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É um dos mamíferos mais pequenos do mundo e foi sinalizado em Paredes de Coura

Nos últimos 15 anos só foram encontrados dois exemplares em Portugal
É um dos mamíferos mais pequenos do mundo e foi sinalizado em paredes de coura

É um insetívoro, mais concretamente um musaranho. E é anão, um dos mamíferos mais pequenos do mundo, mede entre 42 a 72 milímetros (mais cauda entre 32 e 48 milímetros), e pode pesar dois gramas, sensivelmente o mesmo que um clip para prender papel ou duas tampas de caneta BIC. O Musaranho-anão-de-dentes-vermelhos (Sorex minutus) é uma das espécies listadas como “Em perigo” na nova atualização do Livro Vermelho dos Mamíferos em Portugal Continental, apresentado na terça-feira. O animal é tão raro em Portugal que foram realizadas 33 campanhas de armadilhagem no país ao longo dos últimos 15 anos e os resultados foram mínimos. Só não obteve uma classificação de risco mais agravada porque beneficia de alguma população existente na Galiza que pode reproduzir-se para o nosso país. O MINHO falou com Ricardo Pita, que acompanhou o processo de classificação do insetívoro, e o investigador pede mais estudos no Minho para identificar esses corredores.

Sobre a espécie, no Livro Vermelho, consultado esta quinta-feira por O MINHO, pode ler-se que desde a última avaliação, em 2005, “foi efetuado um esforço de amostragem na tentativa de reconfirmar a presença” no Minho, na Serra do Alvão, na Serra da Malcata, Serra do Marão e Serra da Estrela. “No entanto, a espécie apenas foi detetada em dois locais, nomeadamente na Serra da Estrela e na Serra de Arga”, refere o livro, citando o trabalho de investigação de Ricardo Pita. E há que destacar que nos últimos 15 anos foram realizadas mais de 30 campanhas de armadilhagem em diversos pontos do país, não tendo sido possível confirmar a presença da espécie em mais nenhum local que não no Minho e na Serra da Estrela.

É um dos mamíferos mais pequenos do mundo e foi sinalizado em paredes de coura
Fonte: Livro Vermelho dos Mamíferos em Portugal Continental

Dessa forma, é estimado que a área da ocupação destes insetívoros seja a de apenas 10 quilómetros quadrados em todo o país, o que “esteve na origem da classificação” em perigo. Segundo o livro, como foi detetado apenas um indivíduo em cada local e dado que a distância entre os locais, de 196 quilómetros, é bastante superior à distância da dispersão destes animais (2,75 quilómetros), considera-se que a espécie possui uma distribuição “severamente fragmentada”. A espécie só não recebeu uma classificação mais grave porque existe a possibilidade de intercâmbio com populações espanholas, nomeadamente na Galiza, e essas não se encontram ameaçadas.

Ocorre em habitats mais húmidos, como prados ou orlas das florestas, mas também em zonas montanhosas. Os seus ninhos são redondos e construídos com ervas entre raízes de árvores ou arbustos. Vive no máximo um ano e pode ter até duas ninhadas de seis crias por ano. Graças ao focinho comprido e flexível pode remexer e procurar pequenos invertebrados ou larvas no solo solto. É também um bom trepador e pode subir na vegetação até três metros.

É um dos mamíferos mais pequenos do mundo e foi sinalizado em paredes de coura
Foto: Sophie von Merten

“Musaranho-anão-de-dentes-vermelhos no Minho confere à região uma elevada importância para a conservação da espécie no contexto nacional”

Ricardo Pita, um dos investigadores responsáveis pelo estudo destes mamíferos e pela sua publicação na lista das espécies ameaçadas, salienta a O MINHO “o enorme esforço de amostragem de pequenos mamíferos (ordens Eulipotyphla e Rodentia) que foi feito a nível nacional, nomeadamente pela análise de regurgitações de coruja-das-torres (Tyto alba)”.

“Podemos dizer com segurança que a espécie é rara em Portugal Continental. De facto, foi a sua reduzida área de distribuição e abundância, juntamente com o declínio populacional estimado para os últimos 10 anos em Portugal, e a fragmentação severa das populações que justificaram a atribuição da categoria “Em perigo” na avaliação do risco de extinção da espécie a nível nacional”, clarificou.

