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Ganhar a vida num segundo

em

Vania Mesquita Machado

Artigo de Vânia Mesquita Machado

Pediatra e escritora. Autora do livro Microcosmos Humanos. Mãe de 3. De Braga.

 

– Conto inédito. Dedicado à luta contra a violência doméstica. –

Num segundo.

Num segundo Rosália tinha perdido o autocarro, voluntariamente.

Num segundo Rosália tinha decidido ser possível ainda voltar atrás.

Existem segundos em que ainda é possível voltar atrás, outros em que não.

A vida vai oferecendo esses segundos que transportam consigo diferentes oportunidades às pessoas diferentes, dispostos no acaso do tempo.
Há quem perspicazmente se aperceba desse minúsculo hiato temporal, em que a decisão pode ser revertida pelo livre arbítrio, e aproveite a janela de oportunidade para a mudança.

Há quem seja cego e insista na mudança perante um segundo cuja sentença é irreversível, e entre num processo de negação perante uma transformação permanente.

E há quem nunca entenda sequer as ténues diferenças entre os instantes, seguindo indiferentemente pela sua vida, atribuindo às mudanças o significado de um castigo ou recompensa divina, sem qualquer noção de que poderia intervir pela própria vontade no futuro; viver assim é uma jornada de passividade absoluta.

Num segundo, meses antes, Rosália recusara ajuda e desfiara o chorinho habitual de desculpas perante a evidência estampada na própria face.

O marido batia-lhe dia sim, dia não, qualquer insignificância era motivo para ser o saco de pancada, a comida mal temperada, a casa em desalinho, o atrevimento em contrariar a opinião dele.

Por norma os filhos já estavam deitados, o pai não os queria traumatizar. Nem a queria magoar, ela sabia que se se portasse mal tinha de apanhar, era para o seu próprio bem.

«Sabes porque levaste desta vez não sabes Rosália? Sabes como te amo, que não vivo sem ti? Mas tens de aprender, para que para a próxima as coisas corram melhor…», e ela a acenar que sim com a cabeça, a culpa era toda dela, mulher desleixada em casa, tinha que se aperfeiçoar, tinha que esquecer o cansaço do dia inteiro passado na caixa do supermercado a registar os produtos atentamente, um erro numa etiqueta com prejuízo na caixa registadora no fim do turno era da responsabilidade dela, e sorria gentilmente para os clientes escondendo a vontade de ir à casa de banho quando não era ainda o tempo de descanso e sorria gentilmente para os clientes tentando manter a agilidade quando o corpo latejava de dor, as nódoas negras escondidas debaixo da farda em alternância com as dores crónicas da coluna, e de noite tinha pesadelos do apito constante do código de barras dos produtos, em que cada apito era um pontapé ou um abanão do marido, pela sua desarrumação e falta de jeito para a cozinha.
Havia dias que ele sem querer lhe atingia a face. Nesses dias de olhos negros, hematomas nas bochechas ou lábios rebentados Rosália desculpava-se com a sua distração, uma escorregadela na rua ou um encontrão numa esquina de um armário.

Ela e a sua cabeça na lua.

A médica do posto era muito simpática, e já quase lhe tinha contado a verdade.

Sua médica de família há décadas, a Drª Augusta tinha acompanhado a doença da mãe um ano antes, quando ela se dirigia regularmente ao centro de saúde para ir buscar as receitas que ajudavam a aliviar as dores da doença ruim em estado terminal.

A doutora arranjava sempre uns segundos para lhe perguntar pelo estado de saúde da mãe e lhe dirigir uma palavra de ânimo. Nessa altura, tinha-se apercebido das pisaduras que por vezes eram indisfarçáveis, quando eram no rosto ou durante o verão, quando o calor excessivo impedia que cobrisse os braços onde se viam marcas de agressões antigas misturadas com outras lesões resultantes de violência mais recente. Tinha-a confrontado com a situação numa pergunta frontal, ao que ela respondera com prontidão que tinha caído, a resposta na ponta da língua, preparada para a eventualidade da questão.

Quando a mãe faleceu, esteve alguns meses sem se deslocar ao posto. Ultimamente voltara a ser mais assídua às consultas, a lombalgia que lhe ferrava as costas pela posição viciosa no emprego obrigava-a a sessões de fisioterapia e ciclos de medicação injetável para se ir aguentando de pé.

