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Opinião

“…E mesmo nas nossas Escolas Públicas, os meninos não são todos iguais…”

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Artigo de Vânia Mesquita Machado

Pediatra e escritora. Autora dos livros “Microcosmos Humanos” e “Humana Seja a Nossa Dor”. Mãe de 3. De Braga.

…E mesmo nas nossas Escolas Públicas, os meninos não são todos iguais…

…O menino ia ficar ali sentado, sozinho, encostado às grades ao lado do portão fechado da sua escola, à espera da hora em que o portão se abria e podia entrar para o recreio, quinze minutos antes de tocar para começarem as aulas.

Eu não tinha compreendido imediatamente qual o motivo da fuga discreta do meu loirinho sardento ao abraço apertado que lhe dava à porta da escola nessa manhã. Retribuía sempre todo contente, antes de correr sorridente para a salinha da ATL (Atividade de Tempo Livre). Os abraços dos meus três filhos seguiam comigo depois no carro, atenuando o stress diário do trânsito matinal antes de chegar ao hospital, todos os dias às 08:30.
Olhei para ele e percebi, pelo olhar de relance para o amigo que se aproximava sem contar.

O meu filho a encher o peito como um homenzinho e a cumprimentar o amigo, de ar encabulado por ter sido apanhado no abraço da mamã, porque os rapazes da 4ª classe já são crescidos e desenrascados, não são nenhuns bebés de colo, e apesar de adorarem esses abraços e não prescindirem dos mimos ao serão e à noite exigirem o aconchego dos lençóis pela mamã, em frente aos amigos já são tesos e rijos, a voz fica mais grossa, jogam futebol e esfolam os joelhos sem chorar.

– Olha o teu amigo já chegou, João! – Disse eu, largando o meu filho que cumprimentava o amigo.

– Fogo! Ainda por cima hoje cheguei uma hora mais cedo… Agora vou ter de esperar este tempo todo aqui fora!» – Desabafou o menino, enquanto se sentava e pousava a mochila.

Instintivamente baixei os olhos sem conseguir dizer mais nada, enquanto o meu filho descia a rampa da escola a correr, olhando para trás a acenar antes de entrar na salinha de ATL, como habitualmente.

E eu entrei no carro a remoer o sentimento de revolta pela injustiça, a tentar afastar de mim o pensamento mas sem conseguir porque esse pensamento gerou muitos outros, sucessivamente.

“Ensino Público” implicaria, por definição, igualdade de direitos e oportunidades para todos os meninos…
… Obviamente que esse conceito era à partida uma utopia.

Os meninos para além das suas mochilas às costas, carregavam também um fardo pesado de desigualdades conforme a sua sorte ou azar – as discussões entre os pais em casa abafadas por quatro paredes, o pai triste por ter perdido o emprego, a mãe sozinha e cansada porque o pai tinha emigrado, a falta de um bom jantar, o estômago vazio de pequeno-almoço, o material escolar insuficiente, uma doença que o fazia sofrer e faltar, entre tantas outras coisas que se repercutiam depois na sua capacidade de se concentrar nas aulas, amontoando-se depois os diagnósticos de meninos hiperativos, afetando incomodamente o tão importante ranking das escolas (meninos desconcentrados em grande parte também pelo desajustamento dos programas pedagógicos à sua forma de ser, claro está, mas esses programas são (estranhamente) iguais para todos; os meninos é que são, e ainda bem, diferentes uns dos outros).

Mas a flagrante diferença entre os meninos nas Escolas Públicas expressa-se também nestas aparentemente insignificantes nuances, que todos acabamos por esquecer no meio de tantas outras preocupações mais relevantes das nossas vidas diárias, como são os compartimentados horários escolares, que necessariamente exigem um complemento após o período letivo.

Quantos são os Pais que trabalham e se podem dar ao luxo de deixar os seus Filhos nas escolas às 08:45, ou ir busca-los às 17:30?

Devem contar-se pelos dedos das mãos, em cada Agrupamento Escolar.

O facto é que o horário escolar no 1º ciclo do Ensino Básico, entre as 09:00 e as 17:30 (incluindo as AECs (Atividades Extra-Curriculares), as quais são facultativas mas gratuitas) é totalmente desajustado aos horários laborais dos Pais.

E para frequentarem as ATLs, é necessário pagar um valor extra mensal que não é acessível a todas as bolsas (não vou divagar aqui sobre a não gratuitidade das refeições escolares. Não sou economista e se o que contribuo mensalmente com os meus impostos não é suficiente, será certamente porque o erário público é indispensável para outras despesas prioritárias. Pertencendo eu à “classe média”, sou privilegiada porque não integro nenhum “escalão de subsídios escolares”* (*leia-se: valores irrisórios dados a famílias indubitavelmente carenciadas)).

