Exposição em Guimarães lança olhar crítico sobre imagem do Outro construída pela ditadura

Foto: DR

O Centro Internacional das Artes José de Guimarães vai inaugurar, no sábado, a exposição “Problemas do Primitivismo – A Partir de Portugal”, que reinterpreta a construção do Outro feita pela ditadura através de centenas de objetos artísticos e históricos.

Com curadoria da diretora do Centro Internacional das Artes José de Guimarães (CIAJG), Marta Mestre, e da investigadora Mariana Pinto dos Santos, a exposição estava a ser preparada há dois anos e reúne mais de 400 documentos, entre peças artísticas originais, reproduções e documentação variada, desde imprensa e capas de livros da época a textos criados especificamente para a exposição por múltiplos convidados.

Focada principalmente no período da ditadura do Estado Novo (1933-1974), com ligações à visão crítica de artistas a trabalhar hoje, a mostra está repartida em seis eixos, ao longo de três pisos do museu, coexistindo com a exposição permanente “Heteróclitos – 1.128 objetos”. Os seis eixos são “Civilização”, “Museu”, “Ingénuo”, “Mar Português”, “Jazz-Band” e “Extração”.

“Isto é um trabalho de colaborações várias que o CIAJG acolhe. E ele é importante porque na verdade o projeto artístico que o CIAJG dinamiza é um projeto artístico que, na sua raiz, tem uma coleção, que é a coleção José de Guimarães, que possui artes africanas, pré-colombianas, chinesas – estas nomenclaturas já são questões em si a colocar -, mas esse conjunto, esse acervo, traduz uma longa história de produção sobre a ideia de Outro”, afirmou à Lusa Marta Mestre.

Por seu lado, Mariana Pinto dos Santos realçou que “não é muito convencional estar a misturar Antropologia e História, História Social e Económica, junto com História da Arte”, antes de acrescentar: “Às vezes há alguma contaminação, mas aqui há uma contaminação maior do que o habitual. Queremos fazê-lo porque a história da arte não está num patamar à parte”.

A investigadora do Instituto de História da Arte da Universidade Nova de Lisboa salientou a importância de a exposição acontecer num museu como o CIAJG, devido à presença do artista que lhe dá nome: “José de Guimarães faz um pouco a ligação entre esse momento anterior e o atual, que problematiza e reflete sobre isso. Por isso me parece muito importante que esta exposição ocorra aqui, neste lugar deste artista que não só tem a coleção, é que o trabalho dele artístico passa por uma relação artística com objetos africanos”.

O facto de se lançar o olhar sobre o Primitivismo a partir de Portugal é, na opinião da investigadora, algo novo.

Na definição que se encontra na página do projeto “Modernismos Ibéricos e o Imaginário Primitivista”, que foi codirigido por Mariana Pinto dos Santos, “o Primitivismo é um movimento que influenciou múltiplas formas de expressão artística, […] desenvolvido sobretudo no início do século XX, buscou nas artes e culturas consideradas ‘primitivas’, ou não ocidentalizadas, como as encontradas em sociedades tribais africanas, asiáticas e americanas, uma base de renovação das conceções e práticas artísticas”.

“À luz dos dias de hoje, é percetível como a corrente artística tantas vezes envolveu representações estereotipadas e idealizadas das culturas não ocidentais, simplificando e romantizando elementos culturais, contribuindo para estereótipos imprecisos que reforçaram ideias preconcebidas. E, em muitos casos, racistas. Embora o movimento procurasse uma alternativa à tradição artística europeia, muitas vezes acabava por tratar as culturas não ocidentais como exóticas, inferiores ou menos desenvolvidas”, pode ler-se no mesmo texto.

Com frases no topo das paredes, numa espécie de “rodapé invertido”, como lhe chamou Mariana Pinto dos Santos, a exposição em Guimarães junta material histórico a obras artísticas, contemporâneas ou não, pretendendo gerar tensões entre aquilo que está a ser abordado, sem escapar ao uso de imagens racistas, num esforço de mostrar o quão presente estava essa construção da imagem do Outro que era diferente do colonizador enquanto ser inferior: “Não podemos esconder, não mostrar pode ter um efeito pior, induz a falta de perceção de que esta linguagem estava por todo o lado”, com um contributo ativo de vários artistas da época.

“Temos muita arte, muita cultura visual, produzida muitas vezes por artistas, que é permeada por colonialismo, por um discurso colonial, por uma primitivização do Outro e que está na cultura visual do dia-a-dia do quotidiano das pessoas no século XX”, afirmou Mariana Pinto dos Santos.

Em “Mar Português” (poema de “Mensagem”, de Fernando Pessoa, que inclui os versos “Valeu a pena? Tudo vale a pena / Se a alma não é pequena”) são estabelecidas interações entre o poema e o trabalho com o mesmo nome de Cruzeiro Seixas, que tem um búzio dentro de uma jaula, ou as colagens do também surrealista Mário Cesariny como “Poème”, na qual é colocada sobre um busto africano a frase, em francês, “Eu não quero”.

Na mesma sala, podem ver-se várias imagens das caixas pertencentes a milhares de pessoas que saíam das antigas colónias, após as independências no pós-25 de Abril, e chegavam a Lisboa, como a fotografia de Alfredo Cunha, que as retrata com o Padrão dos Descobrimentos em fundo, ao lado da fotografia “A Descoberta”, do artista angolano Kiluanji Kia Henda, onde se podem ver 11 jovens negros junto às figuras do Padrão.

Noutra área da exposição, sob o título de “Civilização”, que remete para a “missão civilizadora” que os vários colonizadores usavam como mote para justificar a discriminação a que sujeitaram milhões de pessoas colonizadas, está a série “O Fantasma de Avignon”, de António Areal, e ao fundo, sobre uma obra de Malangatana, a frase “A Europa é indefensável”, do escritor Aimé Cesaire.

Em “Extração”, onde a presença dos artistas de hoje será mais sentida, partilham o espaço uma tapeçaria de Almada Negreiros, intitulada “Portugal” (de 1957), e obras como “As Ilhas”, dos espanhóis Elo Vega e Rogelio López Cuenca, composta por uma série de manequins vestidos com camisas de motivos tropicais, que, sob um olhar mais próximo, revelam imagens de mulheres negras presas.

Já o moçambicano Ilídio Candja Candja aproveitou imagens da própria coleção de José de Guimarães para as “ativar de outra maneira” e dar-lhes uma nova vida, num trabalho colocado perto da tapeçaria de Almada Negreiros e diante de um vídeo do então governador-geral de Moçambique Baltazar Rebelo de Sousa a visitar o Parque da Gorongosa.

“Problemas do Primitivismo – A Partir de Portugal” é inaugurada no Dia Internacional dos Museus, que se assinala no sábado, às 17:00, e o museu volta a acolher um programa “antimuseu”, pela editora Revolve, com Croatian Amor, DJ Lynce, DJ Veludo, Miguel Pedro, oqbqbo e Vanity Productions, até às 02:00, com entrada livre.

 
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