A Drª Augusta preocupava-se com ela; cada vez que a via fazia-lhe perguntas, mas com linguagem mais subtil.

– Então Rosália o que foi desta vez? Voltou a bater com a porta na cara? É difícil essa contusão ser resultado de uma porta, como foi isso mulher? Anda com muito azar…

Ela já não sabia como dar desculpas, mas amava o marido e sabia que ele também gostava dela, e o que seria dos meninos com o lar desfeito?

– Pois é Drª Augusta, veja lá o meu azar, devo estar a ver pior, se me fizesse o favor de me pedir uma consulta de oftalmologia…

A Drª Augusta olhava para ela uns segundos, aqueles segundos de silêncio em que se pode mudar a vida com umas palavras de desabafo, e no seu olhar manifestava-lhe que sabia exatamente o que tinha acontecido; ela retribuía o olhar, mas não dava o braço a torcer e calava a verdade. Não tinha sido dessa vez.

A última noite tinha sido a gota de água.

O marido tinha ultrapassado os limites do que era normal, descarregava nela a raiva da sua frustração de um dia mau no trabalho, com os filhos ainda acordados.

Os meninos choravam ao ouvir a mãe a gemer de dores, o pai ameaçou-os de lhes bater também ao que eles recolheram assustados para o quarto. Passado o pico da discussão, obrigou-a a ir inventar uma desculpa qualquer para o que tinha acontecido junto dos meninos, e saiu por umas horas.
Ela tinha ido confortar os filhos num abraço, disse-lhes que estava tudo bem e que a culpa do pai se ter exaltado era toda dela, que tinha sido uma situação isolada, que não voltava a acontecer. O filho mais novo escondia a cara na almofada, o mais velho tomou a palavra e disse à mãe com ar sério que eles sabiam bem o que se passava, porque acordavam com os barulhos e os gritos, que o pai não podia continuar a bater na mãe, que eles não se importavam que o pai se fosse embora, até estariam melhor sem ele porque a mãe iria ser mais feliz e eles também. E que se ela não fizesse nada eles próprios chamariam a polícia a casa, na próxima vez.

Rosália não foi capaz de dizer mais nada.

Nessa noite não dormiu, esperou que o marido chegasse e lhe pedisse desculpa como habitualmente, sossegou-o em relação aos meninos, que estava tudo bem, que eles tinham percebido que a culpa era dela.

Antes de ir trabalhar, tinha a consulta marcada com a Drª Augusta, apenas para receituário.

Nesse dia a doutora falou com ela num tom assertivo, sem perguntas e sem margem para desculpas.

Disse-lhe que bastava olhar para ela para entender que era vítima de violência doméstica. Como era usual nessas situações de abuso grave ela culpabilizava-se, mas podia ser ajudada, não podia continuar a viver dessa forma insustentável com os seus filhos.

Ela não negou, limitou-se a escutar de olhar cabisbaixo.

Manifestou-lhe o seu apoio; quando sentisse ser altura de se abrir e de se proteger contra esse monstro que a torturava e lhe transformava a vida num inferno ela estaria ali para a acolher e orientar, aquilo não era amor nenhum. Já tinha assistido a muitas situações semelhantes à dela com desfecho infeliz, em que a mulher sucumbia à violência tal era a gravidade dos ferimentos nessa escalada de violência sem sentido, e que por regra o marido era preso e os filhos institucionalizados.

Rosália não disse nada, apenas que estava atrasada para o emprego, e saiu a correr do consultório.

Correu para a paragem do autocarro, esbaforida, chegou uns segundos antes de o autocarro parar, as pessoas à sua frente a entrarem ordeiramente, o motorista a olhar para ela, ela parada à entrada, «A senhora vem ou não?» e esse era um segundo de encruzilhada, um segundo com escolha ainda possível, e nesse segundo ela decidiu que não, que não ia, que não queria ir, que tinha chegado a altura de mudar de vida, que ainda não era tarde, ela estava viva, os filhos estavam com ela, não iriam crescer órfãos de mãe, com o pai na cadeia entregues aos cuidados de estranhos. E fez o caminho inverso, voltou para o centro de saúde, esperou que a Drª Augusta terminasse as consultas da manhã para lhe pedir ajuda.

E nesse segundo em que tinha voltado atrás, a sua vida tinha ganho todos os segundos do mundo que lhe eram destinados.

 

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