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Alto Minho

Coreógrafa galega está a formar ‘mandadores’ do Vira em Ponte da Barca

Cultura

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Foto: Facebook de Mercedes Prieto

A coreógrafa galega Mercedes Prieto está a dinamizar, em Ponte da Barca, oficinas de dança tradicional que pretendem valorizar a figura do mandador dos bailes espontâneos e formar novos marcadores do ritmo das ‘rodas” do Vira.

Em declarações hoje à agência Lusa, Mercedes Prieto explicou que as três sessões de formação em Ponte da Barca, com o tema “Bailes Mandados. Quem manda aqui?”, começaram em março e terminam, no sábado, às 16:00, na tenda do Vira, no largo do Curro, ao abrigo do projeto “De Volta aos Bailes Mandados em Portugal”.

Promovido pela associação PédeXumbo, com sede em Évora, o projeto pretende “resgatar” a prática informal de bailes, valorizar o papel dos mandadores e a importância de formar novos nas diferentes comunidades.

O projeto, com duração de dois anos, foi o vencedor da quarta edição do programa “Tradições”, promovido pela EDP em concelhos onde construiu barragens, e tem financiamento da Direção-Geral das Artes (DGArtes).

O mandador das danças espontâneas de Ponte da Barca é a figura central das oficinas dinamizadas por Mercedes Prieto.

“É importante salvaguardar e valorizar a figura do mandador dos bailes mandados no Alto Minho. Se não o fizermos, dentro de alguns anos este património imaterial, tão bonito e que marca a identidade e a cultura de um povo, desaparece”, realçou a coreógrafa natural de Salvaterra do Miño, localidade galega a 400 metros de Monção, e a residir em Caminha, no Alto Minho.

O mandador, ou marcador, marca o ritmo da dança, indicando os passos e o sentido que esta deve tomar. A sua “linguagem coreográfica” difere de região para região, podendo ser “verbal, gestual ou corporal”, mas é “fundamental, tal como a prestação dos músicos, a tocar ao vivo, e dos bailarinos, para o sucesso das danças tradicionais”.

Em Ponte da Barca, em Arcos de Valdevez e noutros municípios do distrito de Viana do Castelo, os bailes mandados voltaram a terreiro, onde nasceram, e juntam cada vez mais praticantes.

Nestes concelhos, as danças espontâneas são designadas por ‘rodas’ porque no centro ficam os tocadores de concertina a que se juntam os bailarinos, dançando em círculo, aos pares.

A ‘roda’ vai crescendo à medida que novos pares se juntam, bailando ao som do Vira das Chulas e das melodias da Cana Verde, das mais antigas danças populares das aldeias do Alto Minho, sob orientação do marcador.

Durante todo o ano, as tardes de domingo são passadas nas ruas em ‘roda’, ao som da concertina, das castanholas e do reco-reco, bailando-se o vira durante horas seguidas. O gosto pelo folclore e pela música tradicional junta pessoas de todas as idades.

“Toda a gente consegue dançar facilmente porque há um mandador. Pode ser homem ou mulher, não importa, mas não pode ser uma pessoa qualquer. Tem de saber dançar muito bem. Antigamente, a figura do mandador era desempenhada sobretudo pelos homens, pela voz mais forte e colocada, para se sobrepor ao som das concertinas. Hoje já há mandadoras e, espero que com estas oficinas, mais mulheres comecem a mandar nos bailes”, explicou a professora de dança.

A perder-se noutras regiões do país, o “mandador é fundamental para que o baile aconteça, para que a tradição se perpetue, e passe para as gerações futuras”, assinalou Mercedes Prieto.

Nas suas oficinas de práticas coreográficas, que têm o apoio da Câmara de Ponte da Barca, os participantes são desafiados a “aprender os passos base e o seu ritmo, as figuras dançadas e o lugar ou o tempo no qual se deve lançar o mando”.

As sessões “realçam ainda a relação da música e dos músicos com os bailadores e exploram as dinâmicas de relação, escuta e desafios entre os participantes, os músicos [tocadores de concertina, as castanholas e o reco-reco], bailadores e os marcadores”.

“Fico muito contente com o orgulho que as pessoas sentem pelas suas danças tradicionais. No Alto Minho, há muita ‘chieira’ pelas tradições deixadas pelos antepassados”, realçou a professora de dança.

O projeto “De Volta aos Bailes Mandados em Portugal” iniciou-se em 2021 e decorre até final do ano em Sines, na Lousã e em Ponte da Barca, incluindo encontros “entre bailadores e mandadores para partilha das diferentes danças e tradições das três regiões do país”.

No dia 10 de junho, as comunidades e associações locais dos três concelhos envolvidos vão juntar-se em Reguengos de Monsaraz, no distrito de Évora, para “partilhar” as práticas coreográficas e géneros musicais que ainda preservam.

O projeto “De Volta aos Bailes Mandados em Portugal” procura ainda recolher “testemunhos e fontes (escritas, audiovisuais ou fotográficas) que permitam documentar estas danças”.

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