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Braga

Fadista Paulo Bragança estreia-se como ator na Companhia de Teatro de Braga

Peça luso-galaica em palco no Festival Internacional de Almagro

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Paulo Bragança. Foto: DR / Arquivo

O cantor Paulo Bragança estreia-se a 02 de julho como ator da Companhia de Teatro de Braga (CTB), numa peça luso-galaica, produzida em conjunto com o CGD- Centro Dramático Galego, de Santiago de Compostela e que tem como tema o rio Minho.

“É uma nova fase da minha vida artística. Interpreto um dos personagens e também canto”, disse a O MINHO e manifestando-se “muito contente” pelo convite do diretor da Companhia, Rui Madeira.

A peça intitulada “A contenda dos labradores de Caldelas, entremez famoso sobre a pesca do rio Minho”, baseia-se num texto escrito em 1671 por Gabriel Freixo Araúxo. Vai ser estreado no 40.º Festival Internacional de Teatro Clássico de Almagro, Espanha.

Foi pensado entre as duas companhias para integrar a iniciativa “Braga Capital Cultural do Eixo Atlântico”, que está em curso, e sobe, logo a seguir à estreia, a 22, ao Theatro Circo, espalhando-se depois pelo país e pela Galiza.

O elenco tem 10 outros atores, entre os quais, a atriz do Teatro Clássico de Madrid, Aisa Pérez, é encenado pelo galego Franz Nuñez, com apoio do diretor da companhia bracarense, Rui Madeira e tem direção musical de Grasiela Muller, da CTB.

Litígios de outrora e de hoje

Paulo Bragança, que está entusiasmado com a sua nova dupla função, explica que o Entremez relata, de forma adaptada aos dias de hoje, a relação, amorosa e quezilenta, de sempre, entre os dois lados do rio Minho: “Recorreu-se a um falar que nem é português, nem galego, uma mistura, para abordar temas antigos, mas sem fio histórico, como o das donas Teresa e Urraca, litígios de pesca de outrora, o labrego galego e o fidalgo português, a taberna, as divisões fronteiriças, as relações pessoais, ou temas atuais, como o da ligação de comboio à Galiza, e as questões económicas de hoje”.

“Tem um lado musical forte e um conjunto de sketches sarcásticos, mas sem brejeirice”, sublinha.

Paulo Bragança, que ultima a edição de mais um disco seu, com o título Exilium, a sair este ano, concebeu três dos temas musicais que vai cantar em palco.

Paulo Bragança. Foto: Joaquim Galante

Há mortos. Há choro. Há baile. Há irmandade

Explicando o teor do Entremez, o encenador Frnaz Nuñez, escreve: “Nesta história há uma disputa pelo direito a pescar. Há peixes que não entendem a fronteira e passam onde mais lhes dá jeito sem pastor que os guie. Há quem tente valer-se do seu poder para ficar com o que lhe não pertence. Há quem o tente impedir e o impede. Há disputa. Há dignidade. Há quem se envergonhe dos seus conterrâneos e defenda os da sua classe. Há mortos. Há choros. Há festa. Há baile. Há irmandade. Há fronteiras…e não”.

Começou aos 17 anos

Paulo Bragança nasceu em Angola de onde saiu aos 12 anos.

A vida de fadista e cantor começou aos 17 anos na Faculdade de Direito de Lisboa quando foi convidado para abrir a Queima das Fitas com um concerto na Aula Magna.

De então para cá, subiu inúmeras vezes ao palco em Portugal, e também nos Estados Unidos (de costa a costa), em toda a Europa, no Japão e na China, aí incluída a cidade de Macau.

Paulo Bragança. Foto: Joaquim Galante / DR

Em 2006, e desiludido com amigos que o traíram e lhe “foram ao bolso” deixando-o quase depenado, abandonou o país rumo a Londres e acabou na Irlanda, país onde esteve 11 anos e trabalhou na Câmara Municipal de Dublin a colocar ladrilhos: “Nunca tinha pregado um prego, tive de aprender o ofício”.

Um dia, quando colocava mais um ladrilho, foi abordado por uma irlandesa que o questionou sobre o que sabia de cinema…da conversa resultou um convite para ser ator numa curta metragem, o filme Henry and Sunny, que acabou premiado em vários foruns europeus e foi exibido no FantasPorto (em cinema, havia já integrado o elenco do filme Tráfico de João Botelho. A partir daí, saiu do anonimato em que vivia e conheceu o meio artístico local, nomeadamente o musical, que considera “vibrante”.

Passou a cantar informalmente em pubs e bares e em casa de amigos e acabou convidado para atuar no National Concert Hall, onde cantou fado e também canções na língua tradicional irlandesa, o Gaellico. Fez também teatro na Irlanda.

Regressado a Portugal, “o bicho do covid” atrasou-lhes os planos e a edição do novo disco. Aí, o Rui Madeira – diz – “conhecedor do meu trabalho, convidou-me para a peça Pedro e Inês, que iria a palco na Ucrânia, mas que também foi adiada por causa do dito cujo bicho”.

Rui Madeira. Foto: DR

“Fiquei então na Companhia, para o Entremez e estou muito bem em Braga, um bastião do teatro e uma casa onde espero ser feliz”.

E a concluir: “Não agradeço ao Rui Madeira porque ele não precisa de elogios…A qualidade da Companhia e a sua generosidade são bem conhecidos”.

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