E os meninos entre os 6 e os 9 anos, não existindo Auxiliares de Ação Educativa suficientes para cuidarem deles no recreio enquanto as aulas não começam ou quando terminam e os pais não saíram dos empregos, se os seus Pais não tiverem possibilidade de pagar as ATLs, ficam à espera do lado de fora das escolas sentados no muro encostados às grades, durante longos minutos, faça sol ou faça chuva. Sozinhos.

E o portão encerrado durante esses longos minutos, a estabelecer a necessária barreira entre o recinto escolar e o exterior, é simbolicamente representativo da falsa igualdade de oportunidades entre todos os meninos que frequentam as Escolas Públicas no nosso País.

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Opinião

Por que temos de despedir ou recorrer ao lay-off?

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ARTIGO DE RICARDO COSTA

Gestor. CEO Grupo Bernardo da Costa. De Braga.

O meu nome é Ricardo Costa e sou CEO do Grupo Bernardo da Costa. Um grupo de empresas familiar que nasceu em Braga no ano de 1957 e conta já com membros da sua terceira geração na gestão do negócio. Temos 164 pessoas a trabalhar connosco, 82 das quais em Portugal.

Talvez já tenham ouvido falar de nós quando em 2017 fomos a primeira empresa em Portugal a criar um Departamento da Felicidade, que como o nome indica procura criar condições para que as pessoas que trabalham connosco sejam mais felizes.

Também fomos notícia nos momentos em que oferecemos viagens à nossa equipa (ou um salário extra às pessoas que por algum motivo não podiam viajar). Juntos estivemos em Punta Cana, passamos por Cuba, México, Jamaica e por último Cabo Verde. Este ano, entre os dias 9 e 16 de Junho, estava previsto irmos todos ao Egito.

O que me leva a escrever este texto é a profunda desilusão com as medidas adotadas pelo governo para fazer face à crise económica que começa a surgir e que seguramente se vai agravar, em consequência da pandemia da COVID-19, que é já a maior crise sanitária da nossa geração.

Quando analisamos as medidas e a sua aplicação na prática ficam-nos na memória essencialmente 3 palavras – desemprego, lay-off e endividamento.

Com exceção de alguns setores muito específicos, como a restauração, hotelaria, agências de viagem, etc. que tiveram quebras na ordem dos 80 a 90% de faturação e onde o lay-off imediato é de facto uma medida importante (desde que devidamente operacionalizado e flexibilizado), em outros setores, como a indústria, o comércio e os serviços que estejam ou venham a sofrer uma redução das encomendas ou faturação entre 20 a 40%, não entendo este incentivo e apoio do governo para que as empresas suspendam a atividade e os contratos de trabalho.

Sim, sou completamente contra a redução em 33% dos salários das pessoas, quando todos sabemos que muitas famílias com os rendimentos atuais já mal conseguem suportar as despesas do dia-a-dia.

Alguém já pensou na espiral recessiva que esta medida vai ter a médio prazo? Como vai ser a reintegração de milhares de pessoas depois de estarem 3 a 6 meses sem qualquer atividade profissional? Como vão aguentar estar em casa com um sentimento de inutilidade durante todo este tempo e qual vai ser o seu estado mental e psicológico?

E o que devia então fazer o governo?

Muito simples – criar um conjunto de medidas de apoio às empresas que mesmo tendo uma redução da faturação entre 20 a 40%, mantivessem atividade e não diminuíssem em mais de 5% o número de pessoas ao serviço durante este período de crise.

Entre estas medidas destaco como prioritárias a isenção das contribuições para a TSU até ao final de 2020, a isenção da taxa de IRC relativo a 2019, a eliminação dos Pagamentos Especiais por Conta durante o ano de 2020 e moratória nos pagamentos de IVA e IRS até ao final do ano, sendo esse valor pago em 36 prestações mensais sem juros a partir de Janeiro de 2021.

Podia ir mais longe e sugerir que o estado suportasse uma parte dos salários dos trabalhadores na mesma proporção da redução da faturação e mesmo assim estas medidas teriam de certeza menos impacto no orçamento de estado que o lay-off simplificado e o pagamento dos subsídios de desemprego que a segurança social vai ter de pagar já a partir de Abril.

Com estes apoios o governo conseguia por um lado garantir que a economia continuava a funcionar, e por outro lado incentivar a que as empresas se reinventassem e se adaptassem à nova realidade económica.

