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Guimarães

Empresa centenária das Taipas fabrica talheres que já chegaram à Casa Branca

Herdmar foi criada há 110 anos com investimento de 50 escudos

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Foto: Rui Dias / O MINHO

Num país onde há pouco mais de 200 sociedades centenárias, a Herdmar já seria notável por contar 110 anos. Uma empresa que se apresenta falando de “design democrático”, mas cujas peças podem ser adquiridas do MoMA, em Nova Iorque ou em Tóquio, em que a mesma família gere um negócio de forma despretensiosa, mas já colocou talheres na mesa da Casa Branca, é mesmo um caso especial de sucesso empresarial.

Tudo começou porque Manoel Marques, em 1911, decidiu deixar a lavoura para se dedicar ao fabrico de facas. Começou num moinho alugado, porque, naquele tempo, as primeiras máquinas elétricas ainda eram uma miragem. Era a força da corrente do rio Ave que punhas as primeiras máquinas em movimento, o primeiro motor elétrico só chegou nos anos 30. Além, disso, como explica Fernando Castro, bisneto do fundador, “às águas sulfurosas, da região termal de Caldas da Taipas, eram importantes para o processo de tempera do aço, naquela época”.

Fernando Castro e Maria José Castro, a terceira geração está entregar o testemunho à quarta. Foto: Rui Dias / O MINHO

Fernando é um dos seis elementos da quarta geração da família que trabalham ainda com quatro elementos da geração anterior, numa fase que identificam como de “passagem do testemunho”. Em Caldas das Taipas a cutelaria é uma arte que vai passando de pais para filhos. Diz-se que as raízes mais longínquas desta indústria podem recuar até à idade média, quando ali existiam alguns dos armeiros capazes de fabricar as melhores espadas. O saber terá atravessado os séculos até dar origem a uma indústria moderna.

A cutelaria já foi uma industria suja e rude, hoje não é assim. Foto: Rui Dias / O MINHO

A água era tão importante que alguns artesãos que se mudaram para outras paragens não foram capazes de reproduzir o processo. “Em Sheffield, Inglaterra, há termas e há cutelaria, em Breccia, Itália, há termas, há cutelaria e nas Caldas da Rainha, onde também há águas termais,  também há cutelaria”, ilustra Fernando Castro. Hoje a Herdmar trabalha com um processo de moldagem a frio, mais ecológico e mais eficiente.

Tudo nasce de uma bobina de aço.. Foto: Rui Dias / O MINHO

Apesar de ser uma empresa centenária, a Herdmar tem os olhos no futuro. Num mercado competitivo, em que a empresa tem que enfrentar a agressividade de preços dos concorrentes asiáticos, questões como a eficiência energética ou a gestão dos recursos hídricos são absolutamente fundamentais. A empresa tem duas estações de tratamento de água que lhe permitem reutilizar toda a água que usam no processo. Os painéis fotovoltaicos na cobertura da fábrica reduzem a conta de eletricidade, num processo cada vez mais robotizado. É curioso ver as antigas máquinas, pesadas, agora operadas por outras máquinas mais modernas, deixando os homens menos expostos ao risco.

Os acabamentos nas extremidades distinguem a qualidade das peças. Foto: Rui Dias / O MINHO

A Herdmar é, hoje, um dos maiores produtores de cutelaria do mundo. No pico da produção (antes deste período de pandemia), a empresa chegou a produzir 140 mil peças por dia, com três turnos que mantinham a fábrica em funcionamento 24 horas por dia. Bem diferente do tempo em que Manoel liderava uns poucos funcionários. Os filhos, Abel e José, iam vender o produto de porta em porta e as filhas faziam o rancho para os trabalhadores.

Os processos são diferentes, a família continua lá e não é preciso ir aos escritórios para os encontrar, eles estão em todas as áreas da empresa. Maria José Marques (neta do fundador), é uma das funcionárias mais antigas da empresa. Lembra-se que o pai punha os sete filhos a encaixotar talheres. “Era uma forma de nos ter por ali ao pé dele e depois, como recompensa, podíamos ir dar um mergulho ao rio”, recorda Maria José. 

