Ex-diretor da TSF diz que sentiu pressões da nova gestão da Global Media

Foto: DR

O ex-diretor da TSF Domingos Andrade disse hoje aos deputados que sentiu pressões da nova gestão do fundo investimento World Opportunity Fund (WOF) e relatou “apenas um episódio” passado na rádio do grupo.

O jornalista falava na comissão parlamentar de Cultura, Comunicação, Juventude e Desporto, no âmbito do requerimento do Bloco de Esquerda (BE) sobre a atual situação da Global Media (GMG), que detém marcas como a TSF, Diário de Notícias (DN), Jornal de Notícias, entre outros.

“Se senti pressões da nova gestão? Claro que sim”, afirmou Domingos Andrade, em resposta a questões dos deputados.

“A nova gestão ainda mal tinha acabado de chegar e o senhor Paulo Lima de Carvalho [administrador], depois de ter tentado pressionar o diretor adjunto da TSF” para que ele “dissesse quem foi que aprovou uma determinada notícia” que tinha ido para o ‘site’ da rádio e goradas as tentativas, tentou “fazer o mesmo comigo”, relatou o jornalista.

“Isto é apenas um episódio”, acrescentou.

Na sua intervenção, Domingos Andrade contou ainda que teve conhecimento oficial que iria entrar um novo fundo “em meados de maio” de 2023.

“Tive conhecimento a partir de um telefonema de Marco Galinha [que era na altura presidente executivo (CEO) da GMG] dizendo que íamos ter ajuda de um novo administrador” que se chamava Paulo Lima de Carvalho, que viria com o fundo “cujas negociações estariam em bom andamento”, prosseguiu.

O então diretor da TSF foi ver quem era Paulo Lima de Carvalho, apercebendo-se que este tinha trabalhado em “várias áreas”, entre as quais na Casa da Música, no Porto, e “que também tinha ligações a uma empresa de assessoria para a comunicação “e que tinha ligações a um familiar de Luís Bernardo de outra empresa que se chama WL Partners”.

Além disso, Domingos Andrade leu uma investigação na revista Sábado sobre o tema e diz ter ficado “apreensivo, tendo em conta algum histórico que já havia no próprio grupo como tentativa de controlar as parcerias com as câmaras municipais”.

Entretanto, Paulo Lima de Carvalho “acabou por assumir praticamente a gestão de todas as áreas, menos a minha, que tratava, sobretudo, a questão editorial, daquilo que eram as necessidades das redações”, prosseguiu.

Domingos Andrade garantiu que nunca teve conhecimento de qual era o objetivo dos acionistas, nem nunca teve uma reunião com o José Paulo Fafe [atual CEO da GMG], nem com Diogo Agostinho, “administrador que saiu agora recentemente acusado de traição pela própria administração” atual, de acordo com as notícias.

O jornalista teve uma reunião com os administradores Paulo Lima de Carvalho e Filipe Nascimento, depois de toda a equipa da Comissão Executiva ter chamado o então diretor executivo Pedro Cruz “convidando-o” para ser seu interino, “ao que ele terá recusado”.

Nessa reunião, “a única que tive, basicamente o que me disseram é que me queriam afastar da TSF, era preciso encontrar uma solução no regresso a casa, no regresso ao Jornal de Notícias e eu respondi, do princípio ao fim” que pretendia continuar diretor da rádio enquanto a redação assim o entendesse, salientou Domingos Andrade.

Depois disso, “não tive mais nenhuma reunião com ninguém, nem sequer que me permitisse perceber as razões da minha saída quer como administrador para a área editorial da Global Media, quer como diretor da TSF”.

Questionado sobre a situação financeira do grupo antes da entrada do WOF, o jornalista disse que “tanto quanto é do conhecimento público o grupo fecha o primeiro semestre com um EBITDA [resultado antes de impostos, juros, depreciações e amortizações] de 430 mil euros”.

Este era “o quadro que havia no primeiro semestre de 2023”, acrescentou.

Recordou ainda que em fevereiro passado, a Comissão Executiva “no seu todo” aprovou aumentos salariais para “compensar as graves dificuldades” que as pessoas estavam a sentir.

Primeiro foi aumentado o subsídio de refeição e depois proceder-se-ia a um aumento do salário escalonado.

“Esse aumento salarial parou partir do momento em que entrou o novo administrador”, que pediu para aguentar os aumentos salariais até setembro.

A atual Comissão Executiva, liderada por José Paulo Fafe, tem esgrimido acusações aos restantes acionistas da GMG, acusando de terem protagonizado situações “ética e moralmente condenáveis” que contribuíram para a atual situação difícil do grupo e que “raro é o dia” em que não é apanhada “de surpresa”.

Questionado sobre se havia ou não conhecimento por parte do WOF sobre as contas reais da empresa, Domingos Andrade foi perentório: “Não me parece que se façam ‘due diligence’ [análise e investigação] e que depois não se perceba” o que lá está.

“A destruição de valor tem sido tão grande, tão grave, tão gritante, eu não consigo sequer vislumbrar o que pode acontecer daqui para a frente”, acrescentou.

A GMG não é a “mercearia da esquina”, tratam-se de “marcas essenciais e absolutamente estruturantes para a construção da nossa democracia”, reforçou, salientando que há um “cardápio” de entidades, ferramentas para regular a atividade dos media, considerando que isto terá impactos para o setor.

O WOF detém 51% das empresas Palavras Civilizadas e Grandes Notícias, onde os acionistas Marco Galinha e António Mendes Ferreira são detentores dos restantes 49%, de acordo com nova gestão da GMG, sendo que estas duas controlam 50,25% da GMG.

“De facto, o WOF tem uma participação indireta em redor de 26,0% no GMG”, contando com participações de 29,35% de Kevin Ho e 20,40% de José Pedro Soeiro, segundo a Comissão Executiva.

 
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