No nosso caso, mesmo sem qualquer medida efetiva de apoio por parte do governo e seguindo uma filosofia que sempre colocamos em prática no que se refere à importância da mudança e da adaptação, estamos já a reinventar e inovar processos, serviços e produtos. Admitimos já durante o mês de Março novos estagiários e renovamos vários contratos de trabalho, mesmo com as pessoas que passavam a efetivos. Também conseguimos antecipar alguns aspetos positivos desta crise como são o desenvolvimento e disseminação do teletrabalho que permite a flexibilização dos horários, a redução do tráfego para entrar/sair nas cidades, as melhorias ambientais e sociais e a utilização das ferramentas informáticas. Tudo isto permite atingir mais facilmente um dos objetivos do nosso departamento da felicidade – Atingir o equilíbrio perfeito entra a vida pessoal e profissional.

Sinto um orgulho enorme em perceber que tudo o que “investimos” nas pessoas ao longo de todos estes anos está agora, neste momento tão difícil, a ter o retorno esperado. A nossa equipa está mais unida do que nunca e a adaptar-se todos os dias para conseguir vencer.

Sempre afirmei que as empresas não são feitas de pessoas, as empresas são as pessoas. Nunca este sentimento fez tanto sentido. O governo não pode incentivar a que de um momento para o outro essas mesmas pessoas vejam reduzido em 1/3 os seus rendimentos.

À minha equipa eu digo que vou lutar todos os dias para que o desemprego ou o lay-off nunca sejam uma opção. E sim, iremos continuar a pagar os salários e prémios a todos os que sempre estiveram ao nosso lado.

Ricardo Costa

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Obrigado, autarcas!

Opinião

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ARTIGO DE EDUARDO FERNANDES

Engenheiro. Presidente da JSD Guimarães

Pelo título deste artigo, pode parecer que já chegamos ou estamos perto de chegar ao fim desta guerra invisível, não é verdade. Na realidade, estamos ainda muito longe de acabar com isto. E, por isso, convém relembrar aqueles que lutam diariamente, para além dos profissionais de saúde a quem também devemos a nossa vénia, para que este problema se resolva da forma mais rápida e eficiente possível.

A este nível, temos muito que agradecer aos nossos autarcas. Todos eles, dos Presidentes de Junta aos Presidentes de Câmara. Nestes tempos em que a DGS se apresenta aos portugueses todos os dias com uma comunicação desastrada e pouco habilidosa, em que o número de infetados revelado não corresponde inteiramente à realidade, em que não há consenso no que diz respeito à estratégia a adotar para a resolução da grave crise que se abateu nos lares de idosos um pouco por todo o país e, até, no que diz respeito a um suposto cerco sanitário (planeado apenas pela própria diretora da DGS, pelo que consta) para uma cidade com mais de 200 mil habitantes sobre o qual, o próprio autarca dessa cidade não tinha conhecimento.

Concordo quando o primeiro-ministro diz que não se mudam os generais a meio da batalha. Só acho é que a atribuição do título de generais está mal feita. Os verdadeiros generais, tem sido os nossos autarcas que todos os dias estão no terreno. Todos os dias se debruçam sobre grandes ineficiências estatais às quais, muitas vezes por meios próprios, tem de dar resposta. E, sejamos sinceros, foram também os autarcas os primeiros a perceber a real magnitude desta guerra e a preparar cada um dos seus concelhos para o que aí vinha.

A estes, o meu sincero obrigado.

Eduardo Fernandes

Engenheiro e Presidente da JSD Guimarães

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Opinião

Um presente, literalmente, envenenado! E o futuro?

Covid-19

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ARTIGO DE IVONE CRUZ

CEO LINK Cowork & Business (Viana do Castelo). Presidente M4P – Associação Nacional para Inovação e Desenvolvimento

Eu, tal como todos vocês, tenho vivido uma vida muito diferente daquela a que estou habituada.

O meu dia-a-dia sempre foi rodeado de muitas pessoas, de muita flexibilidade, de muita entrega pessoal e profissional, de família e amigos. Não posso propriamente dizer que até hoje não tenha vivido intensamente e que, por esse motivo, tenho arrependimentos de não ter feito algo que agora faria. Tenho é saudades, isso sim. Saudades de ir, de fazer, de estar. Saudades de decidir.