Manoel Marques começou com 50 escudos, em 1911. Foto: DR

Há uma cultura de trabalho na família Marques, alguns dos elementos da família começaram pelas funções menos qualificadas e fizeram o seu caminho a partir dali até à administração. Maria José começou a traduzir cartas comerciais quando tinha 13 ou 14 anos e chegou a CEO da empresa.

“Quando eles se foram embora para a Ásia, à procura de preços ainda mais baixos, nós percebemos que tínhamos que caminhar sozinhos”

A geração de Maria José liderou o processo de internacionalização da empresa. Em boa verdade, a Herdmar começou a ganhar tração além-fronteiras desde a década de 1960. José Marques, sem saber falar línguas estrangeiras, aventurava-se por esse mundo – Alemanha, União Soviética -, para comprar máquinas e vender o seu produto O recrutamento de funcionários da empresa para a Guerra Colonial e fuga de algumas pessoas da região para o estrangeiro abriram portas de alguns mercados externos. Contudo, foi a partir dos anos 80 que a empresa começa a perseguir o objetivo de expansão internacional, com a participação em feiras como a CERAMEX (Lisboa), MACEF (Milão) ou AMBIENTE (Frankfurt). 

Talheres pretos em inox foram uma inovação da Herdmar. Foto: DR

“Com a entrada na Comunidade Económica vimos entrar pela porta dentro grandes produtores europeus de talheres que tinham custos de produção muito mais elevados que os nossos. Trouxeram-nos grandes encomendas e tinham um know-how muito melhor que o nosso. Nós agarramos aquilo de braços abertos. Andamos 10 a 15 anos a trabalhar para eles e a nossa marca ficava na sombra. Quando eles se foram embora para a Ásia, à procura de preços ainda mais baixos, nós percebemos que tínhamos que caminhar sozinhos”, lembra Maria José.

“Se eles vendiam na Europa, nós também podíamos vender, os produtos eram nossos, a qualidade era a nossa”, recorda Maria José. Foi assim que o design entrou na empresa, “havia necessidade de criar coisas diferentes”. Se não era possível competir com os asiáticos através dos preços, “tínhamos que competir de alguma forma”, explica Fernando Castro. Foi feito o investimento numa equipa interna de design de produto e design de comunicação, para garantir não só a inovação permanente, mas também que a qualidade da empresa é comunicada de forma eficiente. Esta aposta capacita a empresa para apresentar três novas linhas por ano. “Ao mesmo tempo mantemos as portar abertas a parcerias com escolas superiores de design ou a propostas de designers independentes”, afirma Fernando Castro.

Mãos e olhares femininos asseguram a qualidade e a embalagem. Foto: Rui Dias / O MINHO

A família Marques está há tanto tempo no negócio que há um saber acumulado que circula na família como se fosse já parte de ADN. “As conversas à mesa, nas reuniões familiares, são sobre talheres”, ironiza Fernando Castro. A cutelaria é uma indústria pesada e, até há bem pouco tempo, era suja e rude. Nem sempre é nas telas dos designers que nasce a próxima ideia genial, por vezes é na fábrica, com a mão na massa. Aqui a terceira e quarta geração também já andam de mãos dadas. Mário Marques (terceira geração) tem as ideias fora da caixa, João Marques (quarta geração) organiza o processo. Apesar de ser o mais velho, Mário diz que João é o seu “patrão”. O ambiente na empresa é bom e isso nota-se na forma como as pessoas se relacionam, é possível que seja um dos segredos para o negócio se manter na família ao fim de tanto tempo.

Mario Marques e João Marques, as boas ideias surgem da colaboração entre a nova e a antiga geração. Foto: Rui Dias / O MINHO

Já viu por aí talheres pretos, em inox? São uma inovação da Herdmar. O processo já existia em outras indústrias, mas quem o adaptou à cutelaria foi a empresa de Caldas das Taipas. No desenvolvimento, por tentativa e erro, para chegar ao preto que pretendiam, obtiveram a cor rainbow. Uma cor inconstante que reflete diferentes tonalidades dependendo do angulo em que a luz incide, tão original que se vende no MoMA.