Para o investigador do Mediterranean Institute for Agriculture, Environment and Development, na Universidade de Évora, “é correto afirmar que a confirmação do Musaranho-anão-de-dentes-vermelhos no Minho confere à região uma elevada importância para a conservação da espécie no contexto Nacional, nomeadamente pela sua proximidade às populações da Galiza, onde a espécie parece ser mais abundante, tendo um risco de extinção Pouco preocupante na última avaliação realizada em Espanha em 2007”.

Encontrado na regurgitação de uma coruja

Ricardo Pita explica-nos que o exemplar encontrado na Serra d’Arga foi confirmado como sendo um musaranho-anão-de-dentes-vermelhos através da análise de regurgitações de coruja-das-torres (Tyto alba) recolhidas no limite oeste da freguesia de Rubiães, em Paredes de Coura. As análises permitiram a identificação de um único indivíduo.

O especialista acrescenta a O MINHO que este método de amostragem não permite uma localização precisa da população a que pertenceria o animal identificado, uma vez que a área de caça desta rapina poderá ir até 3 km de raio do seu poiso, pelo que poderá ter sido caçado noutro concelho ao redor da Serra d’Arga, que atravessa ainda Caminha, Ponte de Lima, Viana do Castelo e Cerveira. Por isso, e de acordo com os critérios usados, a localização foi atribuída ao nível da quadrícula UTM 10x10km, que neste caso inclui o Sítio da Serra de Arga.

É um dos mamíferos mais pequenos do mundo e foi sinalizado em paredes de coura
Foto: Sophie von Merten

O facto de ser presa também é uma posição muito importante

Este musaranho, à semelhança dos outros, alimenta-se fundamentalmente de insetos, aranhas e outros pequenos invertebrados, tendo por isso “um papel fundamental no funcionamento dos ecossistemas e potencialmente no controle de pragas”, evidencia Ricardo Pita, lembrando, no entanto, que “o facto de ser presa de muitas espécies de rapinas e carnívoros, confere-lhe uma posição muito importante nas cadeias tróficas”.

Um dos mais pequenos do mundo

Questionado por O MINHO sobre se este insetívoro é, de facto, um dos mais pequenos do mundo, Ricardo Pita não tem dúvidas, e salienta que o “musaranho-anão-de-dentes-vermelhos é de facto um dos mamíferos mais pequenos do mundo, pesando apenas entre 2 e 7 gramas”, destacando que “durante o inverno, quando a disponibilidade de insetos é menor, a sua massa corporal tende a ser mais reduzida do que nos meses mais amenos”.

Contudo, há em Portugal o musaranho-anão-de-dentes-brancos (Suncus etruscus), que apresenta dimensões menores (1-2 gramas), “sendo, este sim, considerado o mamífero mais pequeno do mundo, a par do morcego-nariz-de-porco-de-kitti que ocorre na Tailândia e Birmânia”. No entanto, é encontrado com muito maior frequência e nas regiões mais a sul e do interior de Portugal.

É um dos mamíferos mais pequenos do mundo e foi sinalizado em paredes de coura
Foto: Philip Hay

Mais estudos no Minho para identificar corredores com a Galiza

A concluir, o investigador responde ao repto lançado para que a sociedade possa, de uma forma geral, ajudar na conservação destas pequenas espécies.

“Sendo um insetívoro, o musaranho-anão-de-dentes-vermelhos, é sensível ao uso de pesticidas e adubos químicos que diminuem a disponibilidade de invertebrados. Nesse sentido, a conservação da espécie deve incluir práticas agrícolas extensivas, sobretudo nos seus habitats preferenciais, nomeadamente zonas húmidas e de água doce”, refere.

E, em forma de alerta, prossegue: “De facto, a intensificação da agricultura, a poluição, e a destruição e a fragmentação dos habitats são apontadas como as principais ameaças para o grupo dos pequenos mamíferos (insetívoros e roedores) em Portugal, sobretudo para as espécies associadas a ambientes mais húmidos, como é o caso do Musaranho-anão-de-dentes-vermelhos”.

No entanto, diz, “importa notar que uma identificação mais concreta do tipo de gestão da paisagem e dos habitats que poderão favorecer esta espécie, implica necessariamente mais estudos dirigidos à sua ecologia, que é ainda pouco conhecida. No caso de Portugal e do Minho em particular, seria útil a realização de estudos que permitissem identificar e conservar corredores de conectividade com as populações do norte de Espanha, de forma a aumentar a capacidade de persistência da espécie em território nacional a longo prazo”.

 
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