Eu, tal como vocês, tenho feito os impossíveis para “portar-me bem”, sentindo-me por vezes culpada quando estou a fazer uma caminhada para aliviar a tensão do confinamento a casa e do isolamento social, embora saiba que está recomendada e indicada para a nossa saúde física e mental. Tenho tentado pôr-me no lugar dos profissionais de primeira linha, não tivesse eu um em casa, ou amigos a desempenhar essa complexa tarefa. Essa consciência acrescida é também um dos motivos que nos leva a não estar com os nossos familiares inseridos no grupo de risco, o mesmo será dizer, os pais. Nem com os amigos. Nem com os conhecidos. Nem com os clientes.

Com ninguém.

Estamos isolados dentro das quatro paredes da nossa casa que, por privilégio, é confortável e ajuda a suportar este isolamento. Se houvesse um jardim e uma horta, melhorava consideravelmente. Tenho noção no entanto que há famílias numerosas confinadas a minúsculos apartamentos. Consciência de que há pessoas que estão a atravessar uma situação económica delicada (e “isto” ainda agora começou), com filhos menores a seu encargo. Irão valer-lhe as famílias e os amigos, assim o espero. E a tal solidariedade (frágil).

Vivemos um dia de cada vez, com os olhos postos num futuro incerto. Mais do que o era até agora. Leio artigos de variados pontos de vista, uns mais fatalistas, outros mais positivos, outros mais dramáticos. Todos inconclusivos. Compreendo que ninguém saiba bem o que nos espera, embora não precisemos de ser especialistas em estatística para analisar as probabilidades. Com tudo parado, a economia vai levar porrada (outra vez), e somos nós que vamos ficar com um olho negro.

Irão sobreviver os de sempre, mais os que vão ver oportunidades na desgraça. Vão igualmente manter a cabeça à tona aqueles que tiverem capacidade para se reinventar, adaptando o seu negócio às necessidades do mercado. Quero achar que é aqui onde me situo. Espero ainda conseguir arrastar alguns para este campo, motivando-os a pensar diferente e a procurar oportunidades no mercado. Não há tempo para lamentações, todos vamos sofrer o impacto.

A tecnologia irá ser rainha (se já não o era). Por força das circunstâncias, muitos percebem agora, finalmente, que não há necessidade de se deslocarem a Lisboa ou a Roma para participarem em reuniões. Que os alunos podem ter aulas à distância e que as compras chegam a casa, só com um clique. Todos estamos a vivenciar os impactos positivos que menos deslocações provocam no meio ambiente e na gestão do nosso tempo. Dizem que as pessoas serão ainda mais sensíveis a estas questões e que irão viajar menos, mesmo em lazer. Neste último segmento, tenho dúvidas. O trabalho independente, por força do contacto com o teletrabalho, irá precipitar-se.

Não sei se isto será verdade, ou se eu quero acreditar que seja. Há anos que promovo o trabalho por projetos como solução para alguns males. Convivo com pessoas bem-sucedidas que provam o conceito, ao trabalhar de forma independente ou remotamente para empresas – nacionais e estrangeiras- que as contratam por projetos “ com início e fim”. No entanto, tenho algum receio que ao serem implementados planos de teletrabalho à pressão, tipo fornada, possa levar a alguma falta de planeamento. Juntando à falta de conhecimento relativo a ferramentas tecnológicas colaborativas e de gestão, poderá conduzir a conclusões precipitadas e negativas sobre este modelo de operar.

Há poucas certezas e muitos desejos. Estamos banhados por um medo que nos paralisa.

Precisamos de repetir este movimento vezes sem conta até que saia de forma natural: levantar, sacudir e andar. Será a nossa capacidade de resiliência e de reinventar que irá conduzir-nos novamente para o carril. E ninguém nos vai colocar lá, somos nós. Depende de cada um, assim como da sua capacidade analítica e critica sobre o que o rodeia, de alguma visão e de muita humildade para aprender, reaprender.

Estamos juntos, vai ficar tudo bem, estamos todos no mesmo barco, mas uns estarão mais juntos, ou ficarão “bem melhor”, e é preciso pensar também que o barco tem vários compartimentos.

Desejo um futuro mais colaborativo, mais big data, com mais apoio à investigação, mais genuíno e menos superficial. Um futuro com maior interesse e participação da sociedade em tudo que lhe diz respeito. Mais concreto e menos abstrato.

Entretanto, enquanto estamos longe uns dos outros, a assistir a tudo o que nos rodeia, façamos o que nos compete. Cuidemos de nós e dos nossos, porque se cada um o fizer na sua esfera de influência, os resultados saltarão à vista. Saúde.

Ivone Cruz
CEO LINK Cowork & Business www.linkcb.pt
Ivone Cruz Apoio a projetos facebook.com/ivonecruzAP

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