A cor rainbow levou a Herdmar até à loja do MoMA. Foto: Rui Dias / O MINHO

Esta capacidade de inovar tem sido reconhecida através de prémios como o IF Design Award, German Design Award, European Product Design Award, NOOK best Décor Award, Tableware International Awards of Excellence, mas principalmente pela confiança depositada por clientes muito exigentes: Zara Home, H&M, Casa Branca, FBI ou da Louis Vuitton.

Há detalhes que só a mão humana é capaz de fazer. Foto: Rui Dias / O MINHO

A inovação passou a fazer parte da Herdmar. Já não se trata apenas de produzir mais, agora é “produzir peças de excelência que ultrapassam a sua óbvia utilidade funcional, tornando-se verdadeiros complementos de moda à mesa”. Fernando Castro reconhece que atualmente o foco é mesmo acrescentar valor aos produtos que produzem e que até estão a fabricar menos do que há algum tempo atrás. 

O maior desafio não é a pandemia

A pandemia lançou desafios a todas as empresas e no caso da Herdmar não foi diferente. A geração mais nova lutou para fazer vingar a ideia de uma loja online. Os mais novos conseguiram fazer passar a ideia e a loja arrancou em 2018. Durante a pandemia foi muito importante, porque a empresa já tinha um canal direto com os clientes. O volume de faturação da loja cresceu 60% durante o período de confinamento e permitiu aliviar as perdas provocadas pela travagem a fundo da economia. A hotelaria e a restauração representam 30% da faturação da empresa e estes foram precisamente dois dos setores mais afetados pelas medidas de contenção. “As encomendas já vão chegando, mas muito cautelosamente. Algumas encomendas que já estavam feitas foram reduzidas porque continua a haver uma grande incerteza”, reconhece Fernando Castro.

Nenhum talher sai da Herdmar sem passar pelo controlo de qualidade. Foto: Rui Dias / O MINHO

Contudo, a pandemia não é o maior desafio que a Herdmar enfrenta. “Neste momento, temos falta de pessoas para trabalhar. É muito difícil arranjar pessoal”, admite Fernando Castro. Fernando concorda que os salários, apesar de serem mais altos que no setor têxtil, não são atrativos, mas também assume que para se manterem competitivos, “com a carga fiscal que há no nosso país”, não é possível pagar mais.

A empresa foi crescendo naquilo que começou a por ser a casa/fábrica de José Marques, até que, no final dos anos 90, já não era possível continuar naquele espaço. “Os meus avós foram obrigados a mudar de casa por causa do crescimento da empresa”, recorda Fernando Castro. Em 2002, a Herdmar inaugurou as atuais instalações, uma unidade moderna, onde o ar é sempre limpo, acabando com a imagem de uma indústria suja em que os homens andavam permanentemente cobertos de fuligem.

Apesar da robotização, continua a haver detalhes de artista. Foto: Rui Dias / O MINHO

Por ter capacidade de armazenamento, a Herdmar consegue jogar com os preços da matéria-prima (o aço inoxidável). Por estes dias, o preço da matéria-prima está pela hora da morte (+50%), todavia, a Herdmar ainda está a fabricar com aço que comprou no bom tempo. Isso permite assegurar um preço justo ao consumidor final e até revender matéria-prima com lucro.

A Herdmar teve um volume de faturação de cinco milhões de euros, em 2020, e traça como objetivo, para 2021, os seis milhões e meio de euros, mas, para Fernando Castro, a meta dos sete milhões é alcançável brevemente.

Maria José Marques tem 44 anos de serviço, vai sair a qualquer momento. Fernando, o irmão Manuel e os primos Clara, João, Carolina e José Pedro, a quarta geração, quando saírem, muito provavelmente entregarão a Herdmar à quinta geração, para lá da barreira dos 150 anos.

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