quatro meses antes estava com uma ideia que não me saía da cabeça. Fazer o ALUT, sim ou não? Mas tinha receio. Como vou fazer o ALUT? São quatro dias para o Algarve sozinho para correr. É melhor não”, conta.
Foi então que desabafou com o amigo Igor Lysyi: “Sabes, Igor, um dia tenho que ir ao ALUT, tenho que arranjar quem me queira ajudar”. E foi rápida a resposta de Igor Lysyi: “Vou eu, tiro dias de férias e vamos”. Foi nesse preciso momento que o receio acabou.
E assim começou o grande desafio de preparar o corpo e a mente com a dedicação de “muitas horas ao treino e a estudar a estratégia adequada”.
A partir daí foram meses de treinos diários e estudo aprofundado sobre como era a prova, como gerir, dormir ou não dormir, que sapatilhas levar, quais as partes mais difíceis do percurso, como é o terreno, entre muitas outras dúvidas que surgiam. O primeiro foco foi saber o máximo possível para não ter surpresas indesejáveis. “E tinha agora a noção de que esta era uma prova com as minhas características”, explica o vencedor do ALUT.
Depois de muito estudo e treino, de mais de 20 horas semanais, chegou o grande dia. Estava pronto e com um objetivo de fazer a prova dentro de 40 horas. As dúvidas eram muitas mas o apoio era enorme. “Todos os amigos acreditavam que eu iria conseguir. Na verdade só eu estava receoso, mas com a certeza que tinha que arriscar. A superação é isso mesmo: só sabemos se tentarmos e eu queria tentar”, confessa.
No dia antes, chegou a Sagres quase no final do dia: “Fui comer e dormir, dormir o máximo que conseguisse, pois a prova começava às 14:30”.
De manhã, partida até Alcoutim no outro lado do Algarve. O objetivo: “Eu contra as 40 horas e a pensar: ‘tenho que arriscar mas não demasiado porque o corpo pode não aguentar'”.
“É neste momento que todos os cuidados de preparação e treino fazem a diferença. Saber os limites, saber o comportamento do corpo, não é correr só por correr, é correr com objetivos e estratégia. Arrisquei e parti com o ritmo que achava que era o ideal para mim, embora todos considerassem que estava demasiado rápido, que deveria baixar a velocidade porque isto não era uma corrida de 30 km. Mas eu estava bem e continuei com o meu objetivo”, aponta.
Depois de metade da prova, as 40 horas eram cada vez mais uma realidade. A noite tinha acabado, estava a começar outro dia e já com 15 horas a correr, João Rodrigues chegava aos abastecimentos muito antes das previsões da organização. Era uma surpresa para todos. O segundo dia começou e a estratégia era arriscar tudo enquanto fosse dia, porque na segunda noite possivelmente iria ter que dormir.
A outra noite chegou, estava a correr há 27 horas e o objetivo das 40 horas de prova era, agora, quase certo. Na segunda noite o cansaço era muito, mas a estratégia parecia estar a dar resultado e os atletas mais próximos estavam 40 km atrás, João Rodrigues não tinha pressão. Foi quando faltavam 80 km que as dúvidas surgiram: dormir 30 minutos e descansar para depois terminar a prova ou tentar bater o recorde. Quanto pensou que era possível bater as 38h06m ganhou um novo propósito. “Queria deixar a minha marca e iria dar o meu melhor até a linha de meta custasse o que custasse. Sofrer e continuar a sofrer até a linha de meta, cada quilómetro parecia uma eternidade estava a ser muito duro, nunca tinha sofrido tanto”, conta.
E nesta fase o apoio das pessoas foi fundamental para conseguir: “Elas incentivavam e acreditavam que eu iria conseguir. Isso fez com que eu estivesse sempre muito desperto e o sono nunca apareceu”.
“Foi muito melhor do que no sonho”, confessa João Rodrigues. “Ganhei e bati o recorde. Acreditei e trabalhei para conseguir este feito, mas não consegui sozinho. Foi necessário a minha equipa de apoio. A minha esposa que me apoia na prova, mas também antes, na preparação da sua aletria única e de toda a outra comida que eu como durante a prova. E o meu amigo Igor que treinou comigo, ajudando-me a não perder o foco, e colaborou em toda a enorme logística que uma prova destas obriga. Foram os meus grandes apoios e sem eles era impossível fazer o ALUT em 37h17m”.