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Guterres diz que G20 caiu na “armadilha das divisões geopolíticas” e que há risco de “G-nada”

Política

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Foto: ONU

O secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou hoje que o G20 “caiu na armadilha das divisões geopolíticas” e que as relações internacionais correm o risco de acabar com “G-nada”, numa dura crítica à falta de cooperação e diálogo.

No seu discurso de abertura do debate geral da 77.ª sessão da Assembleia-Geral da ONU, Guterres salientou que “o mundo está em perigo — e paralisado”, com as “divisões geopolíticas a minar o trabalho do Conselho de Segurança, a minar o direito internacional, a minar a confiança e a fé das pessoas nas instituições democráticas, a minar todas as formas de cooperação internacional”.

“Não podemos continuar assim. Mesmo os vários agrupamentos constituídos fora do sistema multilateral por alguns membros da comunidade internacional caíram na armadilha das divisões geopolíticas, como o G20”, disse, referindo-se às maiores e emergentes economias do mundo.

“Num certo estágio, as relações internacionais pareciam estar a mover-se em direção a um mundo G2; agora corremos o risco de acabar com G-nada. Nenhuma cooperação. Sem diálogo. Não há solução coletiva de problemas. Mas a realidade é que vivemos num mundo onde a lógica da cooperação e do diálogo é o único caminho a seguir”, exortou o secretário-geral.

Naquela que é a primeira Assembleia-Geral da ONU desde o início da invasão russa da Ucrânia, Guterres dedicou parte do seu discurso a esse conflito, advogando que o mesmo desencadeou uma destruição generalizada, com violações massivas dos direitos humanos e do direito internacional humanitário.

Contudo, o ex-primeiro-ministro português chamou a atenção dos chefes de Estado e de Governo ali presentes para conflitos e crises humanitárias que se estão a multiplicar ao redor do globo, “muitas vezes longe dos holofotes”, referindo a crise económica e de Direitos Humanos no Afeganistão; as tensões regionais na República Democrática do Congo; os combates na Etiópia; a atuação de gangues no Haiti; a seca sem precedentes no Corno de África; ou as divisões na Líbia.

Também incluídos no discurso do líder da ONU foram os ciclos de violência em Israel e na Palestina; tensões no Iraque; a grave situação humanitária, de direitos humanos e de segurança em Myanmar; a atividade terrorista no Sahel; e a violência na Síria.

“A lista continua. Enquanto isso, a agitação nuclear e as ameaças à segurança das centrais nucleares estão a aumentar a instabilidade global”, observou.

Guterres assinalou ainda que a lacuna de financiamento para o Apelo Humanitário Global das Nações Unidas ascende a 32 mil milhões de dólares (31,9 mil milhões de euros) — “a maior de todos os tempos”.

O líder das Nações Unidas acusou ainda as grandes empresas das tecnologias de informação de “monetizar a indignação, raiva e negatividade”.

“Plataformas de media social baseadas num modelo de negócios que monetiza a indignação, raiva e negatividade estão a causar danos incalculáveis às comunidades e sociedades. Discursos de ódio, desinformação e abuso — direcionados especialmente a mulheres e grupos vulneráveis — proliferam. Os nossos dados estão a ser comprados e vendidos para influenciar o nosso comportamento — enquanto o `spyware` e a vigilância estão fora de controlo — tudo isso sem levar em conta a privacidade”, apontou António Guterres.

“A inteligência artificial está a comprometer a integridade dos sistemas de informação, os media e, de facto, a própria democracia. A computação quântica pode destruir a segurança cibernética e aumentar o risco de mau funcionamento de sistemas complexos. Não temos o início de uma arquitetura global para lidar com nada disto”, advogou.

“Este não é o mundo que escolhemos. Por causa das nossas decisões, o desenvolvimento sustentável em todos os lugares está em risco”, disse.

Sublinhando que os países em desenvolvimento são os mais afetados, ao serem “atingidos por todos os lados”, Guterres pediu diretamente um aumento imediato do financiamento para essas nações, assim como o alívio da divida.

“Precisamos de uma ação concertada. Hoje, estou a pedir o lançamento de um `Estímulo Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)` — liderado pelo G20 — para impulsionar massivamente o desenvolvimento sustentável dos países em desenvolvimento. A próxima Cimeira do G20 em Bali é o ponto de partida”, anteviu.

O secretário-geral exigiu ainda uma profunda reforma estrutural no sistema financeiro global e em instituições internacionais, afirmando que os países africanos, em particular, estão sub-representados nesses sistemas.

“A divergência entre países desenvolvidos e em desenvolvimento — entre norte e sul — entre os privilegiados e os demais — está a tornar-se mais perigosa a cada dia. Está na raiz das tensões geopolíticas e da falta de confiança que envenenam todas as áreas da cooperação global, desde as vacinas a sanções e comércio”, sustentou.

Contudo, Guterres concluiu o seu discurso destacando que tem esperança no futuro, esperança essa que encontra nos ativistas do clima e da paz; nos jovens que trabalham por um futuro melhor e mais pacífico; nas mulheres e meninas do mundo que lutam por aqueles que têm os seus direitos negados; na ciência e na academia; e nos heróis humanitários que disponibilizam em todo o mundo ajuda que salva vidas.

“As Nações Unidas estão com todos eles. (…) Vamos desenvolver soluções comuns para problemas comuns, fundadas na boa vontade, na confiança e nos direitos partilhados por cada ser humano. Vamos trabalhar como um, como uma coligação do mundo, como Nações Unidas”, concluiu.

O debate de alto nível começou hoje na Assembleia-Geral, em Nova Iorque, com a presença de líderes de todo o mundo, e irá prolongar-se até ao final da semana, com a guerra da Rússia na Ucrânia sob foco.

Espera-se que as potências ocidentais usem os seus discursos na ONU para reafirmem o seu apoio a Kiev e que procurem uma maior pressão sobre o Kremlin da parte de países com posições vagas, nomeadamente os africanos.

Por outro lado, espera-se que a Rússia utilize este evento para tentar minar a narrativa dos Estados Unidos e da Europa sobre a guerra.

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